23 Oct 2020, 7:02 am

Classic Mosh: Deep Purple – Come Taste The Band


Por Emerson Mello

Não é novidade que Blackmore não ficou nada satisfeito com os contornos Funk e Soul que o Deep Purple assumiu no álbum Stormbringer. Esta insatisfação culminou com a saída do guitarrista no dia 07 de abril de 1975, uma semana antes dele completar 30 anos, pra montar o Rainbow com o vocalista Ronnie James Dio. Antes disso convidou o vocalista David Coverdale pra assumir os vocais do Rainbow, que recusou o convite, o que estremeceu a relação entre os dois.

Após os outros músicos cogitarem encerrar o Deep Purple, abalados pela inesperada perda de Blackmore, Coverdale os convenceu a seguir em frente, então a missão foi recrutar um novo guitarrista e substituir Blackmore àquela altura não era das tarefas mais simples. O próprio Coverdale indicou 03 nomes para substituí-lo, sendo eles Jeff Beck, Rory Gallagher e o até então desconhecido (para os britânicos) Tommy Bolin. Bolin já tinha uma boa reputação nos EUA por já ter tocado com o James Gang, aonde gravou os álbuns Bang e Miami que tiveram boa repercussão e também por ter gravado o grande clássico Spectrum, com o baterista Billy Cobham. A banda demorou pra chegar até ele, pois simplesmente não conseguiam saber aonde ele morava e por fim conseguiram marcar uma audição aonde a banda de imediato curtiu o estilo do guitarrista.

Na tradução livre do título do álbum seria algo como ‘Venha e experimente a banda’, sugerindo ao ouvinte que escute o álbum com mente (e ouvidos) aberta à nova viagem musical proposta pela banda. A capa reforça este conceito, sendo uma montagem aonde vemos o rosto dos integrantes imersos em uma taça de vinho. O título veio de uma junção de uma frase que Tommy Bolin disse em uma noite em que ele e Glenn Hughes haviam bebido bastante vinho, que seria “come taste the wine, come hear the band”, então Glenn Hughes sintetizou isto numa única frase que gerou o título do álbum. Com um novo guitarrista talvez a banda se sentisse mais à vontade para experimentar e tentar outros vôos musicais. O álbum na época não foi bem recebido, principalmente pela ala Blackmoriana dos fãs da banda. Com o passar do tempo foi sendo melhor aceito e hoje é um álbum cultuado entre os fãs da banda. Muitos álbuns são assim, precisam de tempo para que se possa assimilar e apreciar.

Como nos álbuns anteriores a produção continuou a cargo de Martin Birch e foi gravado no Musicland Studios em Munique.  A sonoridade do álbum ficou excelente, com a banda soando muito bem, principalmente a bateria de Ian Paice, que aqui considero um de seus melhores timbres. Além disso, a performance dele esta magnífica, pois tocando mais solto ao lado de Glenn Hughes teve oportunidade de explorar outras nuances do seu estilo. Bolin participa ativamente das composições do álbum co-escrevendo 07 das 09 músicas do álbum, a maioria delas em parceira com David Coverdale.  Como curiosidade vale ouvir os álbuns ‘Days May Come and Days May Go ‘ e ‘1420 Beachwood Drive The California Rehearsals pt 2’que foram ensaios e pré-produção do álbum com a banda tocando mais despretensiosamente, experimentando arranjos, riffs, etc.

‘Comin Home’ abre o álbum muito bem, trazendo um pouco a energia do Deep Purple mais hard, uma música que caberia muito bem no Stormbringer. Curiosamente sendo a música de abertura ela foi a última a ser composta, já que as demais tinha sido feitas ainda na pré-produção em Los Angeles e ela foi feita já em estúdio. Reza a lenda que as partes de baixo foram gravadas por Bolin, pois Glenn Hughes teve que retornar a Inglaterra por conta do vício de cocaína. “Lady Luck” foi resgatada de uma parceira de Tommy Bolin com seu antigo parceiro de composição Jeff Cook, mas como Bolin não lembrava a letra Coverdale reescreveu toda ela. ‘Gettin’ Tigher’ de longe  a mais funky do disco, uma parceria de Glenn Hughes e Tommy Bolin, e Hughes canta ela toda sozinho. Dá pra imaginar o que iria sair se eles fizessem um álbum inteiro deles juntos. ‘Dealer’ já entra com um riff de guitarra a la Bolin com um timbre característico de fuzz. Nesta música Coverdale divide os vocais com ele, que canta uns versos do meio da música. ‘I Need Love’ já tende pra Soul Music, uma música despretensiosa e agradável que encaixa muito bem na voz de Coverdale. ‘Drifter’ traz outro riff marcante de Bolin e uma letra clássica no estilo Coverdale: “I was born a rambling man/An’ I never got the chance/To settle down an’ get a hold on love”. Paice cresce nos detalhes nesta música, fazendo tempos e contratempos dando um brilho sutil ao arranjo. Jon Lord aparece um pouco mais no meio fazendo uma bela cama para Bolin. ‘Love Child”é um dos melhores momentos do álbum com um riff marcante e um andamento mais pesado. Jon Lord entra dobrando o riff com Bolin e fazendo  um belo solo. Novamente outro show de Ian Paice.

‘This Time Around’ com certeza o melhor momento de Jon Lord no álbum, ele faz um belo arranjo de piano e teclados e a interpretação de Glenn Hughes é perfeita. Emendada com ela temos a bela instrumental ‘Owed to G’ com um tema de guitarra muito marcante. Fechando o álbum a música que talvez seja o maior clássico deste álbum ‘’You Keep on Moving’. A música foi composta por Coverdale e Glenn Hughes ainda em 1973, mas foi vetada por Blackmore de entrar no disco e acabou tendo oportunidade neste álbum. O baixo de Glenn Hughes marca o andamento da música que começa densa e pulsante, vai crescendo até cair num peso com toda a banda. Nela temos o registro de um dos mais belos duetos vocais entre Coverdale e Glenn Hughes, duas vozes que se encaixavam perfeitamente, uma grave e rouca e outra aguda e agressiva. Uma pena que comercialmente o álbum não foi bem aceito e que também Tommy Bolin no auge do vício com a heroína tornou a turnê do álbum uma miséria. Não fosse isto com certeza caberia uma boa seqüência do álbum.

Tracklist:

01 – Comin’ Home

02 – Lady Luck

03 – Gettin’ Tighter

04 – Dealer

05 – I Need Love

06 – Drifter

07 – Love Child

08 – This Time Around/Owed To ‘G

09 – You Keep On Moving

Formação:

Jon Lord: Teclados/Piano/Sintetizador

Ian Pice: Bateria/Percussão

David Coverdale: Vocal

Tommy Bolin: Guitarra

Glenn Hughes: Baixo/Vocal

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Postado em julho 24th, 2020 @ 20:20 | 358 views
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