13 Dec 2017, 6:39 pm

Fleshgod Apocalypse & Septicflesh No Hangar 110


Fleshgod Apocalypse E Septicflesh @ Hangar 110, São Paulo – 12.10.2017

 

Texto: Henrique G. de Paula
Fotos: Renato Jacob

No último dia 12 de outubro a casa Hangar 110, originalmente projetada para shows de punk rock, recebeu o seu primeiro (salvo engano) concerto de ópera e música clássica da história… e brutal death metal! A improvável mistura de estilos que caracteriza o chamado Symphonic Death Metal foi representada nesta quinta-feira por um de seus mais antigos precursores, a banda grega Septicflesh, e o seu representante mais promissor atualmente, a banda italiana Fleshgod Apocalypse. Ambas, pela primeira vez no país, vieram para mostrar que as combinações paradoxais de melodias orquestradas e blast beats, ópera e vocais guturais, brutalidade pungente e sofisticada sensibilidade artística, de fato, funcionam! Um público misto de jovens fãs, atraídos principalmente pelos italianos, e bangers old school, que muito tempo esperaram pelos gregos, recebeu as bandas com um calor quase tão forte quanto o que fazia naturalmente na noite paulistana.

FLESHGOD APOCALYPSE

O público ansioso, que insistia em abrir as cortinas do palco, dando trabalho aos técnicos de som, viu entrar, primeiramente, a Fleshgod Apocalypse, com nova formação, sem o seu guitarrista e vocal principal Tommaso Ricardi, que deixou a banda há pouco tempo. O fato que causava dúvidas a alguns fãs foi logo minimizado quando Paolo Rossi (baixo e vocais limpos), Francesco Paoli (que assumiu os vocais principais, deixando o posto de baterista e assumindo também a guitarra), Francesco Ferrini (piano), e os novos integrantes David Folchitto (bateria) e Fabio Bortoletti (guitarra) despejaram todo o seu bom gosto artístico nos ouvidos do público. E não nos esqueçamos, é claro, da estrela que dá o brilho distintivo da banda, a competentíssima soprano Veronica Bordacchini, que surgiu portando máscara e uma espécie de tridente ornamentado, apetrechos característicos de suas apresentações. Usando os mesmos trajes e maquiagens que lhes são peculiares e que vemos em suas fotos promocionais e vídeos musicais, os italianos não economizaram no peso de sua música que só não foi maior porque o som da bateria não era dos melhores e o vocal de Paoli estava um pouco baixo no início do show. Nada que tenha estragado a performance, é claro, mas acabou deixando a impressão de que são mais brutais no estúdio do que ao vivo. E que não se enganem os bangers puristas, pois a apresentação, que teve duração quase exata de uma hora, teve tudo o que é característico de um show de death metal, com rodas de mosh, wall of death e sinais do demônio nas mãos… A mescla praticada pela banda de música erudita e death metal, deixa predominar o último ingrediente e não decepciona quem tem gosto pelo peso e agressividade típicos da música extrema. Os italianos demonstraram bom humor em cima do palco e, bastante comunicativos com o público, disfarçaram bem alguns problemas técnicos que tiveram antes e durante o show. Rossi, responsável pelos vocais limpos, e que também canta em falsete – às vezes até lembrando um famoso dinamarquês que esteve há alguns meses no Brasil – ajuda Paoli com os rasgados, compensando a falta do antigo vocalista dissidente. Em suma, uma banda com proposta musical inusitada, mas realizada de maneira surpreendentemente eficaz e que tem tudo para crescer ainda mais no cenário metálico contemporâneo.

A dobradinha “March Royale” e “In Aeternum”, do último álbum “King” (2016) abriu os trabalhos. O clima épico desta abertura parece transportá-lo diretamente à trilha sonora de um filme de guerra medieval… “Healing Through War”, do mesmo álbum, anunciada por Paoli, veio na sequência. A cadência inicial da música foi perfeitamente marcada pelos típicos gritos (Hey! Hey! Hey!) da galera, momento em que o pianista Ferrini aproveita para vir à frente saudar os fãs. Ao fim da música, depois de ouvir o público gritar o nome da banda, Paoli pede silêncio ao público, mas não é atendido. Com bom humor, ele contorna a situação, e mais uma do álbum “King” é executada: “Cold as Perfection” que começa grandiosa com forte orquestração. Continuando com suas brincadeiras, no meio da canção Paoli pede que a galera jogue os braços ao alto e balance de um lado ao outro, como se aquela fosse a baladinha da banda… Surpreendentemente, desta vez a galera o atende, e o fim “pauleira” da música gera a primeira roda de mosh da noite. Findando com um “obrigado, São Paulo”, o vocalista pergunta para a plateia o nome da próxima música, que ele mesmo grita, fora do microfone: “The Violation”, do disco “Agony” de 2011, música que possui famoso videoclipe que já conta com mais de 5 milhões de visualizações no Youtube. A canção que começa com samples de violino, antes de instaurar o caos na Terra, levanta até defunto… Provavelmente, a mais brutal executada pela banda na noite! “Gravity”, retornando ao disco “King”, é uma boa escolha para acalmar a galera, com seu andamento lento e letra quase falada no início. E aqui brilha Veronica, se mexendo e batendo o cetro no chão, com toda a atitude que deve ter uma soprano death metal! “The Fool”, com seu piano engraçadinho no começo, é precedida por uma breve narrativa de Paoli da história da banda, do início até àquela noite, em que estreiam Folchitto e Bortoletti. E o momento agora é de Ferrini que sobe na caixa de som, para mostrar para a galera o que deve fazer um pianista de death metal…! Perfeito! Pausa para um comentário incidental: na arte de fazer caretas ninguém bate estes italianos. “The Egoism”, do álbum “Agony”, vêm na sequência, porque nem só de “King” vive o Fleshgod Apocalypse. Eis que Paoli, então, no meio da música resolve trabalhar como arquiteto: divide cuidadosamente o público em duas partes e constrói um belíssimo wall of death! Meu caderninho de anotações cai no chão e por pouco você não lê esta resenha… É hora de dar “ciao”, e a canção interpretada com mais dramaticidade pelos músicos na noite se inicia (especialmente por Verônica, que declama a letra, lendo-a em uma espécie de rolo de pergaminho): “Syphilis”, doença que acometeu o filósofo alemão Friedrich Nietzsche, no final século XIX, e faixa do disco “King”, fecha um show que certamente despertou o respeito pela banda por parte dos tiozões “true” que lá estavam, e que, sem sombra de dúvida, fez a alegria dos fãs.

SEPTICFLESH

O peso (agora da experiência também) se fez presente igualmente na apresentação dos gregos do Septicflesh. Nenhum death banger pode negar que a década de ouro do death metal foi a dos anos 90, com todos os seus consagrados clássicos e com a consolidação dos nomes surgidos na década anterior. E o Septicflesh fez parte da grande leva de bandas europeias que constituíram a cena alternativa à formada pelos americanos. Desde o início de sua história com um som bastante peculiar, o Septicflesh permaneceu muito tempo no underground até abraçar de maneira mais ampla e corajosa os elementos típicos do que chamamos hoje de Symphonic Death Metal, carregando sua música com orquestrações mais elaboradas. Os irmãos, fundadores da banda, Spiros e Christos Antoniou, baixo e guitarra, respectivamente, vieram acompanhados do guitarrista Dinos Prassas, vulgo Psychon, substituindo Sotiris Vayenas, que raramente excursiona com a banda fora da Grécia, e o baterista Kerim Lechner. E os gregos subiram muito imponentes ao palco, recebidos com urros e intensa celebração pelo público que ali mostrou qual era a banda headliner da noite para quem ainda tinha dúvidas. Spiros tem um vocal muito potente e não deixou ninguém sentir falta dos vocais limpos de Sotiris, executados no show através de samples, junto com as orquestrações e os corais. O som da bateria agora estava perfeito, e embora Christos parecesse, por vezes, incomodado com o som de sua guitarra, tudo parecia muito bom para a plateia que gritou várias vezes o nome da banda durante o show, pediu músicas e cantou os refrãos das canções. O backdrop com imagem do novo álbum da banda fez o fundo do massacre sonoro comandado por um Spiros que não parava de convidar a galera a agitar, e de um Christos mais sério e soturno, mas não menos competente. Aliás, é muito interessante assistir os dreads giratórios em sua cabeça quando ele agita (e ele o fez em todas as músicas).

“War in Heaven” do álbum Titan (2014) foi uma escolha perfeita para a abertura, precedida da convocação à guerra feita por Spiros em alto brado retumbante: “Destroy!”. Perguntando se estávamos prontos, emendou a insanamente brutal “Communion”, do disco homônimo de 2008, que resultou na maior e mais violenta roda de mosh da noite, com direito à cerveja voando pelo ar. A música tem um pequeno interlúdio orquestrado mais calmo, momento em que Spiros aproveita para conversar com seus fãs e pedir os horn signs, prontamente atendido por todos. “Nós somos o Septicflesh de Atenas, Grécia”, diz Spiros, antes de contar até três e ordenar outra roda de mosh insana ao som de “Pyramid God” do álbum “The Great Mass” (de 2011). A canção, marcada por samples de belíssima orquestração, foi uma das mais aplaudidas pelo público na noite. Em seguida “Martyr” do novo álbum “Codex Omega”, que inicia com um excelente trabalho de cordas reproduzido nos samples e na guitarra de Psychon, tem sua melodia cantarolada pelo público. “Prototype”, de “Titan”, mantém a galera agitando na pista e gritando, enquanto Spiros provoca gritando “Lowder!”, no melhor estilo Ozzy Osbourne. A canção exibe um memorável coral de vozes na metade de sua execução, provocando um efeito interessante e, provavelmente, inusitado para os apreciadores do death metal tradicional que estavam ali apenas para conhecer ou conferir o poder da banda. A clássica “The Vampire From Nazareth”, começa com um vocal feminino de fundo, em um clima tétrico que dá calafrios na espinha. A bateria quase tribal da canção soa hipnótica e é acompanhada por palmas da plateia que depois também canta o poderoso refrão desta que é um dos destaques do disco “The Great Mass”. Após o fim da canção, Spiros fala em grego com seus técnicos de som e deixa o palco para resolver algum problema. Nada que atrapalhe a sequência do show que prossegue com “Portrait of a Headless Man” também do novo disco, e que possui fantástico videoclipe que vale a pena ser conferido. A música tem uma parte apenas orquestrada, momento em que Spiros brinca fazendo os gestos típicos de um maestro em um pequeno espetáculo de mímica. O clima é quebrado um pouco apenas quando o vocalista mostra seu descontentamento com uma microfonia que o irrita. É hora de voltar um pouco ao passado com a rápida “Unbeliever” de “Sumerian Daemons”, de 2003; engraçado notar que a galera está cansada demais para voltar à roda, justamente em uma música perfeita para isso… Ao final da canção, as luzes se apagam e a galera pede a clássica “Anubis” que não é ainda tocada, pois a magistral “Persepolis”, do álbum “Communion”, com suas orquestrações sombrias, renova as energias do público que faz o segundo wall of death da noite, a pedido de Spiros. O refrão repetitivo da música deve estar ecoando ainda na mente dos fãs que a presenciaram… Enfim, a tão pedida “Anubis”, do mesmo álbum, é executada com o auxílio do público que, no início, canta o riff em coro e, depois, o refrão, junto com o vocal limpo sampleado do ausente Sotiris. Banda e galera agitam em sincronia mostrando este misterioso efeito de sinergia que somente bandas de metal parecem conseguir com seus fãs. Spiros anuncia a saideira, comentando o significado da música à antiga religião de seu país: é a canção da divindade titânica que, segundo a mitologia grega, trouxe o fogo à humanidade – “Prometheus”, de “Titan”, com início arrastado e pesado. Spiros parece ter guardado um fôlego extra para esta última música, pois vocifera a letra com um gutural arrasador. Com as luzes já acesas, Christos e Spiros cumprimentam seus fãs e entregam palhetas diretamente em suas mãos. Um show que demorou para acontecer em nossa terra e que agora torcemos para que se repita o quanto antes.

SETLIST – FLESHGOD APOCALYPSE

1-March Royale – In Aeternum

2-Healing Through War

3-Cold as Perfection

4-The Violation

5-Gravity

6-The Fool

7-The Egoism

8-Syphilis

 

SETLIST – SEPTICFLESH

1-War in Heaven

2-Communion

3-Pyramid God

4-Martyr

5-Prototype

6-The Vampire From Nazareth

7-Portrait of a Headless Man

8-Unbeliever

9-Persepolis

10-Anubis

11-Prometheus

 

Mosh Live · News

Postado em novembro 18th, 2017 @ 17:55 | 124 views
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