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7 Dec 2021, 10:47 pm

Mosh Interview com Denfire


Por Fellipe CDC

Denfire é músico, professor, tradutor, escritor e mais recentemente resolveu se aventurar pelos ramos da publicação para a nossa sorte. Falaremos um pouco dessas coisas nas linhas abaixo com esse viajante do mundo. Acompanhe-nos por mais essa viagem!

FM) Den, sinta-se em casa! Agradeço em nome do Fanzine Mosh o fato de você ter aceitado o convite para essa entrevista. Para começar, a guitarra foi o seu primeiro instrumento musical? Dentre os milhões de guitarristas espalhados pelo mundo, quais os que mais te inspiram?
Den) Eu que agradeço pelo interesse. Sim, fiz 4 aulas de guitarra em 1991, aos 14 anos, e, ao aprender o power chord e uma posição da escala pentatônica, julguei estar apto o suficiente para compor e seguir por conta própria. Minhas inspirações sempre vieram principalmente de músicas bem escritas, praticadas por bandas de diferentes níveis técnicos, mas talvez valha citar alguns guitarristas-chave: Chuck Berry, Jimi Hendrix, Mick Box, Tony Iommi, Glenn Tipton, Fast Eddie, Mantas, Dave Mustaine, Trey Azagthoth…


FM) Rapaz, você já fez uma pancada de coisas nessa vida, né? E fez tudo sem abandonar a música. Ainda bem. Você conseguiria fazer uma espécie de link com a música em todas as áreas em que trabalhou? Tipo: pegou um trampo de tradução chato para caramba e acabava aproveitando alguma parte do texto para usar como ideia para uma nova letra.
Den) Na minha primeira semana em Londres, estava trabalhando numa obra na zona leste da cidade e precisei ir comprar parafusos em uma loja a duas quadras dali. No caminho, com o canto do olho, avistei uma folha de papel sulfite pendurada na parede de um pub, com os dizeres “Angel Witch – clássico da NWOBHM”. Voltei dois passos para averiguar melhor aquele cartaz tosco em p&b todo escrito com fonte arial (inclusive o nome da banda) e notei que realmente se tratava “do” Angel Witch. Quando olhei para cima para ver o nome do pub, era o Ruskin Arms (aquele mesmo). O cartaz anunciava um show do power trio na noite seguinte, então tive tempo até de separar a máquina fotográfica para levar para o trabalho e tirar uma foto com o Kevin Heybourne após a performance. Numa outra ocasião, quando eu ganhava meus trocados segurando a placa de uma loja de instrumentos musicais na rua de Londres mais conceituada nesse segmento, Yngwie Malmsteen, acompanhado por um amigo, veio me perguntar se a loja que eu promovia poderia lhe emprestar uma guitarra e um amplificador, e eu disse que ele deveria ir lá e requisitar o equipamento que quisesse. Assim que ele partiu, liguei pro dono para me certificar de que ele saberia quem era o cara extravagante de 2m, botas de cowboy, sobretudo com ombreira, Ray Ban a lá Abaddon e cabelo meio armado que apareceria à sua porta pedindo por um favor um tanto audacioso. Pouco tempo depois, o mago sueco estava de volta com uma strato branca e um amplificador de 30W ligado num gerador, a 3m de distância de mim, dando um show na calçada para quem quisesse ver. Na verdade, esse tipo de coisa era corriqueiro em Londres, e lá vivenciei muitas situações dignas de inclusão em um livro (algo que eventualmente ocorrerá), sem contar inúmeros episódios bem loucos em SP e Paraty/RJ (onde morei por 5 anos, numa comunidade bastante carente, ao voltar para o Brasil).     


FM) Você toca em bandas desde 1991, mas só decidiu montar a sua própria banda no ano de 2008, quando já estava morando na Inglaterra. Quero que você conte um pouco sobre os primeiros dias da sua MISCONDUCTERS.
Den) Depois que a primeira banda na qual entrei em Londres se desfez devido à morte do vocalista (ele teve um ataque cardíaco fulminante durante um ensaio), passei a fazer busking enquanto procurava entrar em outra. Eventualmente, decidi pegar algumas das músicas que eu havia escrito anos antes, ainda no Brasil, e sondar pessoas que estivessem dispostas a tocá-las numa outra veia. O Misconducters, formado em janeiro de 2008, foi apenas uma nova versão da banda que eu havia montado dois anos antes, e cujo som foi ficando cada vez mais intrincado.       


FM) Tem como falar brevemente sobre todos os trabalhos lançados pela MISCONDUCTERS e se tem um em especial que mais o satisfaça enquanto músico, compositor e produtor?
Den) São 5 álbuns e 5 EPS, gravados com formações – e em estúdios e países – diferentes. Cada lançamento retrata, nem sempre de maneira muito fiel, os diferentes momentos da banda. Gosto destes 3 álbuns: Pariah, Circadian e Boundless. Os dois últimos foram gravados em São Paulo e Santos, nos estúdios Lumen e O Beco, respectivamente, com a mesma formação (Vitão na bateria e Brisa no baixo), e fazem parte do período “prog” (não chega a tanto) da banda. Já o Pariah, também gravado no Lumen, é o álbum mais bem acabado e elaborado, por isso talvez seja o meu favorito: https://misconducters.bandcamp.com/album/pariah

FM) Alguma razão específica para ter montado a MISCONDUCTERS na Inglaterra e não no Brasil?
Den) Apenas aconteceu dessa maneira.


FM) Como foi essa década que morou na Inglaterra? O que essa passagem trouxe de positivo para você enquanto ser humano?
Den) Logo que cheguei lá, em 2003, senti a tensão no ar, gerada por um mar de pessoas de todos os cantos do mundo, cada qual com seus objetivos, históricos e rotinas. Apesar das disparidades e problemas costumeiros de uma metrópole, é admirável a capacidade britânica de controle da conjuntura, ainda que a sensação de perigo iminente em relação à sua estabilidade seja constante, oriunda, em grande parte, de cidadãos insatisfeitos e/ou perturbados devido ao previsível efeito colateral de um monitoramento tão rígido, firmemente calcado em hierarquia e valores nacionais. Basicamente, precisei me adaptar aos costumes da capital de um dos ex impérios mais influentes dos últimos séculos, e no processo constatei o quão atrasado o Brasil é em muitos aspectos, especialmente em se tratando de coletividade. A diferença entre colonizador e colonizado é gritante, e as características estão inseridas em todas as áreas da vida, por mais singelas que sejam. Apesar de egoísmo, maleabilidade e corruptibilidade serem atributos inerentes dos seres humanos de forma geral, numa (ex?) colônia, com um povo sofrido que há mais de 500 anos cultiva uma conduta escravocrata e servil, a busca desesperada por uma migalha do bolo – ou, melhor ainda, ascenção social – acarreta um comportamento passivo e individualista típico. Voltei ao Brasil bem a tempo de testemunhar o tal gigante “acordar” em 2013, e o que se viu foi uma oposição vaidosa e desorganizada permitir um “Cavalo de Tróia” adentrar e se estabilizar nas veias do poder. Quando, após o golpe de 2016, parecia que as coisas não poderiam ficar piores… Cá estamos. E sem união alguma entre a oposição, num sinal claríssimo de falta de interesse em trabalhar pelo bem-estar geral, mas em prol do seu próprio. Se eu fosse apontar o maior “bem” adicionado à minha ”bagagem” após dez anos morando fora, diria que foi a constatação do quão falho o ser humano é, seja qual for sua classe social, gênero, idade, crença ou nacionalidade. Para cada indivíduo que procura evoluir espiritualmente, há vários que optam por vias cômodas e limitantes. Isso é viabilizado, como os donos do mundo bem sabem, através de técnicas milenares de dominação. Seja em Londres, São Paulo ou Paraty, os tipos são os mesmos. Dito isso, considero primordial nos esforçarmos ao máximo para aprendermos uns com os outros, com a finalidade de gerar respeito mútuo e inibir o afloramento das nossas características mais desprezíveis.


FM) Você não só morou na “Terra da Rainha” como também montou banda e tocou diversas vezes em pubs londrinos. Conte como foi essa experiência e quais as diferenças mais gritantes com a nossa cena brasileira? Algumas apresentações mais marcantes da MISCONDUCTERS que queira compartilhar conosco?
Den) Toquei muito em Londres, mas também em algumas cidades não muito distantes, como Birmingham; após abrirmos um show do Discharge na capital, o promotor gostou do que viu e nos chamou diversas vezes para tocar no berço do heavy metal, abrindo para bandas como English Dogs, Disorder, Broken Bones, The Fiend e muitas outras. O Brasil se desenvolveu significantemente em vários aspectos no que se refere a gravação, promoção e estrutura geral de eventos underground de 2003 pra cá, mas o circuito de Londres continua mais desenvolvido. E isso se dá, em grande parte, por duas razões que vão além do “jeito natural para a coisa” que eles certamente têm. A primeira: o Reino Unido possui uma moeda forte e está interligado a outros países pequenos e desenvolvidos da Europa, o que facilita a locomoção e contratação de bandas estrangeiras. A segunda: o rock’n’roll está profundamente inserido na cultura deles, resultando numa maior tolerância da sociedade a pessoas “alternativas”. Assim como aqui, lá também existem panelas e isso dificulta um pouco a integração, mas talvez ainda mais desafiador seja convencer o público a ouvir o seu trabalho, porque o londrino desfruta de um catálogo musical muito rico e há muito tempo, o que o torna dificilmente impressionável.    


FM) De volta ao Brasil você deu uma paralisada na carreira da MISCONDUCTERS e está com algumas músicas já compostas para futuras gravações. Porém, para tanto, pretende usar o nome DENFIRE. Alguma razão em especial para tal decisão?
Den) Na verdade, foi no Brasil que mais gravei álbuns com a banda (4 dos 5). Em Londres, foram os EPs e o debut. A principal razão que me fez decidir seguir propriamente solo, onde gravarei todos os instrumentos, é que sempre tive dificuldade em manter uma formação estável. Sob o nome Denfire, eu já havia lançado um CD com músicas instrumentais, onde toquei e mixei tudo, em 2008. O Pariah do Misconducters também foi gravado e produzido inteiramente por mim, e é algo nessa veia, porém mais metal e elaborado, que pretendo fazer como Denfire muito em breve.


FM) Em julho de 2018 você decide pela criação da Editora Denfire (da qual tenho algumas publicações e tem sido um dos meus alentos nesse terrível momento pandêmico pelo qual atravessamos). O seu primeiro lançamento foi OFFLINE: SONDANDO O UNDERGROUND. Como foi a repercussão deste trabalho e o que o inspirou a se aventurar por esse universo das publicações?
Den) Eu já havia lançado uma versão mais curta do Offline (uma coletânea de entrevistas e resenhas de shows que realizei como correspondente internacional) em 2015, tanto em inglês como em português, de forma independente onde, aliás, consta uma entrevista com você. No ano seguinte, comecei a me comunicar com o renomado autor canadense, Martin Popoff, após adquirir livros dele e me oferecer como tradutor de suas obras para diversas editoras brasileiras que pudessem estar dispostas a lançá-las. Após ser ignorado por todas, acabei tendo a ideia de montar a minha e estrear com uma versão 2.0 do Offline, já com o Hit the Lights engatilhado como segundo lançamento. 


FM) Até o momento a EDITORA DENFIRE disponibilizou 11 publicações. Comente um pouco sobre elas e como faz para decidir o que e quando lançar um novo livro?
Den) Quase todos os lançamentos vêm com mini poster e adesivo exclusivos de brinde, pois vejo os livros como itens colecionáveis; é algo feito com muita dedicação, nostálgico, que remete à era pré-internet – não tenho interesse em usar o formato e-book. Sou autor de 3 dos títulos e pretendo continuar essa saga. Gostaria também de poder lançar mais romances, mas, infelizmente, os que já lancei não venderam bem e o orçamento é limitado. Por isso, preciso me ater a biografias e formatos semelhantes. Até agora, os livros que mais gostei de traduzir talvez tenham sido Black Sabbath: The Thrill of it All, que eu havia lido no meu segundo ano em Londres, mas desta vez pude apreciar toda a sua “britaniquice” com outros olhos; Black Funeral: A História do Mercyful Fate, onde King Diamond fala extensivamente sobre sua filosofia de vida, com a qual compactuo em grande parte; e Punk Faction, um romance dramático e violento envolvendo questões recorrentes entre punks e skinheads.


FM) Quais as pretensões da EDITORA DENFIRE e do cidadão Denfire?
Den) Pretendo continuar lançando material de qualidade indefinidamente. Em setembro será a vez de Holy Smoke: Iron Maiden nos anos 90, e em seguida haverá o anúncio de um “álbum a álbum” de uma banda hard dos anos 70. Dos títulos esgotados, Hit the Lights já teve uma segunda tiragem e o próximo será Black Funeral. Além destes, tem outros dois inéditos confirmados para o ano que vem e tantos mais sendo considerados e/ou negociados. Por isso, é recomendável seguir as páginas da Editora Denfire no Facebook (https://www.facebook.com/editoradenfire) e no Instagram (https://www.instagram.com/editoradenfire/) para se inteirar sobre as novidades em primeira mão.  


FM) Camarada Denfire, obrigado por sua determinação com a nossa música. Espero que siga sempre empolgado e produzindo. Chegamos aqui ao final da entrevista. Algo que queira acrescentar antes de enviar as suas respostas via email?
Den) Eu gostaria de agradecer ao Fanzine Mosh pelo interesse no meu trabalho, e a você, CDC, por sua disposição em continuar, década após década, a contribuir substancialmente para fazer essa roda girar. Finalmente, um muito obrigado a todos que adquiriram um ou vários títulos da editora; vocês são parte fundamental da coisa toda.

Interview · News · Underground

Postado em agosto 11th, 2021 @ 21:21 | 1.137 views
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