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5 Aug 2021, 12:16 pm

Mosh Interview especial com Weder Ferreira


Fanzineiro, desenhista, tatuador, produtor e músico. Esse é o jovem empreendedor Weder Ferreira. O underground agradece. Se não agradece, faz por obrigação agradecer. Vamos ao papo, pois a conversa promete render…

por Fellipe CDC

FM: Caro Weder, agradeço por sua atenção e pelo seu tempo para atender o Fanzine MOSH. Seja bem-vindo. Para começo de conversa, queria que contasse um pouco sobre o XAROPNOPHOBIA, o fanzine com o qual começou a sua aventura pelo nosso universo subterrâneo da música, isso mais ou menos entre 93/94, certo? Aliás, após um longo tempo você lançou uma nova versão deste fanzine, só que agora nos moldes de uma revista. Fale um pouco sobre essa mudança.

Weder: Opa, como vai Felipe eu que agradeço s oportunidade de estar concedendo essa entrevista ao Fanzine Mosh! O Xaropnophobia começou em 1993, eu conheci você ali nessa época aproximadamente na Head Collection, eu ia pelo menos uma vez na semana lá, primeiramente comprar camisas e Lps. Com o tempo eu fui descobrindo o universo das fitas demo, então tive a ideia de criar uma distribuidora, naquela época eu nem sabia o que era uma distro, então fiz um catálogo, coloquei tudo que eu tinha de demo tape nele e comecei a divulgar, o nome da distro era Pussy Records, influenciado no nome do vocalista do SexTrash PussyRipper. Lembro que fiz muitos catálogos e distribui bastante, na Head Collection tinha uma parede do lado de fora que colávamos os flyers lá e as pessoas enviavam cartas. Mas logo pensei em criar um fanzine após o contato com o Protectors of Noise, um dos primeiros zines que tive contato na vida. Fiz entrevistas com Death Slam, Desintegration e o Who Farted? A criação do fanzine ocorreu tudo de forma bem precária, eu não tinha máquina de escrever então fiz tudo a mão, todo escrito à mão, peguei uma página dos classificados do Correio Brasiliense, da sessão de acompanhantes e fiz o fundo! O resto foi tudo cortando e colando. O zine cresceu a cada número, chegando ao número 4 todo digitado em computador, na época eu não tinha pc em casa então um amigo fazia curso de informática, nas aulas de World ele digitava tudo, depois eu recortava e colava!  O Xaropnophobia foi para um formato mais profissional aconteceu, pois, logo após o número 4 eu passei a fazer dois fanzines distintos, o primeiro o Doom Faction em 1995 só sobre Black, Death e Doom e o xpoisonfreex sobre straightedge … Eu com o passar dos tempos cheguei a fazer o xpoisonfreex em formato revista daí tudo que fiz em diante foi em um aspecto mais profissional. Agora esse ano tivemos o Documentário Distorção que me fez ter a vontade de produzir mais um número do Xaropnophobia para quem sabe ajudar a cena local da minha cidade já que na Black Heart por ser uma revista focada em metal extremo muitas bandas ficariam de fora, então foquei ali no estilo de fanzine underground da década de 90, com textos, quadrinhos e bandas. 

FM: Para passarmos para outro assunto, quero que você fale um pouco das coletâneas em fitas K7 que você lançava com o nome do fanzine e como era a aceitação dessas compilações. Daí você aproveita e fala um pouco da origem desse nome XAROPNOPHOBIA.

Weder: As coletâneas começaram um pouco antes do Xaropnophobia. Eu ainda na Pussy Records tive a ideia de fazer uma compilação. Peguei músicas das demos que eu mais escutava e fiz a primeira. O nome dessas coletâneas era Noise que é Barui! Tinha de Grind a Doom metal. A primeira a capa foi feita em um layout em cima de jornal, também da sessão de acompanhantes, e o Veto fez o desenho da capa, eu pintei a primeira com giz de cera! Lembro que levei 10 fitas para Head Collection, mas um dia falando com o Wilton da Heavy Metal Rock de Americana, fiz a proposta de enviar fitas para ele, em troca eu pegava fitas que ele gravava do catálogo dele, sei que enviei 10 e logo que chegou venderam todas! Eu passei a enviar 40 fitas por vez, minha vida era um caos, pois tinha de pintar com giz de cera uma a uma, acredito que essa fita deve ter saído umas 300, foi fita demais! Aí quando fiz o Xaropnophobia fiz a número 2, mas não teve tanto sucesso quanto a primeira, nessa fase eu escutava muito Noise core, e o público não curtiu muito a seleção das bandas! O nome Xaropnophobia foi tirado de uma música do Who Farted? Banda de hc de Brasília, acredito que essa música pertencia a uma coletânea k7 beneficente a um lar de idosos Brasília.

FM: Quando e como você se descobriu como tatuador? Tem noção de quantas peles já desenhou nesse tempo de profissão?

Weder: Eu tentei tatuar ainda na década de 90, mas Formosa era, e ainda é uma cidade que anda a 10 anos de atraso nesse sentido, naquela época para você viver de tatuagem você tinha de ser meio hippie, nesse primeiro contato eu não passei da fase do estudo de desenhos. Em 2000 comecei a trabalhar com designer gráfico, mas era uma fase em que essa profissão terminava no que diz respeito a boa remuneração, em 2004 comecei a estudar a tatuagem de forma histórica e a desenvolver a prática no estilo Tradicional, hoje já são 17 anos aproximadamente em que eu trabalho com tatuagens! Mas sempre falo que a tatuagem ela sempre esteve presente em minha vida, quando me tatuei eu tinha 14 anos e o underground me conduzia para esse caminho, a tatuagem foi algo que andou de braços dados em todo meu caminho na cena, como eu era um garoto que me envolvi no underground ainda na adolescência acredito então que minha personalidade foi formada por ele.  Viver de forma autônoma e livre como eu acreditava só a tatuagem poderia me proporcionar, posso trabalhar com camisa de banda, por exemplo, sem o medo de ser despedido, ou escutar durante o meu trabalho a música que me agrada. Sobre as quantidades de peles eu não faço ideia, às vezes atendo clientes que para mim seria a sua primeira tatuagem comigo, mas ele já tem um trabalho meu em sua pele de 10 anos atrás. 

FM: Após um tempo longe das publicações undergrounds você voltou com toda a carga e o resultado foi a impressionante revista BLACKHEART. Fale um pouco sobre essa mídia e de quantos números foram lançados desde o início em 2019.

Weder: Como citei a pouco, eu fiz de 1995 a 2015 o xpoisonfreex e o fanzine depois de um show, essas publicações foram editadas de forma esporádica. De 2015 a 2017 fiquei só no Depois de um Show que era um fanzine meio que pessoal, um formato que me agrada muito, tenho outro trabalho nesse sentido onde trato da minha personalidade mais niilista chamada O Misantropo. Acabo de lançar um livro com algumas das edições do xpoisonfreex em capa dura. Agora sobre a BlackHeart, comecei a ter a ideia dela, logo após lançar o último Depois do Show, pensava em fazer um fanzine como era o formato do xpoisonfreex com capa colorida e voltado ao metal extremo, estilo que mais escuto, então comecei a formular, consegui boas entrevistas, e dois apoios que foram fundamentais na produção! De forma surpreendente por ser algo novo e por muita desconfiança e curiosidade as pessoas compraram bastante e durante a primeira tiragem que era de 50 cópias recebermos a proposta da Hammerheart Records de fazer mais 50. Depois fizemos mais 100 desse primeiro número e de lá para cá mantemos a tiragem de 250 cópias. Lançamos já 6 números regulares, e diversos outros números especiais, acabamos virando uma editora underground, com diversos outros trabalhos de publicações, lançamos mais de 30 publicações diferentes e estamos beirando 40 publicações, fazendo 2 anos de trabalhos. Estamos com uma edição em inglês que teve uma boa distribuição no exterior, nossos trabalhos tendem a crescer, espero poder lançar pelo menos 5 edições regulares da BlackHeart Magazine por ano. 

FM: Explique para todas as pessoas que acompanham o nosso site, no que consiste a ideia da GLUE FIRE DEATH.

Weder: O Glue Fire Death é um livro com cópias ou fotos dos releases originais que circularam na década de 80 e 90 através de cartas. Eu vinha a um bom tempo resgatando releases que eu havia perdido nas mudanças da vida. Um dia procurando um release para a edição do Necrobutcher vi que eu tinha mais de 500 releases guardados e que por estar em pasta digitalizada eu não tinha muito contato com eles, pensei um dia em imprimir tudo. Com o lançamento da primeira edição em capa dura da BlackHeart que constava as 3 primeiras edições em um só volume, pensei então em fazer um livro com todos eles, mas daria muitas páginas, ficaria muito caro e o envio não seria por frete módico, pois passaria de 2 quilos. Então falei com alguns amigos sobre esse formato, mas eles não acharam interessante, decidiram fazer outra edição com textos e mais informações do que só um livro de releases. Eu ainda mantive essa ideia, usei o nome Glue no lugar de Blood em lembrança a fase de cola nos selos e fiz o primeiro volume. Estamos agora com o segundo volume e preparando o terceiro para a gráfica! Até o momento os apoios são sutis, mas fundamentais. 

FM: Outra sacada genial foi a criação de um álbum de figurinhas. Como foi a repercussão deste trabalho e quais as novidades em se tratando deste assunto? Eu era fascinado por álbuns de figurinhas de rock…

Weder: O álbum de figurinhas surgiu após uma conversa com amigos sobre os álbuns antigos da década de 80 como o Rock Stamp. Eu pensei por que não fazer um de bandas underground? Comecei a pesquisa e formar toda a logística de produção e distribuição. A ideia inicial era de 10 álbuns, algo só para esses amigos, mas logo pensei que poderia arriscar. E foi ótima a repercussão, vendemos todos e todas as pessoas puderam também completar os seus álbuns. Estamos agora formulando o número 2 para o segundo semestre e dessa vez será 9 bandas nacionais e 9 bandas gringas. A tiragem será a mesma da primeira de 30 álbuns, é uma edição bem limitada, mas uma publicação muito cara para produzir sem apoios ou patrocínio. 

FM: Para o projeto editorial do THE BLACK BOOK OF EVIL você tem alguns ilustres colaboradores. Quem são eles e como os Hellbangers receberam esta criação?

Weder: Esse é o livro mais esperado do ano, como falei sobre o Glue Fire Death o The Black Book of Evil nasceu após essa primeira proposta, e então juntaram-se a ela, Anton Naberius editor do antigo fanzine de Salvador The Black Book e a colaboração de Tiago Siqueira, no fim ficou apenas eu e o Anton trabalhando nessa edição, Tiago participou com alguns comentários. Estamos com 70% do livro escrito, acredito que no meio do ano terminamos. 

FM: E por falar em colaboradores, acredito que nenhuma seja mais importante do que a participação da Isabela nesse contexto. Qual a parte que cabe a sua esposa dentro do conglomerado da BLACKHEART?

Weder: Comecei a pensar sobre a BlackHeart em 2018 e falava com ela sobre ela não tinha experiência com fanzines, então escutava o monte de ideias que eu tinha (risos), acredito que essa foi a primeira participação dela. Na fase de edição eu mostrei para ela o fanzine em seu processo e ela notou vários erros de português, então ofereceu a sua ajuda para corrigir essa primeira edição, e como eu montei a BlackHeart 1, 2 e 3 e várias especiais, toda em casa, imprimindo, separando páginas, dobrando e colando capas, ela então participou ajudando em todas essas fases de montagem. Mas como falei antes não tínhamos nem noção que viraríamos uma revista profissional, e que montaríamos várias em casa. Ainda bem que começamos a fazer tudo em gráfica aliviando tanto o meu trabalho como o dela, hoje ela faz toda parte de correção das edições em português. É um trabalho fundamental, que traz o profissionalismo para as nossas publicações. 

FM: E sobre os lançamentos musicais, o que o selo BLACKHEART já disponibilizou para o mercado e o que mais virá no futuro?

Weder: Eu não tinha ideia nenhuma de lançar cds, primeiro por não ter dinheiro suficiente para ficar parado em um lançamento, segundo por meus objetivos concentrar apenas em publicações. Mas com o lançamento da edição do Necrobutcher eu pensei por que não fazer um cdr com todas as músicas e pôr na revista? Mas um cdr-pro em formato digipack como eu queria era um valor bem parecido a prensar um cd na fábrica no formato digifile que fizemos. Consegui um parceiro para o lançamento o selo Black Hearts de São Paulo, selo com nome parecido com o nosso, e então prensamos 500 cópias. Mas durante esse processo de fechar com o Necrobutcher, fechamos com o Leprosy, banda do meu amigo Allan, fizemos um 7ep, trabalhei na parte gráfica e de produção desse lançamento. Hoje temos em nosso catálogo: 

Leprosy – F.A.E.P. 7ep

Necrobutcher – Schizophrenic Noisy Torment CD

Necrofago – Brutal Mutilation CD

Desintegration – Demo 93 Tape 

UTU – Misanthropic Black Metal CD

Holocausto WM e Belial Throne – Split CD

BlackHeart Cult Vol 1 – 4 Way Split CD

Leprosy – Death CD 

No momento estamos esperando o Lp do Wolflust chegar da fábrica, onde participamos como selo. Ainda não sei se continuaremos tão afinco em lançamentos em cds, posso adiantar que iremos trabalhar mais em produções de lançamentos em cooperativas de LPs. 

FM: Sobre a sua banda, a UTU, conte um pouco da história dela aí para a gente.

Weder: O UTU era um projeto de Black Metal formada apenas por um integrante chamado Uhtra (Arthur), lançou em 2013 um Ep chamado Imperivm pela Depressive Illusions Records da Ucrânia, em 2017 eu estava falando com ele sobre um projeto de Black Metal e ele me falou sobre uma gravação que ele havia feito e enviado para um cara da Finlândia fazer o vocal, ele demorou muito tempo para gravar, então Arthur me passou e eu gravei a voz. Com isso o UTU voltou, eu reformulei logo, estética artística e continuei um pouco o tema original focando mais na misantropia e blasfêmia. Gravamos então o Ep Black Rituals Vol. 1 e lançamos em dubplate (vinil) de 7 polegadas, depois disso gravamos mais três 7 EPs e várias coletâneas em k7 no Brasil e na Ucrânia. Em 2018 lançamos nosso primeiro cd contendo músicas que seria split com uma banda da França e mais outras que fariam parte de outro split. Nosso intuito era apenas fazer lançamentos limitados em mídias analógicas, mas o projeto tomou uma proporção um pouco maior. Podemos dizer que foram lançadas 2 compilações em cds até agora. Em 2020 tivemos a proposta da Mindscrape Music em sair em um split com duas grandes bandas no cenário atual de Black Metal, o The Kryptik e o Lutemkrat, então gravamos 2 músicas para esse trabalho que saiu em um formato digipack luxuoso e está tendo uma ótima distribuição nacional. Acredito que esse ano ainda a compor o que seria o nosso primeiro álbum. 

FM: O que toca no seu programa PUTRID AGE? Conte um pouco dessa nova investida e de como você se descobriu como radialista.

Weder: O Putrid Age é programa especial da Black Heart Magazine, então toca bandas que estão presentes em nossas páginas ou estarão. Eu em 2005 ou 2006 tive um programa na extinta Buc Vídeos, era uma tecnologia bem tosca, usávamos o Mirc e o Winamp para reproduzir as músicas e fazes locuções. Falando com o Paulus Moura (Morcrof e Dark Rádio) sobre esse meu antigo contato com a rádio, ele então deu ideia em fazer um programa exclusivo da Black Heart Magazine, ele falou com Daniel da Dark Radio sobre e ele aprovou, fiz o piloto e então começamos. No piloto lembrei da introdução e vinhetas do programa Underground Ways do Alex Podrão na Cultura FM, e criei o Putrid Age. Tem sido muito legal trabalhar com a rádio e a audiência está muito boa.

FM: Você é oriundo de uma pequena cidade goiana chamada Formosa. Recentemente saiu um documentário sobre o underground local, no qual você dá um depoimento. Fale dessa experiência e da importância deste trabalho para a cena musical de Formosa.

Weder: Eu participei do documentário desde as primeiras reuniões, já que o foco inicial era o underground formosense, acredito por ser o primeiro fanzineiro e organizei o primeiro show da cidade. Desde as primeiras reuniões tentei ressaltar a importância que os fanzines tem na cena, já que esse foi o nosso primeiro contato e logo após foi também a fonte motivadora para shows. Ainda que eu tenha tido um contato apenas inicial ali na cena, de 1993 que foi onde começou à 1996, ano onde comecei a trabalhar mais na cena nacional com meus fanzines, estive distante um pouco do que ocorreu depois, mas acredito que o underground influenciado pelas pessoas originais caminhou do seu jeito, hoje tem as suas características e verdades. Acredito que esse documentário é de suma importância no que diz respeito a um conhecimento histórico às pessoas da cidade. 

FM: Hora de dizer adeus. Algo que queira revelar (futuros lançamentos, novos projetos, etc.) antes das derradeiras palavras aos leitores do Fanzine MOSH.

Weder: Cara agradeço bastante por essa oportunidade, e quero ressaltar a importância que sua pessoa, através ali dos seus primeiros atendimentos na loja Head Collection onde pude aprender como se fazia um fanzine e os primeiros contatos que tive com esse tipo de mídia através do Protectors of Noise, todas às vezes em que sou indagado sobre o meu início no underground, na produção de zines, você sempre é citado, falei bastante sobre isso  no documentário Distorção, pena que os editores cortaram uma parte grande dessa fala.

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Keep In The BlackHeart! 

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Postado em maio 30th, 2021 @ 10:10 | 219 views
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