16 Dec 2018, 7:09 pm

Noite De Peso E Psicodelia Em São Paulo No Festival Da Abraxas


Festival celebrou os cinco anos da Abraxas

Texto: Henrique Gonçalves

Fotos: Renato Jacob

Para comemorar seus cinco anos de existência, a Abraxas realizou no final de semana de 13 e 14 de outubro um festival muito especial àqueles que apreciam os gêneros abraçados pela produtora. Para quem ainda não a conhece, a produtora – que também é um selo – trabalha com bandas que vão do rock psicodélico ao sludge, passando pelo stoner e pelo rock’n’roll, e tudo aquilo que hoje carrega a aura musical típica dos anos setenta. O evento, que foi realizado em parceria com a Obscur Produções, aconteceu em dose dupla – em São Paulo e no Rio de Janeiro – contando com as bandas Eyehategod e Samsara Blues Experiment como headliners. Em São Paulo, a festa, que aconteceu no Fabrique Club, contou ainda com as brasileiras Noala e ITD. Confira abaixo como tudo aconteceu no sábado, dia 13 de outubro, em São Paulo!

NOALA E ITD

Com a casa cheia, um merchandising atraente e um gostoso clima de celebração, o evento teve como abertura os trabalhos da paulistana Noala e da brasiliense ITD (Into The Dust). A primeira, fundada em 2009, pratica um som difícil de rotular, mas que muitos chamam de post-metal. Ingredientes diversos – como guitarras arrastadas típicas do doom metal, arranjos mais sujos comumente praticados no sludge, efeitos sonoros nas guitarras e teclados que, por vezes, remetem ao noise, e um clima psicodélico, influência do rock progressivo – compõem a sonoridade apresentada nas quatro canções executadas: “Nostalgica” e “Stuck In A Gastric Tube” do primeiro álbum “Humo” (2013), e “The Rain Falls Burning” e “Lava Agni” do segundo álbum “Noala”, lançado recentemente. Um público ainda pequeno testemunhou o peso da música e a atitude dos paulistanos, em uma apresentação bastante climática, garantida pelas passagens gravadas que ligavam uma canção à outra, e marcada pelo peso e distorção das guitarras – a impressão era de uma grande massa sonora monolítica, muito impactante. Destaque ainda para o vocalista Felinto que, tocando na ferida do delicado momento político que vivenciamos, deixou-nos uma urgente reflexão: passado o temor do fascismo que vivemos, o que faremos para corrigir as distorções típicas de nossa cena metálica atual? Lembrando as minorias raramente presentes nos shows de metal, Felinto lançou a provocação: “por que não temos tantos negros, gays e gordos em nosso movimento?” Como o porta-voz da banda esclareceu, headbangers, produtores e bandas poderiam trabalhar mais em prol de uma cena inclusiva e segura a todos os tipos de indivíduos.

Muito aplaudidos, os paulistanos deram lugar aos brasilienses da ITD, banda baseada na cidade de Gama-DF, dona daquela sonoridade doom fortemente influenciada pelo Black Sabbath, e praticada com esmero por grupos como St. Vitus e Pentagram. Destaque para o poderoso gutural do vocalista Nossat, que comandou a breve apresentação da banda, que devido a problemas relacionados ao deslocamento do hotel até o local do show, teve que encurtar seu set. Bem recebidos pelo público, tocaram do último EP autointitulado (lançado neste ano) as arrastadas “O Escolhido”, “Era Sombria” e “Relíquias Do Caos”; do primeiro EP de 2014 tocaram “Penhor Da Culpa” e deixaram para “Peregrinação” o papel de fechar o show. A música que foi lançada em single em maio deste ano conta com um vídeo – como disse Nossat, “muito tosco” – que pode ser conferido no Youtube. O vídeo é, na verdade, uma colagem de trechos do filme americano de terror “Incubus” de 1966 e funciona muito bem! A escolha de cantar todas as letras em português é muito acertada e confere aos brasilienses o toque de autenticidade que certamente destaca a banda na cena. Deixaram o palco aplaudidos pelo público, depois de esbanjar competência e segurança. Agora é esperar para que o primeiro full-lenght deste combo formado por Nossat (guitarra, vocal), Humberto Medeiros (bateria), Glauber Queiroz (guitarra) e Sandro Santos (baixo), não demore a sair!

SAMSARA BLUES EXPERIMENT

Samsara Blues Experiment é hoje um dos grandes nomes da cena mundial que retoma a sonoridade típica do rock psicodélico dos anos sessenta e setenta. Neste meio hoje bastante numeroso e prolífico, ela encontra sua originalidade ao inserir diversos elementos peculiares em sua música como um pouco de raga indiana, além de outras sonoridades folk – tudo isso em meio a riffs de guitarra densos e pesados, calcados na sonoridade mais moderna do stoner rock, e sem deixar esquecida a influência do blues, especialmente nos solos de guitarra. O trio alemão, formado em Berlim no ano de 2007 pelo guitarrista e vocalista Christian Peters (ex-Terraplane), se encontra em turnê de divulgação do novo trabalho de estúdio “One With The Universe”, lançado no ano passado, e que saiu aqui no Brasil em uma caprichada versão digipack produzida pela Abraxas. Em sua segunda passagem pelo país, a banda novamente cativou os fãs brasileiros com uma bela apresentação no festival.

O show dos alemães abriu com a viagem sonora chamada “Singata Mystic Queen” do primeiro álbum da banda “Long Distance Trip” de 2010. O baixista Hans Eiselt agita bastante e enquanto o som que sai de seu instrumento preenche com nitidez o ambiente criando um clima etéreo no Fabrique, mal podemos ouvir a voz de Christian – problema técnico que perduraria, infelizmente, durante toda a apresentação. O infortúnio, percebido por poucos, não impede o público de aplaudir bastante depois da longa canção. Os riffs superpesados de “Army Of Ignorance”, do mesmo álbum, vêm na sequência, repetindo a ordem das músicas apresentada no disco. Nesta segunda canção, puramente instrumental, brilham as certeiras viradas do baterista Thomas Vedder. É a mais curta do set e faz perfeita passagem para a longa e cheia de efeitos “Vipassana” do novo álbum, que inicia com uma introdução gravada com barulhos de vento e água, em que o guitarrista Christian Peters faz belo solo. Agora ouvimos um pouco melhor sua voz, especialmente quando canta o refrão da música junto com Hans Eiselt. Emendada pelo mesmo conjunto de efeitos gravados, vem a música título de “One With The Universe”, cuja sonoridade é tão espiritualizada quanto seu nome pode sugerir. É um momento de bastante introspecção no palco e na pista. O baixo pulsante conduz toda a música até seu final mais pesado e direto, com riffs ao melhor estilo Black Sabbath, definitivamente os verdadeiros guias espirituais de todo este evento. “Center Of The Sun”, também do primeiro álbum, concluiu a hipnótica e viajante presença da banda na noite.

EYEHATEGOD

Com a americana Eyehategod o clima no Fabrique muda drasticamente e a viagem agora é extremamente “down”. Pela primeira vez no Brasil, os americanos de New Orleans, Louisiana, praticamente os criadores do chamado sludge metal, apresentam seu som sujo, pesado, sufocante e, por vezes, depressivo. Na cena metálica mundial desde 1988, a banda acumula cinco álbuns completos de estúdio, além de outros registros como compilações, singles, splits e discos ao vivo. Guiada pelo irreverente Mike Williams (vocal) e pelo carismático Jimmy Bower (guitarra), únicos membros originais da banda, que conta ainda com Gary Mader (baixo) e Aaron Hill (bateria), a lenda underground fez a alegria de seus fãs no Fabrique Club. A atitude punk, agressiva, por vezes, debochada de Mike, lambendo os dedos e o pedestal do microfone ou cuspindo no palco, marcou a apresentação da Eyehategod que entregou um set de muitos clássicos aos fãs.

Apesar da postura por vezes agressiva de Mike, é indiscutível seu bom humor e excelente sua interação com os fãs, o que comprovamos desde a passagem do som quando respondeu a uma pessoa da plateia que gritava “Black Sabbath!” que jamais tinha ouvido falar daquela banda… Os americanos começam o exercício de tortura sonora com “Agitation! Propaganda!” do último álbum “Eyehategod” (2014). Na sequência, vêm duas em bloco, sem nenhum segundo de intervalo: “Parish Motel Sickness”, também de 2014, precedida por “Jack Ass In The Will Of God” (do disco “Confederacy Of Ruined Lives, 2000). Mike contempla o público agitando na pista e revela: “Gostaria de estar aí com vocês. Mas este palco é muito alto…” A dobradinha “Blank/Shoplift” ambas de “Take As Needed For Pain” de 1993 faz a alegria dos antigos fãs. Antes do início agressivo de “Lack Of Almost Everything” (de “Dopesick, 1996) Mike brinca novamente e pede para que liguem em seu telefone, enquanto Jimmy Bower muito descontraído faz dancinhas e caretas ao público. A sombria “Blood Money”, outra de “Confederacy Of Ruined Lives”, deixa o clima bem pesado no Fabrique e deve ter embrulhado o estômago de quem não estava ali pelos americanos ou desconhecia sua música. Por isso, soa irônico quando Mike pergunta: “Vocês estão se divertindo?” O vocalista mostra o dedo do meio para a plateia antes da não menos depressiva “Sisterfucker” (Partes 1 e 2) do clássico disco de 1993.

Os riffs cadavéricos de “Medicine Noose” do último álbum de estúdio atingem o ar carregado do Fabrique, enquanto Jimmy tranquilamente fuma seu cigarro em cima do palco. Os trabalhos de Aaron Hill e Gary Mader são discretos no palco até que “Revelation/Revolution” os coloque para trabalhar de vez. O baixista pede uma cerveja antes de “Take As Needed For Pain”, clássica canção do álbum homônimo que coloca a galera para agitar na pista acompanhando o ritmo rápido da música. O riff torto de “30$ Bag”, do mesmo álbum agora referido, é recepcionado com muitos aplausos do público. Em retribuição, Mike faz um coraçãozinho com as mãos… “New Orleans Is The New Vietnam”, que saiu em single em 2012, é uma das últimas da apresentação que antes de findar com “Serving Time In The Middle Of Nowhere” que figura na coletânea “Southern Discomfort” (2000), ainda tem “Dixie Whiskey” de “Dopesick” e a polêmica “White Neighbour” (antes chamada “White Nigger” do disco “Take As Needed…”). O show termina com Mike elogiando o público paulistano, que sai certamente atordoado da casa depois de aproximadamente uma hora e quinze minutos deste violento ataque sonoro que constitui o show da Eyehategod.

SETLIST DAS BANDAS

NOALA

1-Nostalgica

2-Stuck In A Gastric Tube

3-The Rain Falls Burning

4-Lava Agni

ITD

1-O Escolhido

2-Era Sombria

3-Relíquias Do Caos

4-Penhor da Culpa

5-Peregrinação

SAMSARA BLUES EXPERIMENT

1- Singata Mystic Queen

2-Army Of Ignorance

3-Vipassana

4-One With The Universe

5-Center Of The Sun

EYEHATEGOD

1-Agitation! Propaganda!

2-Jack Ass In The Will Of God

3-Parish Motel Sickness

4-Blank/Shoplift

5-Lack Of Almost Everything

6-Blood Money

7-Sisterfuck (Part I)

8-Sisterfuck (Part II)

9-Medicine Noose

10-Revelation/Revolution

11-Take As Needed For Pain

12-30$ Bag

13-New Orleans Is The New Vietnam

14-Dixie Whisky/White Neighbor

15- Left To Starve

16-Serving Time In The Middle Of Nowhere

Mosh Live · News

Postado em novembro 8th, 2018 @ 09:00 | 235 views
–> –>


Notícias mais lidas
«
»