21 Nov 2018, 5:48 pm

O Passado E O Futuro Do Rock Com O Kadavar No Fabrique Club


Kadavar @ Fabrique Club – São Paulo, 03.03.2018

 

Texto Henrique G. de Paula
Fotos Renato Jacob

Na noite de 03 de março de 2018, a casa paulistana Fabrique Club e seu ambiente rústico, porém acolhedor, foi o local perfeito para a festa stoner rock promovida pela Abraxas. A produtora que desde 2013 divulga, apoia e promove bandas novas do cenário nacional e internacional calcadas na sonoridade rock and roll e psicodélica típica dos anos 70, atuando também desde 2016 como um selo (já composto de um catálogo invejável), foi muito feliz na produção de uma noite que não será esquecida pelos fãs que vieram prestigiar os alemães do Kadavar e puderam conhecer a novata Disaster Cities e novamente apreciar a já quase decana Grindhouse Hotel. Para quem não conhece o estilo praticado pelas bandas citadas, o stoner rock é a versão contemporânea daquele som definido por riffs potentes e marcantes, executados em média velocidade, que se tornou a marca registrada nos anos 70 de bandas como Black Sabbath e Led Zepelin, dentre as mais famosas, mas que encontra igualmente sua fonte em nomes mais obscuros, mas não menos importantes como Blue Cheer e Sir Lord Baltimore, para citar apenas alguns. A cena stoner é uma das que mais cresce hoje em todo o mundo, garantindo que o glorioso passado de alguns de nossos grandes ícones do rock e do metal chegará vivo, forte e renovado às próximas gerações. 

Os trabalhos se iniciaram quando o horário já chegava próximo das 18h30, com a catarinense Disaster Cities, fundada em 2017, e que fazia seu show de estreia e, ao mesmo tempo, o show de lançamento de seu primeiro álbum, intitulado LOWA. Oito canções foram executadas enquanto a casa ainda recebia a primeira leva do público, que certamente aprovou o som pesado, com discretos toques de psicodelia, praticado por Ian Martini Bueno (bateria), Matheus Andrighi (guitarra e vocal), Rafael Panegalli (baixo e vocal) e Vinicius Cripa (sintetizador). A banda, que estreava a formação em quarteto, já que Vinícius foi incorporado ao grupo, de modo oficial, apenas recentemente, teve como destaque na apresentação o som alto e gorduroso do baixo, o bem sacado revezamento dos vocais de Matheus e Rafael, e a notória energia de seu baterista. Aplaudidos pelo público, foram bem-sucedidos em apresentar-se como um nome promissor da cena stoner nacional. O set de sua noite de batismo incorporou as seguintes canções: a intro “The Rats Testimony”, “Brave New Heart”, “Right Next To You”, “Heartbroken Robot”, “Death Blues”, “Blow”, “Mice and Trashcans” (que já conta com videoclipe de muito bom gosto na internet), todas presentes no álbum de estreia, além do cover do The Stooges, “Search And Destroy”.

Na sequência, os já experientes e calejados músicos do Grindhouse Hotel demonstraram toda a competência de seu som arrastado e pesado, mas que inclui passagens rápidas e agressivas, com um repertório que se estendeu por quase uma hora. Com muita personalidade em cima do palco, a banda que conta com Leandro Carbonato (voz e guitarra), Roger Marx (baixo), Luiz Natel (voz e guitarra) e Gustavo Cardoso (bateria), soube criar muito bem uma experiência não apenas sonora, mas igualmente visual, ao fazer uso do telão atrás do palco, ilustrando com vídeos a trilha sonora executada ao vivo. A ansiedade do público pelo show do Kadavar, porém, aumentou um pouco, quando os alemães desfilaram na pista para chegar ao backstage em plena execução da segunda música dos paulistanos. Estes, contudo, tiraram o desafio de letra, e tiveram todas as suas canções bem recepcionadas e aplaudidas pelos fãs dos europeus. Canções antigas e novas compuseram o set que contou com: “Burn Like Fire”, “T.I.T.I.”, “Centaurus”, “Liquid Brain”, “Cleanliness”, “Desert of Affliction”, “Throw It Out”, “Red Pill” e “You Stink Motherfucker”. Ao final de sua bela apresentação a casa estava cheia e pronta para o prato principal da noite.

O relógio marca vinte horas e trinta e cinco minutos quando o guitarrista Christoph “Lupus” Lindemann, o baixista Simon “Dragon” Bouteloup e o baterista Christoph “Tiger” Bartelt entram em cena aplaudidos pelo público para uma apresentação mais do que suficiente para aplacar a incerteza dos céticos e absolutamente apropriada para minar o agouro dos pessimistas de plantão que pregam o fim do rock and roll, diante dos recentes anúncios das aposentadorias dos grandes nomes dos anos 70 e 80. O Kadavar não precisou de muito mais que uma hora para escancarar o fato de que o rock está vivo e permanecerá assim por muitos anos ainda! Com uma vibração avassaladora, “Skeleton Blues”, do novo álbum “Rough Times”, lançado no ano passado, causa tremor no Fabrique Club e abre de modo magistral o show dos alemães, cuja perfeição não foi sequer arranhada pelos pequenos problemas técnicos com o microfone de “Lupus”. Quando o ritmo hipnótico da canção termina, o público está agora à serviço da banda alemã que pode fazer o que quiser em cima do palco, pois será sempre ovacionada. “Como vocês estão? É tão bom estar de volta!”, diz Lupus, antes de formular aquela pergunta básica que já está previamente respondida no rosto de seus fãs: “Estão prontos para um pouco de rock and roll?”. Os riffs marcantes de “Doomsday Machine” (do segundo disco “Abra Kadavar” de 2013) arrebatam nossa alma e envolvem a todos nós presentes de modo quase indescritível, como se estivéssemos em uma espécie de culto de consagração da psicodelia típica dos anos 70. A sensação é de estarmos em um ritual, e é nítido que este é justamente o efeito buscado pelos alemães. A mensagem é clara, e os mais velhos dentre os presentes já a conhecem há muito tempo: o rock and roll não é apenas música, é um modo de vida e uma religião, e ela agora tem uma nova seita com os seguidores conquistados pelo Kadavar.

A agitada “Pale Blue Eyes”, do terceiro álbum “Berlin” de 2015, mantém o ritmo alucinante do show e é a ponte perfeita para “Into the Wormhole”, canção que abre o novo álbum, e soa um pouco menos pesada ao vivo do que em estúdio, embora não perca nada de sua energia, suficiente para manter todos agitando na pista e cantando seu refrão como uma espécie de mantra. O vocal de “Lupus” está cristalino e sua cabeleira provoca um pequeno redemoinho em cima do palco enquanto ele a agita freneticamente, naquele movimento que todos os presentes conhecem e muitos já praticaram em seus tempos áureos, provocando um pouco de nostalgia em alguns senhores… Sim, o público do Kadavar conta com muitos senhores, mas igualmente com muitos jovens que talvez estejam descobrindo a magia da música pesada através destes seus novos expoentes. Enquanto o baixista “Dragon” figura ainda como o membro mais discreto da banda, “Tiger” mostra como se pode tocar seu instrumento com todo o corpo, já que ele agita tanto quanto o guitarrista enquanto executa suas partes com precisão, batendo sempre muito forte em seu kit. A mais radiofônica “Die Baby Die”, também do novo disco, é igualmente a mais cantada da noite, com “Lupus” cumprindo o papel de comandar seu rebanho de cima do palco para o ato coletivo de devoção no qual todos nós neste ponto do show já estamos engajados. O final da canção é tocado de modo um pouco mais acelerado do que em estúdio, e a banda neste ponto impressiona por sua segurança e coesão.

A atmosfera mística setentista continua a preencher completamente o ambiente do Fabrique com “Living In Your Head”, do primeiro disco de 2012, e se parece que nos transportamos no tempo para quatro décadas atrás, é porque “Lupus”, “Dragon” e “Tiger” não são apenas amantes da música praticada naquele período, mas também grandes estudiosos dela, verdadeiros especialistas, pois sua música não soa, de modo algum, como mera emulação, mas legítima e autenticamente setentista. Isto, porém, a antropologia explica: a função de todo ritual, como este que presenciávamos e de que participávamos na noite, é reviver com perfeição os eventos de um passado imemorial, colocando-nos na situação de experimentar a verdade em sua atemporalidade. E a verdade do rock and roll, anunciada desde seus primórdios, e praticada por todos naquela noite, é que a vida não pode passar sem fruição, prazer e entrega aos momentos que unem magicamente as pessoas! O final da música é apoteótico, e na sequência o solo inicial de “Old Man”, de “Berlin”, segura o clima, até que seu magnífico riff entre, apenas para comprovar o que muitos ali já haviam concluído: o Kadavar está destinado a ser um clássico do rock.

Com a baqueta em riste, “Tiger” convoca as massas para nova liturgia: “Black Sun”, também do primeiro álbum, é embalada por palmas dos fiéis, e neste momento nem o, até então, mais contido “Dragon” consegue ficar parado. Quem atento contempla o palco neste momento, pode ver a imagem mais bonita da banda em execução naquela noite: “Lupus” jogando a densa cabeleira ao ar, “Dragon” embalando o corpo para frente e para trás, e “Tiger” fazendo diversas caretas, com os cabelos esvoaçando, atingidos pelo forte vento do potente ventilador diante dele. Tudo isto enquanto cada nota sai perfeita dos alto-falantes e a performance vocal de “Lupus” se aproxima da produção de um cântico! Os músicos e seus instrumentos entraram em simbiose e não se distinguem mais um do outro. Eu diria que é o ápice do show, se a característica principal deste não tivesse sido, desde o início, um crescendo contínuo que só se interrompeu quando a banda executou a última nota da derradeira canção!

“Forgotten Past” é anunciada como a primeira música composta pela banda, evidência de que desde o princípio seus membros enveredaram pelo caminho correto. O baixo de “Dragon” fica assombrosamente pesado e a banda estende a canção em uma longa improvisação que conhecemos pelo nome de “Purple Sage” (também do primeiro álbum), o que não cansa ninguém, pelo contrário, mantém com eficácia a produção do transe coletivo que foi o show do trio alemão. “Lupus” anuncia, então, a todos que a apresentação está chegando a seu desfecho e que só restam três canções. “Thousand Miles Away From Home”, de “Berlin”, com seu empolgante refrão, “All Our Thoughts”, do primeiro álbum, com seu sensacional solo de guitarra, e “Come Back Life”, do segundo disco, com seu baixo pulsante, fecham uma noite em que o passado foi trazido ao presente, prenunciando nosso futuro: permanecer na senda viva do rock and roll que nos alimenta, pois sua chama não se apagará tão cedo. Não, se depender do Kadavar. E como nos anos 70 não tínhamos celulares, nada de “selfie” com o público que grita seu nome durante a despedida – a banda deixa o palco rapidamente, e a sensação geral é de epifania. Seria preciso estar presente para entender… Em pleno mês de março, um candidato sério a melhor show do ano.

SETLISTS

DISASTER CITIES

1-The Rats Testimony

2-Brave New Heart

3-Right Next To You

4-Heartbroken Robot

5-Death Blues

6-Blow

7-Mice and Trashcans

8-Search And Destroy (cover do The Stooges)

 

GRINDHOUSE HOTEL

1-Burn Like Fire

2-T.I.T.I.

3-Centaurus

4-Liquid Brain

5-Cleanliness

6-Desert of Affliction

7-Throw It Out

8-Red Pill

9-You Stink Motherfucker

 

KADAVAR

1-Skeleton Blues

2-Doomsday Machine

3-Pale Blue Eyes

4-Into The Wormhole

5-Die Baby Die

6-Living In Your Head

7-The Old Man

8-Black Sun

9-Forgotten Past

10-Purple Sage

11-Thousand Miles Away From Home

12-All Our Thoughts

13-Come Back Life

Mosh Live · News

Postado em março 11th, 2018 @ 18:37 | 316 views
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