20 Oct 2018, 3:07 am

Taurus, Nervochaos, Coldblood & Velho No Rio de Janeiro


Taurus, Nervochaos, Coldblood & Velho @ La Esquina, Rio de Janeiro – 17.12.2017

 

Texto e Fotos de Marcelo Pereira de Souza
Revisão Henrique G. de Paula

Num domingo no “Hell de Janeiro”, cujo público de metal carioca, assumidamente carente de shows nacionais de medalhões, teve que se dividir ou, melhor dizendo, optar por escolher entre este show ou o que rolava em outro estabelecimento (Imperator no bairro do méier), onde tocariam Gangrena Gasosa e Cólera, este escriba optou por rever o eterno Metallica (old school) brasileiro.

Marcado para as 18h00, com calor descomunal e concorrência, o público acabou adentrando no recinto (o La Esquina é uma casa de shows com estilo de pub, com cervejas de diversas marcas e local para cerca de 200 pessoas curtirem show intimista com palco de piso baixo) um pouco mais tarde, e os shows tiveram início às 18h50.

No mezanino do segundo piso havia para venda materiais das bandas como CDs, vinis, DVDs, camisas e outras coisas, voltando ao pragmatismo dos primórdios do “do it yourself”, que sempre é bem-vindo para o público metaleiro, não tão duro como outrora, e ávido por colaborar com o incentivo ao metal nacional para o fortalecimento do movimento. Compareceram na bilheteria precisamente 105 pessoas, com ingressos antecipados por míseros 20 reais. Quem comprou na hora pagou 30 reais, bem módico nos dias atuais.

Conforme dito, às 18h50 entra o quarteto carioca VELHO, formado em 2009 na baixada fluminense, mais precisamente em Duque de Caxias, uma banda com certo carisma e que faz uma mescla de som tosco com cavalgadas emocionantes, numa mistura bastante interessante do punk hardcore com Black Metal. As guitarras com riffs e fundo distorcido remetem à ênfase da cozinha, cujo entrosamento e pegada nos traz uma sonoridade para mexer o esqueleto. A levada punk-oi-hardcore do baixista, agregada ao 1 x 1 da bateria, é a alma da banda; estas, aliadas à sujeira das guitarras e à voz cadavérica, cujo português é às vezes inaudível, são as características dessa galera que consegue agradar a maioria dos bangers, mesmo quem não curte um som mais cru. Realmente, o baixo marcante de Rafael Lopes com a batera forte e precisa do Splatter merecem uma atenção especial. Como toda banda de Black Metal que se preze, tocam com o rosto pintado (o guitarrista/vocalista Caronte com sua Squier e seu corpo pintado), e fica ligeiramente pitoresco o visual do guitarrista Herr, com sua Epiphone vermelha. A Fender Squier e a Gibson Epiphone, com as quais os guerreiros fazem suas bagunças, não são muito comuns entre músicos de metal extremo. Tocaram músicas dos EPs “Vida Longa ao Primitivo” de 2009 e “Senhor de Tudo” de 2013, do debut álbum de 2015 “ Decrepitude & Sabedoria”, enfim, desfilaram nos 50 minutos pertinentes um apanhado da carreira. Em dois momentos tiveram pequenos desencontros ao iniciar as músicas (uma de cada guitarrista), o que foi abafado rapidamente, além de um momento bem pitoresco em que uma loirinha baixinha (que estava com uma morena de 1,75m, mais ou menos, ambas de shortinhos e lindas, que acredito estarem com a banda) se meteu na roda. Os “pogers” começaram a ter encontros de corpos de forma mais arrojada, mas a menina meteu bronca no ombro a ombro com os marmanjos, sem titubear, de quem cheguei a tirar uma foto pós ombradas.

O setlist contou com: “A Nova Onda Ocultista”, “Cadáveres e Arte”, “Capela Negra, Círculo de Fogo”, “Uma Trilha sem Pegadas”, “ A Mesma Velha História”, “Satã, Apareça!”, “ Perto dos Portais da Loucura”, “ Senhor de Tudo”, “ A Marca Invisível de Lúcifer”, “Total Escuridão”, “ O Único Caminho” e, finalizando, “Mais Um Ano Esfria”.

Em seguida, vieram os paulistas do NERVOCHAOS, cujo líder guitarrista/vocalista Lauro estava ansioso com sua guitarra alçada ao corpo, tal como um jogador de futebol júnior convocado para jogar no time principal, enquanto o pessoal da banda anterior retirava seu equipamento de palco. Triste foi a falta da recém falecida guitarrista Cherry Taketani, que também tocou nas bandas Okotô e Hellsakura, vítima da maldita doença do câncer, diagnosticado quando estava em turnê com eles na Rússia; ela esteve com a banda até 19 de novembro de 2017 (entrou em 2015), cumprindo toda a European/Russia Tour 2017, quando três dias depois teve que ser internada, vindo a falecer no início de dezembro. Fulminante e agressivo, como suas dedilhadas nas cordas! Foi lembrada pelas bandas presentes com todo carinho e respeito que sempre mereceu. Quem veio, e já substituiu nossa querida japinha outrora, foi o guitarrista Quinho.

O que falar dessa banda oriunda dos anos 90, com experiência por palcos do Brasil e mundo afora? Já fiquei abismado de não ter no chão, ou em qualquer lugar, o setlist descrito, o que cheguei a comentar com o baixista Thiago e pedir ao mesmo para escrevê-lo para mim (estou até agora esperando, viu bassman). Detonaram várias músicas num set curto, tamanha estrada e CDs lançados, mas deixaram o público saciado com seu death metal bem tocado com a pegada peculiar da banda. O batera Edu e sua batida firme e precisa, agregada ao groove do baixo de Thiago e ao carisma do Lauro nos solos e vocal, com Quinho, substituindo a dor perdida por algo sublime, fez os ávidos bangers delirarem. Em certo momento Lauro diz que “Deus” não estava ali presente e que deveriam detonar o som e tocaram “Pazuzu is Here”. Teve como destaque “Total Death”, onde a galera cantarolou junto, e, para minha surpresa, pois adoro o doom do Candlemass (principalmente da era do Messiah Marcolini), entonaram “Bewitched”, o que me deixou inquieto por ver uma banda de death metal fazer cover da melhor de todas de doom metal. Principalmente, porque fica difícil para qualquer admirador, e para quem é fã, fazer comparação das versões, e enaltecer, apesar de ter ficado bom. As comparações serão sempre inevitáveis, mas melhor é buscar a já tarimbada “Procreation (of the Wicked)” do Celtic Frost que creio soar mais encaixada ao som da banda. No geral, um bom show de uma banda que pareceu ainda sentir a saudade e a ausência da experiente japinha.

Após o espasmo da sonoridade dos paulistas, entra o Power trio nativo, Coldblood, que, para minha surpresa, já conta com 25 anos de existência (na matemática, desde 1992), enaltecidos pelo vocalista/guitarrista Diego Mercadante (que não é fundador da banda e sim o batera Mkult). Seu death metal vigoroso não os torna enjoativos ou repetitivos, como pensa a maioria (não sou especialista nesta ramificação, então falo mais com o coração do que com a razão), e a sinceridade e humildade hoje em dia cativa mais do que qualquer alcance de sucesso na mídia que possa tornar o underground popular ou fazer sucumbir os músicos ao pseudo-estrelato. Os 25 anos de existência tiveram um hiato, e o primeiro CD foi lançado somente em 2007, mas já tocaram com nomes conhecidos do metal nacional e até fizeram uma turnê sul-americana (Under the South American Tour). Também assinaram contrato com a gravadora mexicana Onslaught Records que os fez ter reconhecimento no exterior. Aqui chegaram a tocar com o Cannibal Corpse, Master, Mayhem, Taake, Grafenstain e Onslaught. Enalteceram o respeito e dedicaram o show à guitarrista Cherry, bem como ao baiano (cujo nome não lembro), falecidos recentemente. Porradas sonoras em sequência fizeram o público “bangear” constantemente, principalmente com seus clássicos “Sulphur”, “ Methastasis” e “Bury the Universe”. O trio formado por Diego (guitarra/vocals), Mkult (bateria) e Zé Sampaio (baixo) fechou o set com “Anti-Crusade (To Destroy the Holy Graal)”. Experiência e um bom pré-aquecimento para o que estaria por vir; ansiedade que nunca irá fazer mal a ninguém.

Para finalizar o domingo com chave de ouro, ressurge para dar início a uma turnê nacional, a grandiosa e respeitada banda do outro lado da baía carioca, mais precisamente de Niterói, que muitos já chamam de “old school”, e que eternamente trará lembranças do Metallica pelo seu thrash metal vigoroso dos primórdios. Os agora cinquentões ainda têm o pique do thrash/speed metal de antigamente com a experiência e segurança do saber do marco no metal nacional de seu primeiro registro fonográfico. Engraçado foi me ver dentro da minha normalidade tirando as fotos e tomando esbarrões dos insanos rockers, que insistiam na roda do metal e até, de vez em quando, derrubavam no chão o som de retorno, que estava com uma faixa para tentar impedir qualquer tipo de aproximação. Digo engraçado porque o público agitou mais do que nos shows das bandas anteriores, o que para mim está dentro da normalidade do estilo. O set foi bastante focado no debut álbum “Signo de Taurus” que, quando é algo que agrada a galera roqueira, vira obrigação de saciar a sede do público. Os irmãos Bezz dispensam apresentações, com o professor de guitarra Cláudio mostrando cada vez mais sua técnica apurada e seu peso, deixando os riffs e notas às claras; estas, aliadas à precisão do mano Sérgio nas baquetas, fazem o contexto do thrash/speed metal ao fugir da tradicional cozinha de baixo/bateria para o estridente seguimento de guitarra/bateria. Tal como no marco do grandioso Metallica, sua fonte inspiradora e talvez nunca enaltecido no estilo, em que os membros fundadores da maior banda de heavy metal da atualidade iniciam por estes instrumentos.

Iniciar o set com “Signo de Taurus” fez abrir a porteira do inferno, onde não tem como ficar quieto, tamanha a empolgação com os riffs de galope, e não tem como não empunhar sua guitarra imaginária ou preparar o corpo para o tranco da roda, o que faz qualquer cinquentão ou garotão se empolgar. Emendaram, logo em seguida, “Mundo em Alerta” do famigerado LP, fazendo o público pensar estar diante da reprodução do álbum, pela sequência das músicas, pois já esteve em voga em outras épocas tocarem o disco na íntegra. Quebrando a sequência dessa lógica, executaram “Batalha Final”, uma reflexão dos tempos de guerra que faz todo banger que se preza se sentir forte e poderoso, querendo quebrar a alcunha do poder, principalmente se pensarmos na situação do país. E haja roda com aumento da ira e adesões. A próxima foi “Império Humano”, na mesma linha das anteriores. Eita álbum bom de se ouvir ao vivo! Para fugir dos trabalhos iniciais, seguem com “Fissura”, que lançada em 2010 teve retorno das letras em português, música onde os instrumentistas apresentam uma melhora em suas técnicas, mas não causa tanto alvoroço como as anteriores. Digamos como a recente entrevista com o aposentado jogador Kaká, sobre os golaços que fez desde sua época de juvenil, em que, em um deles, ele tenta passar por dois jogadores adversários e, contando com um pouco de sorte, passa e faz um golaço; ao explicar, diz que se fosse hoje, com mais maturidade, ele já levantaria a cabeça para procurar a quem passar a bola por estar melhor colocado. Assim vejo esta música e este álbum, como o próprio nome diz do ímpeto juvenil em sucumbir à sabedoria, pois mesmo sendo excelente, o que marca para nós seres humanos sempre será a comparação com o marco inicial. Desse mesmo álbum vem a seguir “Desordem e Regresso”, que soa atual por causa dos vários anos de corrupção e revolta do povo. O ritmo incessante remete à famosa “Falsos Comandos” que, comandada verdadeiramente pelo entusiasta Otávio, faz a galera cantarolar e empunhar o antebraço, como se se sentisse o poderoso Thor, sem nenhum martelo, mas ávida por encontrar um político corrupto (brincadeiras à parte, mas só o heavy metal para fazer com que nos sintamos super-heróis). Depois dessa porrada sonora, vem “Trapped in Lies” do álbum de mesmo nome, mas que contava com o então clone de James Hetfield na guitarra e vocal, Jeziel (guardadas as devidas proporções), que voltado para o mercado estrangeiro a fim de alcançar voos mais altos, nos faz querer que Tavinho caminhe sempre para a língua nativa, não por qualquer coisa com seu inglês, mas sim por estarmos acostumados com sua timbragem no nosso português, que quando bem cantado e urrado nos faz ser tradicionalistas ao extremo. Isso ao meu ver é bem positivo, pois acabaríamos com o chamado “complexo de vira-lata” achando que tudo do estrangeiro é melhor, e por mais que o inglês seja a língua universal, começaríamos a ser bem mais nacionalistas. Para minha surpresa, nosso vocalista deu uma respirada e falou sobre alguns fatos, inclusive sobre seu retorno; sobre a próxima música “Pornography”, afirmou categoricamente que gostaria de tê-la feito e que foi um patamar para seu retorno aos palcos e, por que não, da banda. Sabemos que viver de rock é bem difícil, principalmente heavy metal, e no Brasil mais ainda. Ter que trabalhar a fim de obtermos uma profissão digna de sustento, leva qualquer músico, e não somente desse estilo, a colocar seu sonho em segundo plano. Ficou de bom tamanho! Para voltar ao conforto da timbragem e nostalgia, retornam com “Rebelião dos Mortos”, seguida de “Demien”, com seu urro gutural em plenos pulmões e, para finalizar essa tríade e o magnifico show, simplesmente, “Massacre”. Sim, realmente parece ser um show planejado, para não dizer que foi, um verdadeiro massacre. E que seja bem-vinda a turnê por todo o Brasil. Vocês são grandiosos e merecedores de reconhecimento. Parabéns à banda, ao público e aos produtores!

 

 

Mosh Live · News

Postado em dezembro 29th, 2017 @ 09:19 | 468 views
–> –>


Notícias mais lidas
«
»