Behind The Chaos nasce como um espaço dentro do Fanzine Mosh dedicado a mostrar o que realmente acontece longe dos palcos. A cena metal é construída não apenas por músicos, mas também por produtores, técnicos, jornalistas, roadies e todos aqueles que fazem a engrenagem girar — muitas vezes enfrentando desafios que o público jamais imagina.
Nesta primeira edição da coluna, conversamos com um profissional que conhece bem os bastidores da música pesada. Em uma entrevista franca, ele relembra sua trajetória, fala sobre os desafios de produzir eventos, as transformações da cena ao longo dos anos e compartilha histórias que ajudam a entender melhor o funcionamento desse universo.
Entre memórias, reflexões e algumas boas histórias de estrada, abrimos oficialmente as portas do caos.
- Por favor, se apresente, resumidamente como jornalista, músico, escritor, poeta e produtor cultural?
Rapaz, é mais atividade do que meu tamanho enquanto pessoa (risos). Algumas coisas aí foram levando a outras, nem que fosse inconscientemente. Só na questão de produtor cultural, eu também acabo atuando como Jornalista. Escrito tem um passo nisso aí também, afinal, sempre fui letrista nas bandas que eu passei, então…Eu sou do tipo de que aparece algo novo, por que não tentar? A vida é assim, te abre oportunidades e você vai fazendo. Acertar ou errar faz parte.
- Como foi a iniciação no mundo rock?
Como todos àqueles de minha geração, a vinda do Kiss pro Brasil. O Disco “Creatures of the Night” foi um manual para essa “geração 80” entre os fãs de Rock pesado. O programa BB Vídeo que rolava na Tv também me ajudou muito, afinal, somos de uma geração que se conhecia muitas bandas pelos clipes antes dos discos. Ali pude conhecer Quiet Riot, Iron Maiden, Van Halen, entre outras. Daí meu amigo, foi abraçar o estilo e seguir em frente com essa paixão.
- De colecionador, tape-trader, fanzineiro e tudo de amor ao rock, como se deu essa transição para jornalismo e tudo que passou até os dias de produtor cultural de rock?
Engraçado que eu sempre gostei de escrever, mas fui tentando outras coisas antes disso. Algumas deram certas outras não. Daí resolvi fazer Jornalismo e pronto, outras coisas foram desencadeando.
- Outro lance importante foi do seu interesse pela bateria e a formação da banda Statik Majik. Fale disso tudo?
Antes da Statik Majik estive o Refugium Pecatorum na década de 90 e também um projeto de Death Thrash Metal chamado Shadows FX. Como existia um desgaste dessas bandas por questões pessoais não só minhas mas também entre outros integrantes, e tudo isso com meu crescente amor pelo Doom Metal e Stoner Rock, pintou a ideia de montar a Statik Majik. O nome da banda é de um EP da banda do cathedral, daí você vê bem de onde eu “colei’ as influências (risos) Realmente entre todas as bandas que tive a Statik foi a mais bem sucedida.
- Conte sobre esta banda e todo metiê de gravações, show, viagens?
A banda durou 13 anos, mas levou praticamente uns 5 anos pra ter maturidade pra viajar e uns 8 anos pra gravar seu primeiro disco oficial. E olhe que mesmo pro primeiro disco ainda custou ter que perder integrantes no caminho, mas, que no final acabou sendo saudável pra todo mundo. Oficialmente gravamos discos: Stoned on Musik (2010) e Wrth of Mind (2013). A Statik foi uma banda boa, mas prejudicada por escolhas pessoais erradas, coisas que se revelaram na estrada, por exemplo. Fundei, fui manager, vendia discos, era quase um “faz tudo” na banda, e isso não é tão mérito assim, mas necessidade, o que já se provava lá trás que hoje não basta ser bom músico, mas um cara que vá além do palco e do instrumento, o que de fato nunca me considerei me considerei um baterista excepcional. Eu era o baterista certo na banda certa. Conheci músicos medianos perfeitos e excelentes músicos idiotas.
- Sobre as turnês sul-americana e europeia, o que levou de recordação positiva e negativa se teve? Algo dessas experiências te ajudou na transição para produtor?
A nossa melhor tour foi a Sul-americana, praticamente perfeita. Da Europa teve seus bons momentos, mas fechamos um agenciamento merda. A Norte Nordeste foi tosca, mas foi bacana também. Bons momentos é que ficam as partes engraçadas, as vezes até as tragédias (risos). Eu sou um dos poucos produtores que produzem shows e tem ou tiveram bandas, acho que isso te traz outra visão do que acontece. Isso ajuda a entender melhor as reais necessidades. Sendo assim, eu produzo show e consigo visualizar melhor o que uma banda precisa, principalmente as novas, por justamente ter passado os problemas que elas passam.
- Você também criou um blog ou page chamado “Arte Condenada”. Explique esse lado jornalístico em prol da música, seja de bandas novas ou antigas?
Rapaz, o Arte Condenada foi de tudo, só não virou Only fans porque não deu tempo (risos). Tô brincando (risos). Ele era uma live de instagram, lembro que época da pandemia eu fiz umas 35, 40 entrevistas. Foi programa de rádio, infelizmente destruída pela maldita briga política. E também canal de youtube, que eu acho que durou uns 10 programas. Gostava de fazer, acho que de tudo aí, curtiria mesmo ter um programa de rádio, foi uma experiência ótima. A gente une o útil ao agradável, então, sendo fã de Rock, Metal, amante de música, a gente acaba levando pra esse lado. Eu adoro até hoje, desde os tempos de moleque, de ficar pesquisando, lendo encarte de discos. Acho uma pena que a tecnologia tenha feito os novos fãs perderem essa boa mania.
- Fale de todas as bandas que você participou como baterista ou fazendo outra coisa como produção ou qualquer outra atividade que lançaram?
Eu toquei na Refugium Pecatorum entre 1995 e 2001, nesse meio tempo fiz parte rapidamente do As Dramatic Homage e toquei nesse projeto Shadows FX. Nisso aí lançamentos demos, CD`s, vinil. Foi com a Statik Majik que a coisa ficou mais profissional e rolaram coisas mais importantes, coisas que eu jamais pensaria inclusive. Com a Statik foram duas demos, um EP e 2 CD´s oficiais. Até hoje a banda é bastante lembrada. Quando estava decidido parar, entrei em um projeto chamado The Black Rook, que acabei abandonando após dois shows por achar que estava nele os mesmos problemas que me fizera desistir de tocar em banda. Não estava mais interessado em “puxar a carroça” de ninguém. (risos) 
- Sabemos que a produtora “Be Magic” tem 10 anos no mercado. Como foi toda essa transição para virar esse produtor com certo renome no cenário metálico ?
Na verdade, eu já fazia alguns shows desde a década de 90, só que não tão profissionalmente. Olhe, apesar da trabalheira, é mais fácil do que liderar uma banda, porque aqui eu resolvo tudo do meu jeito sem ter a necessidade de ter que aturar “mala sem alça” que não faz nada e ainda reclama. Se eu quiser fazer alguma coisa eu faço, se eu não quiser também. Ou seja, muito melhor assim
Nesses anos de produção com diversas bandas nacionais e internacionais, quais momentos te enalteceram com orgulho de produção e conhecer de certa forma alguns ídolos?
Até hoje falam do Pentagram, que é uma banda que jamais imaginaria ver no Brasil, o que dirá produzir seu show. De nacional, teve o krisiun, os caras são fodas dentro e fora do palco. Tem muitas coisas legais…poxa o Workshop com o saudoso Andre Matos.
- Seu reduto se baseia basicamente na Areninha Hermeto Pascoal em Bangu. Sabemos ser um pouco longe do “centro da cidade”. Porque dessa aposta e pensa em arriscar shows mais intensos em palcos mais abrangentes como Circo Voador ou outros?
Sou da zona oeste, mas por incrível que pareça, produzindo shows eu levei um tempinho pra trazer shows da Be Magic pra região. Sinceramente não penso porque eu deixo as coisas acontecerem como tem que ser, isso, pra tudo na minha vida. Tirar essa “pressão” ajuda demais. O legal de fazer em lugares e regiões diferentes é que a dinâmica muda, te dá um novo prazer em fazer evento, além do tipo de estilo, se show comum ou festival.
- Como você costuma escolher seu cast para um show, visto mesclar diversos estilos num mesmo evento?
Vou ser sincero contigo, se tem uma coisa que não me atrai é ficar pegando hype, modismos, pra se fazer um evento. O lema da Be Magic sempre foi “MÚSICA EM PRIMEIRO LUGAR”. Muitas bandas tocaram no RJ praticamente a primeira vez com a Be Magic, se não, na região. Eu fiz a Nervosa antes do RIR, depois fiz de novo. A Crypta idem. Malvada, Eskrota, muitas dessas bandas que estão aí tocando e tendo boa repercussão odos seus trabalhos. Misturar ou não depende muito, tenho algo “equilibrado” aqui na minha cabeça de quando e como ou não fazer mistura.
- Quais foram os melhores e piores shows em termos de qualidade e entrega? E quais bandas eram mais agradáveis como pessoas e quais os “malas”, sejam nacionais ou internacionais?
Vixe…disque denúncia (risos) cara, te dizer que tem equipe, manager que as vezes é mais mala do que a banda. Alguns shows não rolaram e ne mfoi culpa da produtora, mas de managers sacanas, aos imbecis que ficam em rede social falando mal, esses fracassados não sabem a metade da história (risos) Melhor só falar dos melhores, dos piores pode dar merda (muitas risadas)…Pentagram foi clássico. Também foi foda esses últimos Krisiun e The Laws (Sarcofago)..o Andre Matos, o Dr. Sin…mais recentemente o Arena Headbanger foi ótimo. 
- Pode ser que alguns não saibam, mas a maioria de protetores de animais são roqueiros. Você costuma fazer alguns eventos no fim do ano em prol dos animais. Fale disso e desse amor pelos animais, visto constantemente postar fotos com seu cachorrinho nas redes sociais?
Já fiz 3 eventos beneficentes em prol dos animais, penso em fazer outro futuramente. Fui criado com cachorros no quintal, então, sempre existiu essa afinidade. Quanto aos roqueiros, vamos combinar, essa cara de maldade acaba quando tem os bichinhos por perto, aí fica todo mundo uma doçura (risos)
- Como músico que foi e atualmente produtor, sabe todos os percalços de crescimento de uma banda e sei que gosta de ajudar no crescimento de cada uma. Por isso teve o projeto “Ascenção do Metal Carioca? Explique um pouco sobre essa ideia!
Vixe…não lembro desse projeto (risos) Muitas vezes alguém me pede contato, dica, opinião, eu faço numa boa. Nem faço essa coisa toda por cena x ou y, acho que muita gente que fala em nome de cena acaba só olhando pro próprio umbigo no final e aí eu não acho muito justo. Cena é algo coletivo, ou seja, algo bastante complexo, então, a Be Magic só faz a parte dela, sem se cobrar muito em cima disso. Tudo o que eu fiz, faço e farei pelos outros é uma coisa que pra mim é normal, consciente.
- Conte os próximos shows de sua produção e o que esperar?
Teremos o Master, banda clássica Americana, no dia 2 de Maio no Garage, e no mesmo mês, na lona de Bangu, o Tuatha de Danann, a maior banda Folk Metal do Brasil, acho que a do mundo. E por aí vai…vem Hirax em Bangu, que é um sonho realizado ter uma banda gringa no local, tem Ratos de Porão também. A gente tá aí fazendo o nosso.
- Como você definiria o produtor “Carlinhos”, com seus próprios olhos?
Um cara que acredita no que faz, de personalidade própria, um cara com autenticidade que não se sujeita a grupos e discursos caso ele discorde de alguma coisa, um cara que acredita na sua verdade e respeita o próximo e quem pensa diferente. O cast da Be Magic ao longo do tempo é a prova cabal disso tudo.
- Você pretende expandir sua dedicação para outros estados brasileiros? Se sim, alguma parceria ou futuro pensamento a respeito?
Fizemos em São Paulo, em parceria com a malevolente prod. Um festival que ficou muito bacana e que o público abraçou. Quem sabe façamos isso no ano que vem. Queria fazer mais coisas, massa demanda em SP está demais, quem sabe isso em Mg, por exemplo.
- Qual show você gostaria de realizar com quais bandas possíveis e aquela que seria uma utopia de tentar realizar?
Utopia seria faze um Iron Maiden, por questões óbvias (risos) Bandas, não sei se possíveis, mas seria um sonho fazer um Alice in Chains ou Jerry Cantrell solo. Um Anthrax, anda que eu amo. Amaria fazer o Trouble, banda foda de Doom metal.
- Para finalizar, muito grato pela atenção e qual recado você daria principalmente para os headbangers carioca? Quem quiser saber mais a respeito de tudo que você faz, deixe os contatos das redes sociais, dos livros e da produtora para que mais e mais bandas venham conhecer um dos caras mais resilientes do cenário rocker e gente fina, dessa combalida cena metálica carioca!
Tem o instagram @bemagicprod para se informar sobre a Be Magic….bem, eu estou por aí, instagram, Facebook, sempre de boa pra trocar uma ideia…você não me verá escondido feito “produtor celebridade” (risos)…os livros estão parados, talvez eu lance coisa nova em 2027. Sobre o gente fina, muito obrigado, e resiliente, sinceramente, acho que é por justamente ser um cara que a vida toda sempre tratou as pessoas com olhos nos olhos, nunca criei linha imaginária de alguém intocável. Odeio isso, Rocks stars de qualquer tipo deveriam ser enterrados, de preferência de cabeça pra baixo que pra não voltar mais (risos) Produtor, músico, o que seja, deve respeito ao seu público, sem eles a gente não é nada !!! Não acho que nossa cena seja combalida, o Rio de janeiro sempre foi assim, a gente que tá nessa há tempos sabe bem como é. Fazer Rock no RJ não é fácil, sendo mais pesado mais difícil ainda, pois é algo cultural, enraizado, que sempre batemos de frente. Muito Obrigado pelo espaço, por deixar eu falar um pouco do meu trabalho, e claro, alguém que produz sem bancar um “idiota polêmico da semana”, já que parece que boa parte da mídia Brasileira virou isso
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