Iron Maiden celebra 50 anos com um repertório impecável e modernidade nas telas.
Texto e fotos @MarcosHermes
No Nubank Parque, em São Paulo, o Iron Maiden colocou seu patrimônio à prova diante de uma plateia que conhecia cada milímetro de um repertório irretocável, baseado nos primeiros álbuns da carreira da banda e celebrando os 50 anos de estrada na “Run For Your Lives” tour. Duas noites de casa lotada e de famílias completas curtindo o show – isso me chamou bastante a atenção. Vi senhores de 70 anos e muitas crianças na plateia. Definitivamente o Kiss e o Iron Maiden são os 2 representantes do rock que mais atraem diferentes gerações pros shows.
Não acho que valha a pena escrever muito sobre o Alter Bridge. Na minha humilde opinião, foi um erro trazê-los para abrir um show tão importante do Iron, celebrando 50 anos. Por que não trazer uma das bandas que influenciaram a banda, como Deep Purple, ou mesmo celebrar uma banda brasileira como o Angra? É tudo muito protocolar, baseado no negócio e na praticidade. A cada momento vejo que a música e a arte são secundários nas decisões. Vi umas 2 ou 3 pessoas com camisas do Alter Bridge, num mar de 50 mil fãs, então me parece um termômetro interessante.

A turnê “Run for Your Lives” tem um argumento irresistível: revisitar os primeiros capítulos de uma trajetória que ajudou a definir a linguagem do heavy metal, especialmente da NWOBHM. Mas o interesse de uma celebração assim está nas escolhas. Os sucessos garantem o reconhecimento imediato; as músicas recuperadas revelam quanto ainda existe para explorar dentro de um repertório absolutamente clássico.
“Murders in the Rue Morgue”, “Wrathchild” e “Killers” abriram uma passagem para o Maiden da era Paul Di’Anno, quando a urgência das ruas ainda atravessava suas ambições mais elaboradas. Ao vivo, esse material apareceu com menos velocidade do que sua memória sugere. O repertório trazia a eletricidade da juventude; a execução tinha outro peso, outra respiração.
É nesse intervalo que se instala a discussão sobre Simon Dawson. O substituto de Nicko McBrain oferece sustentação, mas a bateria perdeu parte da personalidade que fazia das viradas um acontecimento dentro de cada canção. Atribuir a ele toda a responsabilidade pelos andamentos, porém, seria transformar uma escolha coletiva em julgamento individual. Dawson integra uma engrenagem comandada por músicos que conhecem profundamente o próprio funcionamento. Independentemente dele ser um músico contratado e que chegou na banda na sua fase final, acho que faltou punch, assinatura.
Steve Harris continua sendo seu centro de gravidade. O baixo conduz, pressiona e dá direção. É o chefe, o motor principal da nave. Ao redor dele, Dave Murray, Adrian Smith e Janick Gers mantêm a combinação de melodias entrelaçadas e temperamentos distintos que permite reconhecer o grupo em poucos compassos.
Bruce Dickinson precisou de algum tempo para encontrar sua melhor voz. O domínio do palco já estava presente. Conforme a apresentação avançava por “Phantom of the Opera” e “The Number of the Beast”, a distância entre intenção e execução diminuía. Seu grande recurso continua sendo a capacidade de transformar uma composição conhecida em ação dramática: há sempre alguém prestes a lutar, escapar, enlouquecer ou enfrentar a morte.
A recuperação de “Infinite Dreams” deu à comemoração um de seus melhores motivos para existir. Uma retrospectiva ganha valor quando devolve ao palco músicas que a própria banda deixou tempo demais em silêncio. Ali, a familiaridade do disco convivia com a novidade de finalmente ouvir aquela construção diante de uma multidão.
Os épicos ampliaram essa experiência. “Rime of the Ancient Mariner” e “Seventh Son of a Seventh Son” exigem atenção às transições, às pausas e também ao lado mais progressivo Reservar tanto espaço para essas peças, num espetáculo de estádio, ainda diz bastante sobre a confiança do Maiden em seu público devoto.
O conteúdo virtual dessa tour trouxe uma mudança significativa à cenografia. Em “Powerslave” e em “Rime Of The Ancient Mariner”, as imagens ajudaram a estabelecer uma atmosfera diferente, ampliada, principalmente nos momentos de solo e mais progressivos, quando Bruce sai de cena e ressurge virtualmente, sendo perseguido por fantasmas e em outras interações com personagens do universo lúdico da banda. O desafio dessa modernização é acompanhar uma banda cuja identidade visual já estava gravada na memória dos fãs, sendo desenvolvida desde a capa de seu primeiro álbum, “Iron Maiden”, pelo genial ilustrador Derek Riggs.
A sequência final concentrou o poder de comunicação desse repertório. “The Trooper”, “Hallowed Be Thy Name” e “Aces High” combinaram movimento, tensão e espetáculo. Em “Fear of the Dark”, o público assumiu uma parcela decisiva da interpretação, como tradicionalmente acontece desde a tour de 1992 – que inclusive passou pelo Brasil, na época.

Coube a “Wasted Years” encerrar a noite. Interessante perceber que a canção de Adrian Smith foi, na época do álbum “Somewhere in Time”, um grande salto criativo, e uma surpresa para os fãs. Muitos torceram o nariz, mas a maioria entendeu que ali a banda buscava se reinventar com a adição de teclados, guitarras sintetizadas e composições mais acessíveis como essa. Interessante que apesar dos tropeços de alguns momentos da carreira, o Iron Maiden soube trilhar uma carreira brilhante nesses 50 anos, e foi lindo revê-los no palco felizes, cheios de energia e entregando um grande espetáculo.
News · 🟥Mosh Live 🟥











