Por Emerson Mello
No último dia 25 de dezembro a Donzela de Ferro completou 50 anos da sua existência, nada melhor que rever essa trajetória de sucesso que se funde com a própria história do Heavy Metal.
25/12/1975. Data enigmática escolhida pelo Boss Steve Harris pra batizar o nascimento do Iron Maiden. Nascido Stephen Percy Harris, ele é uma das mais icônicas figuras do Rock mundial, um dos responsáveis pelo sucesso do Iron Maiden, o Iron, como dizemos carinhosamente aqui no Brasil. Obviamente que a banda deve este sucesso a muitos outros membros que passaram pela banda, mas o foco e a determinação de Steve Harris nos primórdios da carreira, foram essenciais pra banda chegar onde chegou. Oriundo de Leytonstone, na região leste de Londres, Steve Harris nasceu no quarto dos fundos da casa da sua avó. Fanático por futebol e torcedor confesso do clube de futebol West Ham, ele queria ser jogador profissional de futebol, mas na adolescência o Rock começou a ganhar espaço na sua vida, em grande parte por conta do Beatles. Estudando arquitetura na antiga Leyton Senior High School for Boys (agora Leyton Sixth Form College), ele decidiu tocar bateria, mas como não tinha espaço em casa para o instrumento, resolveu mudar pro baixo, ainda assim sua escolha estava dentro da seção rítmica. Totalmente autodidata, seu primeiro baixo custou 40 libras e era uma cópia barata do Fender Precision. Nesta época, num quarto do subúrbio londrino, ele nem imaginaria que um dia teria um modelo da marca original com seu nome. Atualmente no Brasil o preço mínimo deste modelo pode variar entre 12 a 15 mil reais. Nada mau pra quem começou num instrumento de 40 libras…
Apenas 10 meses após comprar seu primeiro baixo, ele já integrava sua primeira banda, o Gypsy’s Kiss, onde realizaram diversos shows num pub chamado Cart and Horses, mas a banda não durou muito e Steve fez uma audição para a banda Smiler. Lá começou a escrever algumas músicas, que futuramente fariam parte do repertório inicial Iron Maiden. Diante da recusa dos membros do Smiler em tocar seu material, pois achavam muito complexo, ele decidiu sair e montar um novo projeto, então no Natal de 1975 nasce o Iron Maiden. O nome foi inspirado no filme americano The Man in the Iron Mask de 1939, filme inspirado no romance O Visconde de Bragelonne de Alexandre Dumas, que por sua vez é baseado na lenda francesa do Homem da Máscara de Ferro. O ‘Homem da Máscara de Ferro’ era um prisioneiro não identificado durante o reinado de Luís XIV da França (1643-1715), e ficou preso por 34 anos por razões desconhecidas e permaneceu encarcerado até sua morte. A donzela de ferro (instrumento medieval de tortura) aparece nesta adaptação cinematográfica de “O Homem da Máscara de Ferro”. Pra esta nova empreitada Steve Harris contava com o vocalista Paul Day, Dave Sullivan e Terry Rance nas guitarras e o baterista Ron Matthews. Esta foi a primeira formação da banda e fizeram seu primeiro show no dia primeiro de maio de 1976, num local chamado St Nicks Hall (Poplar), um pequeno salão paroquial no leste de Londres. A banda não voltou a se apresentar ali, mas ficou marcado como sendo o local da primeira apresentação da bandapois . Esta formação não durou muito, e Paul Day foi substituído por Dennis Wilcock. Steve Harris o achava sem carisma e sem domínio de palco. Anos mais tarde Day alegou ser coautor da canção Strange World, um dos clássicos da fase inicial da banda e gravada no primeiro álbum. Wilcock já tinha tocado com Steve Harris no Smiler, e utilizava alguns efeitos especiais como sangue, pirotecnias, e pinturas no rosto (talvez se inspirando em Peter Gabriel do Genesis ou no Kiss, de quem também ele era fã). Pra cantar a música Prowler ele usava uma máscara, o que segundo alguns relatos, foi o que inspirou a criação da mascote Eddie. Wilcock foi quem trouxe Dave Murray pra banda, ocasionando a saída da dupla Sullivan e Rance. Pra segundo guitarra foi chamado Bob Sawyer, mas por conta de desentendimentos com Murray, acabou sobrando pra Murray, que foi demitido da banda e se juntou ao Urchin, banda do seu amigo de escola Adrian Smith. Sem uma segunda guitarra, chamaram o tecladista Tony Moore, mas não gostaram da dinâmica da banda com teclado. Obviamente devido as referências musicais de Steve neste início serem bandas como Wishbone Ash e Thin Lizzy, bandas que utilizavam fortemente o recurso de twin guitars, o teclado não daria a sonoridade buscada por ele. Neste período também ocorreu a troca de baterista e temos a chegada de Thunderstick (Barry Graham). O fato é que após a briga com Murray, Sawyer arrumou outras confusões o que também causou sua saída da banda e pro seu lugar chega Terry Wapram. Ainda com apenas um guitarrista, Steve Harris decide ir a um ensaio do Urchin pra chamar Murray de volta, e o convite foi aceite de imediato, o que por sua vez causou ciúmes em Wapram, que saiu da banda (que deve se arrepender amargamente desta decisão!). Como quarteto as coisas não estavam funcionando e fizeram um show desastroso em Bridgehouse com o baterista Thunderstick errando muito, o que causou desânimo em Wilcock, que começou a espalhar que iria sair da banda. No show seguinte ele não comunicou ninguém da banda que não iria e simplesmente não apareceu. Steve foi atrás dele, mas ele se recusou a fazer o show, e então pela primeira vez, em abril de 1978, a banda tocou como trio: Harris/Murray/ Thunderstick. Após este show, Steve demite Thunderstick e chama Doug Sampson para o posto. Voltando no contexto da época, Wilcock era um membro bem importante e ativo dentro da banda, desempenhando funções importantes e tomando decisões junto a Steve Harris. Foi ele que inspirou a criação da mascote Eddie e quem trouxe Dave Murray pra banda, então a saída dele foi um baque pra banda, que ficou seis meses procurando um vocalista, até que conseguem chegar até Paul Di’anno. Di’anno tinha claramente suas referências musicais oriundas do Punk Rock de bandas como Ramones, Sex Pistols, e The Clash, contrastante com as referências de Steve, que eram calcadas em bandas Classic Rock como UFO, Wishbone Ash, Thin Lizzy e até mesmo Progressivas, como Genesis e Jethro Tull. A consequência disso foi que as músicas se tornarem mais rápidas e diretas. Com esta formação tocaram intensamente no circuito de pub inglês no ano de 1978 e em dezembro deste ano entram em estúdio para seu primeiro registro, a famosa The Soundhouse Tapes. Gravada nos dias 30 e 31 de dezembro de 1978 e lançada em 9 de novembro de 1979, a demo continua três músicas: Iron Maiden, Invasion e Prowler e foram distribuídas 5 mil cópias, que se esgotaram em algumas semanas, sem dúvidas um feito notável! Steve Harris já declarou que eles não tinham uma expectativa assim tão alta, mas que acredita que a boa receptividade se deveu ao fato de que a maior parte da gravação aconteceu no primeiro take, mantendo o frescor e atitude das músicas. Eram músicas que eles já estavam tocando bastante ao vivo, os arranjos já estavam bem definidos pela banda, então estavam bem preparados. Isto acabou chamando atenção da poderosa EMI, que fechou um contrato de gravação para um álbum completo (o relacionamento entre EMI e Iron Maiden se manteve até 2013). Pra gravação do primeiro álbum chega mais um guitarrista, o Dennis Stratton. Murray tinha tentando trazer seu amigo Adrian Smith, mas ele estava focado em sua própria banda, o Urchin, e recusou a proposta. Stratton por sua vez trouxe o seu amigo Clive Burr pra bateria, já que Sampson passava por alguns problemas de saúde e não poderia participar da gravação. Com a formação Paul Di’anno (voz), Dave Murray e Dennis Stratton nas guitarras, Steve Harris e Clive Burr o Iron registrou seu primeiro disco completo, sendo lançado em 14 de abril de 1980. Não é segredo o descontentamento de Steve Harris com a produção deste álbum, devido a fatores diversos, inclusive os próprios produtores. Will Malone, que foi o produtor que gravou o álbum, foi o terceiro, chegou depois da banda demitir os dois primeiros, sendo que um deles, Andy Scott, insistia para que Steve tocasse com palhetas(heresia!). Independente destas questões, a força e a energia das músicas e a garra da banda superaram todas estas dificuldades técnicas e o álbum foi um sucesso, alcançando um honroso quarto lugar nas paradas britânicas e ainda um décimo lugar nas paradas francesas. Esta boa receptividade colocou a banda nos circuitos dos grandes shows, abrindo para o Kiss na perna europeia da turnê Unmasked, abrindo para o Judas e também tocando com o UFO no Reading Festival.
Na parte gráfica a banda também começava a dar vida a uma de suas marcas registradas, que seria a mascote Eddie. Inspirada na máscara usada por Dennis Wilcock na música Prowler, o cenógrafo Dave Beasly, que gostava de usar sucata em seus trabalhos, lançou mão de uma ideia muito simples: se utilizou de uma peça que havia sido construída por um aluno de uma escola de arte e a fixou em suporte metálico, fazendo com que ela parecesse animada, usando luzes e sangue falso, bombeado através dos orifícios. O nome Eddie veio de uma derivativo de ‘head'(cabeça) que na pronúncia londrina ficava inaudível e soava como ‘ead’. Aos poucos a aparência do Eddie foi sendo desenvolvida e no single Running Free, Derek Riggs o caracterizou como uma espécie de zumbi, um morto vivo. Com o sucesso ele acabou virando a capa do primeiro álbum da banda, e a partir daí, Eddie acabou ganhando personalidade própria, estando presentes em todas as capas da banda, singles, camisas, e na comunicação visual da banda em geral.
Finalizando a turnê com o Kiss, Steve demitiu Dennis Stratton, principalmente por questões musicais. Steve dizia que ele não tinha o estilo do que a banda precisava. Com a vaga do segundo guitarrista aberta, quem tentou entrar pra banda foi o guitarrista Phill Collen, do Def Leppard. Ele conhecia todos os caras da banda, e estudou com Di’anno, sendo que eles se conheciam desde os seis anos de idade. Mas Murray estava trabalhando pra trazer seu amigo Adrian Smith, que na outra oportunidade recusou, mas agora com o Urchin sem muitas perspectivas e o Iron Maiden decolando decidiu aceitar. Na minha opinião, junto a entrada de Bruce Dickinson mais a frente, este movimento foi um dos mais importantes na carreira da banda. Adrian era melódico e com um alto senso de harmonia e contrastava com o estilo rápido e agressivo de Murray, gerando uma fusão perfeita entre agressivo e melódico. E agora, não existia essa de guitarrista solo e guitarra base, os dois desempenhavam ambos os papéis alternadamente, gerando uma dinâmica muito mais interessante, e elevando o conceito de twin guitars de bandas como Wishbone Ash e Thin Lizzy a outro nível. Sem contar, que Adrian é um grande compositor, o que ajudou a descentralizar este papel das mãos de Steve. Sem desmerecer Downing/Tipton, Marsden/Moody, Powell/Turner, Gorham/Robertson, mas pra mim a melhor dupla de guitarra de todos os tempos é sem dúvida Murray/Smith. Ainda temos Clive Burr, dono de um estilo pulsante, vigoroso e criativo, fazendo uma cozinha virtuosa junto a Steve, somado à Paul Di’anno, com sua voz agressiva e marcante e excelente carisma, o jogo estava ganho pro Iron. Com a chegada de Adrian chegou também o segundo álbum Killers. Agora com produção do mago Martin Birch, a esta altura já renomado por ter produzido álbuns como Machine Head do Deep Purple, Rising do Rainbow, dentre outros clássicos. Com um som mais encorpado e mais pesado, temos claramente um salto de qualidade em Killers. É nítida a evolução no trampo das guitarras, tanto em timbres, como nos arranjos e nos solos, com a dupla Murray/Smith totalmente integrada, soando como um só guitarrista. A cozinha soa ainda mais coesa e poderosa com levadas icônicas como Wrathchild e a desafiadora Genghis Khan. Músicas como a própria Wrathchild, Purgatory, a música título Killers, mostram a banda no seu estilo rápido e agressivo, mas música como Murders in the Rue Morgue e a bela balada Prodigal Son, já mostram que a banda pode ter o melhor de dois mundos: agressivo e melódico. Com Killers a banda ganhou a terra do sol nascente, e a japoneizada parece amar a banda o que rendeu a gravação do ao vivo Made in Japan. Tudo parecia de vento em popa, mas….uma mudança crucial estava por vir: a demissão de Paul Di’anno. Sob a alegação de que ele estava abusando de álcool e drogas e deixando o profissionalismo de lado, ele foi demitido, o que deixou uma rusga enorme entre ele e a banda.

O vocalista Dennis Wilcock foi muito importante na história da banda, sendo que ele inspirou a criação da mascote Eddie.
Samson chegou a abrir alguns shows pro Iron Maiden, o que despertou atenção de ambos os lados. À época Bruce tinha o apelido de Bruce Air Siren (Bruce sirene aérea) tamanha a potencial do seu vocal e já tinha despertado a atenção de Steve Harris. Por outro lado, Bruce ao ver o Iron Maiden no palco pensou que eles deveriam ter outro vocalista, mais versátil e mais teatral. Bem, capricho ou não do destino, foi o que aconteceu, o casamento perfeito. É inegável que Di’Anno foi muito importante pra banda, sua contribuição foi de extrema importância para a banda chegar naquele patamar até aquele momento, mas inegável também que a entrada de Bruce Dickinson foi uma guinada de 180º e elevou a banda a um patamar de ícone do Metal. Bruce foi vaiado nos primeiros shows, muito provável que os fãs ainda não tinham entendido que estavam diante de novo capítulo na história do Metal: com a entrada de Bruce no Iron Maiden, nem a banda e nem o Metal seriam os mesmos. A estreia não poderia ser melhor, com o clássico The Number of the Beast, considerado por muitos, não só o melhor álbum da banda, mas sim um dos maiores álbuns de Metal de todos os tempos, constantemente presente nas famosas listas ‘best of’ do estilo. O álbum foi um sucesso estrondoso, com um primeiro lugar nas paradas britânicas, terceiro na Áustria, quarto na França, quinto na Finlândia e sucesso ao redor do mundo, seja até hoje o disco de maior vendagem da banda. Com o sucesso também vieram as polêmicas, as acusações de satanismo por conta da capa. Se devido à figura do Eddie já despertar reações dos mais conservadores, a capa rendeu a banda este título de satanista. No álbum seguinte, Piece of Mind, mais uma mudança, desta vez a saída do baterista Clive Burr. Clive é dono de um estilo, único, vigoroso, agressivo e criativo, inclusive os riffs de bateria mais marcantes da banda são de autoria dele, Run to the Hills, Gangland, Prisoner pra citar alguns. Mas na gravação de Killers já havia tido muito embate entre ele e Steve Harris, que alegava que ele acelerava demais o andamento das músicas. Somado isso ao abuso de álcool nas turnês, o que por vezes comprometia sua performance, foram questões que foram se acumulando ao longo do tempo. Com o falecimento do pai de Clive em plena turnê do The Number of the Beast, a banda não queria (e não podia) parar e foi providenciado um substituto. Nicko McBrain então chega, com uma certa experiência, já que havia tocado com o guitarrista Pat Travers. Com um estilo mais técnico e mais preciso, Steve Harris viu em Nicko o que precisava pra sua cozinha, um andamento estável como um relógio suíço, a conexão foi imediata. Assim sendo, o futuro de Clive estava traçado, e coube ao empresário Rod Smallwood dar a difícil notícia. Piece of Mind é um álbum super consistente, solidificando uma parceira de composição de sucesso que é a dupla Dickinson/Smith, responsável por diversos clássicos na carreira da banda, dentre eles Flight of the Icarus.
A roda não pode parar de girar e o Iron Madien é uma máquina a todo vapor e em plena ascensão. Na sequência o mundo ganha o álbum Powerslave, considerado por muitos, (inclusive por este que vos escreve), como o melhor trabalho da banda. Pela primeira vez desde o álbum de estreia, a banda consegue repetir a mesma formação, considerada pelos fãs como a formação clássica: Dickinson, Murray, Smith, Harris e Nicko McBrain. O álbum foi um sucesso e extrapolou as fronteiras e a banda fez uma das maiores turnês de todos os tempos, a famosa World Slavery Tour, com nada mais nada menos do que 189 shows, passando por países nunca antes visitados, inclusive na cortina de ferro do leste europeu como Polônia e com a antológica passagem pelo Rock in Rio em janeiro de 1985. A turnê se iniciou no dia 9 de agosto de 1984 em Warsaw na Polônia e se encerrou em Irvine Califórnia na data de 5 de julho de 1985. Desta turnê saiu o clássico álbum ao vivo Life After Death, considerado um dos maiores álbuns ao vivo de todos os tempos, capturado de quatro noites na Long Beach Arena em Los Angeles, nas datas de 14,15,16 e 17 de março de 1985. Àquela altura Iron Maiden era o topo máximo do Metal, sinônimo do estilo, o mundo inteiro queria a banda. Ao mesmo tempo que isto fez a banda crescer estrondosamente, por outro lado gerou um desgaste interno que poderia ter dado fim a banda, com um número exaustivo de shows, muitas datas sem intervalo e sem folgas, o que obviamente gera um desgaste físico e emocional muito grande. Após a turnê a banda tira longas férias e volta em janeiro de 1986 para o novo álbum. A banda volta com ideias frescas e renovadas, e com o conceito de guitarras sintetizadas, que dá um molho diferente na receita do Iron, sem perder sua característica. Somewhere in Time traz 8 temas muito sólidos, com a banda tocando magnificamente bem, onde destaco a performance vocal de Bruce Dickinson e o primor do trabalho de guitarras, principalmente nos solos, que estão mais maduros, mais melódicos e muito bem construídos. Paradoxalmente Bruce não contribuiu com nenhuma composição para este álbum, alegando que não estava atravessando um bom momento na época, o que refletiu nas suas composições. Muitos fãs consideram esta capa a melhor, com Derek Riggs se inspirando no universo futurista de Blade Runner, com muitos detalhes e com referências a várias passagens da banda, como o pub Ruskin Arms (pub onde a banda se apresentou no início de carreira) e outras referências. No álbum seguinte, Seventh Son of a Seventh Son, Bruce Dickinson retorna à atividade nas composições trazendo muitas ideias, inclusive do tema que gerou o conceito do álbum. É um álbum muito diferenciado na carreira da banda, sendo ele o mais técnico e refinado, com muita melodia e a banda tocando com extremo bom gosto.
Tudo ia bem até que…Adrian Smith anuncia sua saída. Os motivos foram vários, clássica divergência musical, após o refinado e pomposo Seventh Son, a banda queria fazer algo mais cru e direto e ele queria seguir outro caminho, e a questão de turnês longas pesou também. Apesar de muitos não falarem, na minha opinião a saída de Adrian mexeu muito na estrutura musical da banda. Murray e Smith eram amigos e tocavam praticamente 10 anos juntos. O estilo musical deles se completavam, um agressivo e outro melódico, trazendo um equilíbrio perfeito à sonoridade da banda. Isso somado a que Adrian se tornou um dos principais compositores da banda e fazia uma dupla de composição muito forte com Bruce Dickinson, e é de autoria dele um dos clássicos da banda Wasted Years. Pro seu lugar a banda traz Janick Gers, que já havia tocado com Ian Gillan e tocou com Bruce no álbum Tattooed Millionaire. Com Janick a banda apresenta o No Prayer For the Dying, um álbum que tem uma recepção morna tanto pelos fãs quanto pela crítica. Longe de ser um álbum ruim, No Prayer foi melhor absorvido com o passar dos anos, e apesar de ter excelentes momentos como Tailgunner que abre o álbum, a música título, Fates Warning, Run Silent Run Deep (uma boa música a despeito de Bruce odiá-la) e a épica Mother Russia, o álbum careceu de maior consistência, tanto em produção, performance da banda e na parte de composição. Este impacto foi sentido na turnê com a banda perdendo relevância no cenário. Sentindo o golpe a banda sabia que tinha que virar o jogo, e se esmerou pra isso no álbum seguinte. Com a ideia do tema central em Fear of the Dark, a primeira polêmica do álbum foi o embate com Derek Riggs. A banda não ficou satisfeita com nenhuma das ideias apresentadas por ele e ele por sua vez ficou de saco cheio da pressão e jogou a toalha. Então pela primeira vez desde o primeiro álbum, temos um outro artista cuidando da arte gráfica, o inglês Melvyn Grant. E funcionou. Grant trouxe um Eddie mais assustador, remetendo ao Eddie do início de carreira da banda e combinou perfeitamente com o conceito da música título. Comercialmente o álbum foi muito bem, encabeçado pela rápida e direta Be Quick or be Dead, a balada Wasting Love, que entraria no álbum solo de Bruce Tattooed Milionaire e veio para no disco do Iron, e a música título, música que entrou definitivamente no repertório da Donzela. Com Fear of the Dark, a banda resgatou o respeito e mostrou que ainda tinha relevância no cenário, nos difíceis anos 90 foram para as bandas mais tradicionais. E mais uma vez temos o capricho do destino, após o alívio dos fãs com o bom álbum ,veio a bomba que ninguém esperava: em 1993, após a turnê do Fear of the Dark, Bruce Dickinson anuncia sua saída do Iron Maiden…
Me lembro perfeitamente que minha reação quando recebi a notícia foi um sentimento de orfandade, e acho que isto foi sentido e compartilhado por todos os fãs na época. Como assim o casamento perfeito se desfazendo? Sentimento de angústia e aflição tomaram conta de todos os fãs, ‘agora nos resta aguardar o destino e ver o que ele nos reserva’, era o pensamento mais comum à época. A banda anuncia um concurso mundial pra audições de substituição de Bruce. Segundo informações da época, nosso André Matos se sagrou como um dos 12 finalistas da audição. Todos eles passaram por uma bateria de mais de mil demos enviadas pra banda. Curiosamente e paradoxalmente, Bruce em carreira solo chegou a cantar Flight of Icarus junto com o André Matos, num show do Angra em 1999 na França. Aumentando o filtro da peneira, segundo consta nos bastidores, os três finalistas foram Doug White (Rainbow/Malmsteen/Michael Schenker), Damian Wilson (Threshold) e obviamente Blaze Bayle, o cara que ficou com a vaga. Blaze veio do Wolfsbane, banda que chegou a abrir pro Iron Maiden, e despertou a atenção de Steve Harris. A passagem de Blaze pela banda foi marcada por muitas críticas, dividindo os fãs da banda. A banda decidiu seguir em frente com o novo vocalista, então em agosto de 1995 entram em estúdio pra gravar o X-Factor, décimo álbum da banda. Lançado em 2 de outubro de 1995 o álbum traz um Iron Maiden diferente, mais sombrio, mais ‘dark’, sem os característicos vocais agudos, sendo a característica de Blaze trabalhar sua voz numa região mais grave, o que causou estranheza em alguns fãs. Outra mudança na sonoridade foram as introduções mais lentas e mais longas que a banda adotaria dali pra frente. A capa foi criada por Hugh Syme, famoso pelas capas do Rush, sendo ele o terceiro artista gráfico a desenhar o Eddie. Outra novidade foi a chegada do produtor Nigel Green, após anos trabalhando com Martin Birch, pela primeira vez a banda trabalha com um produtor diferente, já que Martin havia anunciado sua aposentadoria. Puxada pelas músicas Man on the Edge e Sign of the Cross o álbum alcança um segundo lugar na Finlândia (sendo o single Man on the Edge primeiro lugar nestas paradas), um quarto lugar na Suécia e um oitavo lugar no Reino Unido e Bélgica, o que impulsionou a turnê que durou um ano e teve 130 datas, passando em três cidades no Brasil (Curitiba, São Paulo e Rio), sendo uma delas no Monsters of Rock como headliner no dia 24 de agosto de 1996. Como de praxe quando lança álbum novos, a banda deu bastante espaço para as músicas novas no setlist, mas a ausência de Run to the Hills no repertório, causou surpresa. No final do ano de 1997 a banda volta ao estúdio pra produzir o sucessor de X-Factor e no dia 23 de março de 1998 é lançado o Virtual XI, uma referência a ser o décimo-primeiro álbum da banda. Nigel Green continua na produção e o artista gráfico Melvyn Grant, que fez a capa de Fear of the Dark, é chamado de volta. No conceito gráfico, a banda juntou duas ideias: uma do jogo Ed Hunter que estava sendo lançado e como era ano de Copa do Mundo, Steve Harris quis fazer uma alusão ao futebol. Comercialmente o álbum não foi bem, com muitas críticas dos fãs, sendo o álbum de estúdio com o pior desempenho comercial da história da banda, o que refletiu também no desempenho da turnê, tendo um dos fatos marcantes a apresentação da banda no Metropolitan (Rio de Janeiro) no dia 02 de dezembro de 1998, num show com baixa adesão do público, onde a banda não retornou pro bis, fato raríssimo na carreira da banda. Steve Harris já declarou que neste show se questionou se Blaze era a pessoa certa pra assumir este papel na banda. Somado ainda ao desgaste de relacionamento entre Blaze e a banda que vinha aumentando, ao ponto de irem em vans separadas para o show. Após o encerramento da turnê, com a última data em Buenos Aires no dia 12 de dezembro de 1998, fez com que a banda desse uma pausa, o que permitiu a Steve Harris e o empresário Rod Smallwood avaliarem os próximos passos. Então no ano de 1999 é feito o anúncio do retorno de Bruce Dickinson ao Iron Maiden. O novo contrato dava liberdade para Bruce continuar trabalhando em sua carreira solo. Outra condição seria que Adrian Smith também retornasse à banda, fazendo com que a banda se tornasse um sexteto, tendo pela primeira em sua história, uma formação com três guitarristas. A banda prometeu material novo, e todos pareciam empolgados, tanto banda quanto fãs e em abril de 2000 a banda entra em estúdio pra registrar seu décimo segundo álbum de estúdio, o Brave New World, título retirado da obra homônima do escritor britânico Aldous Huxley. No conceito gráfico a banda trabalhou pela primeira vez com dois artistas, marcando a volta de Derek Riggs, que fez o Eddie ‘nuvem’ na parte de cima e cidade futurista foi criada por Steve Stone. Outra novidade foi a chegada do renomado produtor Kevin Shirley, que já trabalhou com diversos nomes como Black Country Communion, Journey, Rush, Europe e outros. O disco foi bem recebido tanto pelos fãs quanto pela crítica e rendeu uma turnê bem sucedida, que inclusive passou pelo Brasil numa segunda apresentação histórica no Rock in Rio, na data de 19 de janeiro de 2001, que virou DVD oficial da banda. Neste retorno, o Iron Maiden que já era grande, se tornou gigante, agregando as gerações antigas e também novas, filhos e netos, num fenômeno impressionante e inexplicável que poucas bandas têm de conseguirem renovarem suas gerações, A banda também cresceu muito em merchadising, com diversos produtos associados a marca da banda e com o lançamento da cerveja The Trooper, encabeçado por Bruce Dickinson, que está sendo um sucesso de vendas. Outro grande feito da banda foi em 2008 na Somewhere Back in Time Tour em que foi fretado um Boeing 757, o Ed Force One, todo estilizado e pilotado por Bruce Dickinson, que voou 80.000 quilômetros ao redor do mundo em 45 dias. Este feito ganhou destaque na mídia global.
Após o lançamento de Brave New World a banda continuou firme produzindo e lançando álbuns, sendo eles: Dance of Death (2003), A Matter of Life and Death (2006), The Final Frontier (2010), The Book of Souls (2015) e o último de estúdio Senjutsu lançado em 2021. Infelizmente durante os anos tivemos a perda de músicos que fizeram parte da banda como Clive Burr, que sofria de escloróse múltipla e partiu em 12 de março de 2013. Paul Di’anno vinha enfrentando diversos problemas de saúde, chegando a ser realizado um crowfunding para arrecadar dinheiro para uma cirurgia no joelho, realizada em outubro de 2021. Após a cirurgia, mesmo de cadeira de rodas, voltou a se apresentar fazer turnês extensas, com poucas datas de intervalo. Infelizmente em outubro de 2024 teve uma parada cardíaca em sua casa em Salisbury e veio a falecer em outubro de 2024. Recentemente, no dia 29 de julho, Paul Day, o primeiro vocalista da banda faleceu, vítima de câncer. No final do ano de 2024 na turnê The Future Past Tour, tivemos a despedida de Nicko McBrain dos palcos, após mais de 40 anos comandando as baquetas da data. O último show dele com a banda aconteceu no dia 7 de dezembro de 2024 no Allianz Parque em São Paulo, numa despedida emocionante com o público gritando o nome de Nicko e ele visivelmente emocionado com a homenagem. Definitivamente fim de uma era, deste cara que se tornou marca registrada desta lenda viva do Metal Mundial. Como a roda não para, a banda anunciou o substituto das turnês, o baterista Simon Dawnson, que já está excursionando com a banda na nova turnê Run For Your Lives World Tour, que já tem data no Brasil, 25 e 27 de outubro de 2026, com compra de ingressos bem disputadas. Obviamente ninguém quer perder a oportunidade de ver de perto mais uma vez esta lenda viva do Metal Mundial, e como diz a música “Iron Maiden’s gonna get you/No matter how far”.
*Membros:
-Integrantes Atuais
Steve Harris
Dave Murray
Adrian Smith
Bruce Dickinson
Janick Gers
Simon Dawnson
Nicko McBrain*
*O músico ainda consta na foto oficial no site oficial da banda. A informação é que ele se despediu apenas das turnês, e continuará contribuindo com a banda nos bastidores e em estúdio.
-Ex-integrantes
Blaze Bayley
Bob Sawyer
Clive Burr (08/03/1956-12/03/2013)
Dave Sullivan
Dennis Stratton
Dennis Wilcock
Doug Sampson
Paul Cairns
Paul Day (19/04/1956-29/07/2025)
Paul Di’Anno (17/05/1958-21/10/2024)
Paul Todd
Ron Matthews
Terry Rance
Terry Wapram
Thunderstick (Barry Graham)
Tony Moore
Tony Parsons
*Discografia oficial (estúdio):
01.Iron Maiden (1980)
02.Killers (1981)
03.The Number of the Beast (1982)
04.Piece of Mind (1983)
05.Powerslave (1984)
06.Somewhere in Time (1986)
07.Seventh Son of a Seventh Son (1988)
08.No Prayer for the Dying (1990)
09.Fear of the Dark (1992)
10.The X Factor (1995)
11.Virtual XI (1998)
12.Brave New World (2000)
13.Dance of Death (2003)
14.A Matter of Life and Death (2006)
15.The Final Frontier (2010)
16.The Book of Souls (2015)
17.Senjutsu (2021)
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