29 Mar 2026, 5:57 pm

Mosh Live: DRI no Rio de Janeiro

Minissaia, Pavio, Ratos de Porão e DRI – Circo Voador, Lapa – RJ, 20-03-2026

Texto e fotos por: Marcelo Pereira de Souza

             Com mais uma produção espetacular da Tomarock (que incentivam e muito as bandas autorais do underground), tivemos nessa noite um pouco chuvosa de sexta-feira, um espetáculo calcado para os fãs de punk/hardcore, onde cerca de 1200 espectadores se esbaldaram com shows coesos, seguros e cheio de energia. Teve ainda a colaboração da DJ Tammy, capitaneando o som no ambiente antes e nos intervalos das mudanças no palco. Enfim, cada vez mais essa produtora ganha o respeito junto ao público do metal com suas escolhas gabaritadas e da nova geração. Vamos a aula de crossover!

Abrindo, veio a grata surpresa, a banda Minissaia, composta de 4 girls power, que agitam com um som de energia verdadeira da época do DIY (Do It Yourself). Oriunda de Volta Redonda (região sul fluminense do RJ e cerca de 2 horas da capital carioca) é formada por May Saturno no vocal, Leh Detoni na guitarra, Isa Lien no baixo e Carol Rodrigues na bateria. Elas prometem despertar a cena Riot Grrrl! Seu som é baseado no punk/hardcore, onde ganharam destaque no ano passado com um estilo sagaz, intenso e sarcástico, com o EP gravado (“Igual a Sua Mãe”) e LP (“Dark Dogma Embrace”). Elas agitam muito e a vocalista May tem um carisma especial no agito e sensualidade ao qual seu vocal propositadamente debochado e parecendo “desafinado”, dá a verdadeira mensagem de contra-partida do sistema como feito na primórdia época do MC5, Iggy Pop e outros que na primeira audição pode parecer estranho. As bandas nacionais estavam com seus stands de produtos à venda, onde elas pacientemente receberam um a um, tiraram fotos com a galera, deram autógrafos e trocaram ideias com os “novos fãs”, provando que talento e simpatia podem conviver eternamente com a humildade. Olho nelas!

Set List: ”Na estrada”, “Igual a sua mãe”, “Narcisista”, “Só se for gostosa”,”Desviada”,”Vão ter que escutar”,”6×1”,”Only girls”,”Hemorragia”,”Rua escura” e “Bracash(kittie cover)”.

A próxima atração, foi a banda Pavio (também conhecida como Pavio HC), outra banda carioca oriunda da dissolução de outras bandas, que fazem uma mistura de Punk e Thrash Metal com hardcore, onde a discografia inclui os álbuns “Sem Anistia” (2025) e “Execução Sumária” (2018), além de EPs marcantes como “Cidadão de Bem” (2022) e “O Jogo Vai Virar” (2019). Conhecidos pelo som agressivo e letras de protesto, a banda lançou também singles como “Estado Livre”. Pavio é uma banda de hardcore/metal, criada em 2018, com letras politizadas, riffs pesados, críticas ao sistema, racismo e injustiças como a maioria das bandas desse estilo e que causam bastante sintonia com as bandas deste show. Composta por Marcelo Prol (vocal), João Mugrabi (baixo), Cynthia Tsai (bateria) e Pedro Vieira (guitarra), a banda se destaca na cena underground. O vocalista está se recuperando de uma cirurgia no joelho e por conta disso não agitou muito (tinha até um banquinho no palco para ele), mas pareceu um time de futebol jogando com um a menos, onde todos se desdobraram, com destaque para a japinha sensacional que arrebentou nos tambores. Para quem não sabe, Cynthia é uma das representantes da Hit Hat Girls, coletivo nacional de mulheres bateristas onde ela ministra uma oficina de bateria para mulheres com o “know how” de mais de 25 anos de profissão incluindo experiências internacionais. Tocaram músicas do recente EP “Soberania Popular” e outras do repertório de forma sublime varrendo toda discografia com a energia já contagiante do público. Merecem uma atenção!

 

Set List: “Intro”,”Pavio”,”Servir e proteger”,”O jogo vai virar”,”Racista, você não é bem vindo aqui”,”Execução sumária”,”Grades do condomínio”,”Brinde à vida”,”Sem anistia”,”Capital da fé”,”Estado livre” e “Manifestos/reação”.

             Chegada a hora onde a energia emana no ápice de cada um, sim o Ratos de Porão, o carro chefe do show, visto que o complexo de vira-latas do brasileiro já passou faz tempo, pelo menos em relação as bandas brasileiras de cunho internacional. Como sabemos, Jão sofreu um acidente de moto e vai ficar de molho por pelo menos 6 meses e os “Ratones Del Sótano” recrutaram seu roadie Maurício para cobrir essa turnê com o D.R.I. Gordo puxando da perna já entra detonando e após a primeira música que teve pequenas falhas na guitarra de Maurício, informa que estava passando mal e vomitando sem parar, mas que a energia do público é o remédio dele e que já não sentia nada ao entrar no palco. A porradaria sonora, rodas, desdenho de algumas músicas de sucesso com desafino, agito do hardcore/crossover para o público se esbaldar, já é consagrado e de praxe da banda, que diferentemente de um som meio que calcado como do ACDC que parece ser igual, mas nunca enjoamos, o Ratos de Porão segue sua padronização sonora baseada no agito do hardcore/crossover que nunca enjoa e só fortalece mais a energia de agito do headbanger. Boka, cada vez mais preciso como um relógio suíço, dá suas porradas claras e nítidas em cada parte do seu instrumento, Juninho, com sua inseparável bandeira e camisa do MST, agita como um insano que contagia toda galera com seu baixo de notas galopantes, Maurício, tenta de toda maneira preencher o espaço do titular das seis cordas, onde algumas falhas iniciais já levou João Gordo a atravessar os olhos (mas foi culpa do cabo que ele imediatamente trocou antes da reclamação de seu líder), porém em nada comprometeu o show e ele teve excelente entrega. João Gordo, não precisamos falar que é um showman e sabe lidar e levar o público a loucura e delírios com seu agito e palavras de sarcasmo direto, seja de política ou qualquer assunto, inclusive aleatórios e de improviso, onde seus 62 anos de vida e alguns sustos faz da sua experiência uma bela representação em todos os sentidos. Quando tirando foto do Juninho, um cabeçudo cinquentão, subiu no palco para dar um mosh, e o imbecil pulou de frente, onde veio dar uma joelhada com força na minha nuca, que criou um galo na hora. Esse cara, nunca deve ter dado um mosh na vida e eu já presenciei nos meus quase 50 anos de rock, um cara que não fazia parte da patota dar um mosh de costas e a galera o deixar estabacar. Até hoje me dói a espinha em lembrar disso, pois o ele ficou estático por uns 30 segundos até se mexer meio que cambaleando. Não é Beber até Morrer, isso é a música. Alguns clássicos como “Paranóia Nuclear”, “Beber Até Morrer”, “Crucificados Pelo Sistema”, “Amazônia Nunca Mais”, ”Anarkophobia”. ”Plano Furado”, “Aids,Pop,Repressão”, “Mad Society” entre outras. Que seja eterna esta energia e perdure até nossos cabelos grisalhos e corpo permitirem agitar. Vida longa aos reis do crossover nacional!

Set List: “Morrer”, “Mad Society”, “Crianças Sem Futuro”, “Ascenção e Queda”, “Beber Até Morrer”, “Máquina Militar”, “Guerrear”, “Políticos Em Nome Do Povo”, “Caos”, “Sofrer”, “Crucificados Pelo Sistema”, “Vida Animal”, “Plano Furado”, “Plano Furado II”, “Anarkophobia”, “Aids, Pop, Repressão”, “Realidades Da Guerra”, “Work For Never (cover do Extreme Noise Terror), “Velhus Decreptus”, “Sentir Ódio e Nada Mais”, “Igreja Universal”, “Herança”, “Paranóia Nuclear”, “Crise Geral”, “Conflito Violento”, “Crocodila”, “Supusicollor” e “Amazônia Nunca Mais”.

Se podemos chamar de cereja do bolo, com recheio de doce de leite, é claro, tivemos o D.R.I (Dirty Rotten Imbeciles) fechando essa noite maravilhosa. Os americanos do Texas, um dos pais do crossover, são compostos por Spike Cassidy (guitarra), Kurt Bretch (vocal), ambos únicos remanescentes da formação original desde a criação da banda em 1982, Greg Orr (baixo) e Danny Walker (bateria). Gregg já tocou com uma das pioneiras da mistura de thrash metal com hardcore, obviamente também no estilo crossover, a californiana “Attitude Adjustment” e Danny teve passagens principalmente com o Exhumed.

Como sabemos, a banda não lança álbum inédito desde “Full Speed Ahead” de 1995, porém alguns EP´s como “The Dirty Rotten Power” de 2001, “But Wait…There´s More!” de 2016 e outros EP´s, coletânea e álbum ao vivo. Então com seus mais de 40 anos de vida, vamos de clássicos. Deparei com um jovem de no máximo 18 anos, vestido a caráter de bermuda, meia e tênis como um skatista alternativo, gravatinha borboleta vermelha e um terno na mão esquerda, parecendo estar meio fora do contexto, onde o indaguei e inteligentemente me perguntou: Se você tem uns ídolos e uma determinada preferência por uma música deles, você procura algo ligado a ela. Saquei a do garoto: a música “Suit and Tie Guy”. Achei muito inteligente e principalmente da juventude rocker estar antenada de como o povo americano lida com o entretenimento e cá entre nós, digo que essa influência ganhou muito apreço graças a bandas como o Green Day. Sem novidades e tendo o ápice do agito com a banda anterior, não houve aquele “bubble-gum” de ser um headliner para o público dar todo gás e se esbaldar de dançar, agitar, ir pra roda, poguear, moshear e outros adjetivos aportuguesados que quisermos inventar para se divertir num show deste porte.

Houve um pequeno atraso por parte do profissionalismo do Spike em colocar o timbre e volume com o melhor possível entrosamento com o baixo do barbudo Greg (ops, Spike também é barbudão), mas nada que cansasse o público que interagia na realidade com o som do trio, visto que Kurt só entrou na hora do espetáculo. No geral, um belo espetáculo deles e de todas as bandas anteriores, com agitos bem curtidos pelo público nos clássicos “Who Am I?”, “The Five Year Plan”, “Suit And The Guy”, a grandiosa “Beneath The Wheel”, “Thrashard”, “Violente Pacification” e tantos outros que deixaram valer cada centavo de quem pagou por um verdadeiro espetáculo!

Curiosidade: entre tantos baixista que a banda teve, tivemos o baixista Harold Oimoen, que tocou de 1999 à 2017 e foi um fotógrafo muito influente no início do Thrash Metal da Bay Area, onde documentou bandas importantes antes da fama e seu trabalho fotográfico apareceu em álbuns clássicos de Metallica, Possessed e Exodus. Assinava como Harold O.

Set List: “All For Nothing”, “Tear It Down”, “Who Am I”, “Beneath The Wheel”, “Thrashard”, “I´d Rather Be Sleeping”, “Argument Than War”, “Nursing Home Blues”, “Suit And Tie Guy”, “Mad Man”, “I Don’t Need Society”, “Yes Ma´am”, “Probation”, “Acid Rain”, “Abduction”, “Manifest Destiny” e “The Five Year Plan”.

Um especial agradecimento aos realizadores do espetáculo, Luciano&Tomarock, Tedesco Mídia, Maraty e Circo Voador&Renata Reis, pela eterna confiança, credibilidade e respeito com a mídia e público. Vocês são pule de dez!

 

 

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Postado em março 29th, 2026 @ 13:10 | 2 views



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