RDP, Sangria & Cervical @ Areninha Hermeto Pascoal, Bangu – 29.08.2026
Por Marcelo Pereira de Souza
Simplesmente Apocalíptico! Com a produção impecável da Be Magic, do incansável guerreiro, Luis Carlos Pires, os headbangers fortaleceram a cena com uma boa lotação de cerca de 600 pessoas, que se deliciaram com “stage dive” e “mosh”, com os “old school” e muitos jovens com seus trajes de rock, que curtiram os shows, numa verdadeira festa. As bandas de abertura fizeram todo aquecimento para o showzaço dos protagonistas que intimistas com o público, fez um dos melhores shows vistos por terra carioca.
Inicialmente, às 20h, após um pequeno vendaval, veio a banda Cervical (Macaé – RJ), que já atua há mais de 25 anos no cenário, com um som calcado numa mistura de hardcore, metal, crossover, mostrando um som pesado, agressivo e de uma pegada constantemente explosiva de forma a termos um motor que sempre está em giro alto. Não que esse motor vá se fundir, mas, para aturar essa pegada forte e intensa, somente com juventude e alguns “old school” naturalmente não têm esse pique e que precisam de umas “quebradas” do ritmo para dar uma refrescada no corpo. A rapaziada mais nova delirou com muitos “stage dive” e “mosh” com os riffs constantes, bateria violenta e vocais carregados de ódio ao sistema, mostrando a evolução da banda como um todo e que seguem afiados com a essência básica típica do hardcore raiz. A banda é composta pelo petroleiro Pascoal nos vocais, Andrei Ribeiro (guitarra), Vinicius Cabelo (baixo) e Junior Nascimento (bateria), com referência aos álbuns, singles, clipes e meios digitais para quem, porventura, ainda não conheça o trabalho deles, que com certeza merecem respeito e admiração. O show foi curto, mas intenso e que serviu de aperitivo para o que estava por vir. Teve uma roqueira que levou seu cão (que é surdo e teve autorização da produção e do local para adentrar no recinto) e que de vez em quando subia no palco como que participando da festa. Fiquei impressionado com a energia deles no palco e abismado com o pique e simpatia do vocalista que ao final do show fez questão de dar adesivos da banda para quem quisesse. Olho neles!
Set List: “Intro”, “Cinzas”, “Vencer”, “Remanejar a Vergonha”, “Fábrica”, ” O Ódio”, “Herança”, “Arquétipo”, “Nossa História” e “Veritas”.
Seguindo, veio a banda carioca Sangria, oriunda do local, Bangu, mas que conta com um integrante nordestino, mais precisamente de Pernambuco, que com certeza contribuiu para os moldes do som da banda. É um tipo de som que mescla ritmos nordestinos como Baião, hardcore, thrash e death metal, com uma excelente história cantada pelos “ídolos” do cangaço. É uma banda recente, fundada em janeiro de 2025, que canta em português sobre a história e o cotidiano e, que já promovem eventos na cena independente como o Sangria Fest. Formada pelo pernambucano Gabriel Hetfield nos vocais, Felipe Alberigues na guitarra, Tom Mendes no baixo e Fernando UIrubu na bateria, esse quarteto apesar de recente, mostra uma sonoridade ímpar, com lançamentos de singles e composição visual marcante, mostrando uma maturidade com letras da nossa cultura e cotidiano verídico. As partes da história de Lampião e do sucessor mais sanguinário, Corisco, leva qualquer um a querer estudar e saber do real movimento do cangaço, que parece uma história cantada de forma bem complexa pela sonoridade, que Gabriel consegue ser um “crooner” que domina de forma natural e humilde o cenário, inclusive deixando claro suas influências como RDP e Dorsal Atlântica. Em determinado momento com o público, brincou que o baixista era o mentor intelectual e “promoter” da banda, assim como em outra parte do show ocorreu um problema com a guitarra e disse que este era o dono da banda e só deixou ele entrar nela porque sabia tocar “triângulo”. O público agitou o tempo todo, inclusive os “velhinhos” pela porradaria com quebradas de ritmo e, a certeza que agradou o público e que merecem um lugar ao sol por serem verdadeiros, promissores e um pouco diferente da mesmice. Parabéns!

Set List: “Intro”, “Baile Perfumado”, “Sangria”, “Utopia”, “O Assombro do Sertão”, “Corisco, o Diabo Loiro”, “O Crente Cospe na Cruz” e “No Bico do Corvo”.
É impressionante o gigantismo de músicas onde não há set list impresso e fica tudo na mente dos músicos com todo instrumental afiado. O público como sempre invade o palco para “stage dive” e “mosh”, muitas vezes estragando o retorno do som vide entrelaçarem com os cabos das caixas de retorno, onde fica nítido o desconforto do Gordo quando acontece (juro que vejo a vontade dele dar uma bicuda no cabloco). É entendido por ele, pela banda e até pelo público, mas que subir no palco para isso e total diversão, tem sua certa responsabilidade, inclusive muitas meninas estão fazendo isso e se divertindo bastante, onde também há o respeito da galera com possibilidade de covardes apalpadas, que mesmo com grande parte do público bêbado, não existe essa covardia no meio do metal.

Como um grande fã de 62 anos, de muitos “old Scholl” presentes, além do jovial público e suas indumentárias do rock, mostrando que o rock é atemporal e rejuvenescedor, preferi tirar fotos da arquibancada ao me entreter no agito do público, pois estava lotado com pessoas foras da tenda, mostrando um sucesso mais do que merecido pelas bandas e principalmente pela incansável e resiliente produção, onde fiquei com a perna dobrada por não conseguir esticá-la, que acabou fazendo renascer meu problema de artrose nos joelhos que resultou na minha saída do recinto por três músicas antes do término.

O que posso dizer desse show emblemático é que foi simplesmente um dos melhores shows do RDP de todos os tempos nos palcos cariocas, se tornando de vez uma lenda, para num futuro próximo alguém ter a ideia de criar um Museu do Rock brasileiro como um museu de cera e que certamente o Ratos de Porão fará parte desta nova história. Simplesmente Atemporal!

O Set List misturou hinos clássicos como: “Aids, Pop, Repressão”, “Beber até Morrer”, “Crucificados Pelo Sistema”, “Plano Furado II”, “Igreja Universal”, “Supusicollor”, Crise Geral”, “Anarkophobia”, “Paranoia Nuclear”, “Ascenção e Queda” e outros hits com as faixas do último álbum “Necropolítica” de 2022.
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