23 Sep 2018, 10:36 am

Entrevista Com Father Karras


Fanzine Mosh conversou com exclusividade com o guitarrista e vocalista da banda de heavy metal Father Karras

Father Karras é uma banda da cidade de Sorocaba, interior de São Paulo, fundada no ano de 2010. Praticante de um heavy metal tradicional calcado em riffs e refrãos marcantes que remetem bastante à sonoridade típica de alguns dos grandes nomes do metal oitentista, a banda aborda em suas letras temas que vão da ufologia a críticas à religião, além de temáticas ligadas a filmes de terror.  Prestes a lançar um novo álbum, sucessor do EP “The First Exorcism” de 2011, e do CD “Prisoners Of The Flesh” de 2015, a banda passou recentemente por mudanças em sua formação, contando agora com David do Espírito Santo na bateria e Eric Emanuel Motta no baixo. Sobre todos estes assuntos e outros, Marcôs Giiliberti, guitarrista original e agora também vocalista da banda, tratou em entrevista concedida à Fanzine Mosh.

 

Por Henrique de Paula

Marcôs, como você descreveria o som da banda para quem não a conhece? Quais são as principais influências do Father Karras?

O Father Karras tem uma ideologia fundamentada no heavy metal, todos no grupo tem o mesmo gosto de bandas, como Accept, Running Wild, Judas Priest, Grave Digger, Megadeth, Saxon, bandas que nos causaram muito impacto e nos influenciaram muito. O som do Father Karras é um metal oitentista, tradicional, sem muitos solos extremos, mas com uma pegada marcante. Discutimos bastante sobre os timbres que utilizamos nos instrumentos, tanto na hora de gravar como na hora de tocar ao vivo, embora nem sempre consigamos cem por cento o que almejamos pelas condições ou pelo ambiente em que estamos. Eu, particularmente, gosto muito do timbre de guitarra do Dave Mustaine, que mescla bem os graves e os agudos.

Para quem ignora a referência, explique a origem do nome da banda.

Sempre falávamos de filmes de terror e em algum momento surgiu a referência ao Father Karras que é o padre Karras do filme “O Exorcista”. Não há nenhum significado original, mas há por trás também alguma ideia nossa sobre a Igreja Católica, o exorcismo e a questão da divisão entre o bem e o mal, sem querer, porém, fazer qualquer tipo de crítica. Pensamos em fazer as músicas colocando um pouco daquilo que acontecia no filme. Usamos nas letras, igualmente, elementos de outros filmes mesclando um pouco com algumas ideias nossas.

Vocês possuem um EP “The First Exorcism”, lançado em 2011, e um CD, “Prisoners of the Flesh”, lançado em 2015. Lançar um CD significa a consolidação de um trabalho artístico, um marco pessoal na vida de qualquer músico. Você se sentiu plenamente realizado com o lançamento destes trabalhos? Como foi a receptividade destes lançamentos pelo público?

Após o primeiro EP eu senti que poderia ter feito outras coisas, acho que esperava mais… Mas me senti mais à vontade com o “Prisoner of the Flesh”, consegui concretizar as ideias que tinha, embora nem todas. O sentimento no fim, porém, foi semelhante, acho que é próprio do ser humano sempre querer fazer melhor. Gostei das músicas, das bases que criamos, acho que o trabalho foi de um modo geral bem legal. Mas poderíamos melhorar a administração do tempo em que trabalhamos as músicas, pois foi difícil para nós conciliar estudo e trabalho, e, ainda, conter a ansiedade. Depois de ter gravado e escutado, a gente viu que poderia ter feito melhor, mas digamos que estamos sempre aprendendo, sempre buscando melhorar. Sobre a receptividade, sou suspeito para falar, mas posso dizer o que ouvi das pessoas, que nosso som de metal tradicional é uma proposta diferente em nosso meio, por não acharmos que tocar mais rápido é tocar melhor, como muitas bandas que começam com a proposta do heavy metal, mas acabam virando uma banda de thrash metal. A gente se conduz, assim, na linha do heavy metal, embora o próximo álbum vá soar um pouco diferente.

Fale um pouco sobre a recente troca de integrantes e da situação atual da banda na cena.

A banda começou com o Goro na batera [hoje na banda Deathgeist] e o Thunder no baixo e vocal, excelentes músicos. Com essa formação gravamos o primeiro EP. Em 2013 ou 2014, o Goro saiu e tivemos a participação temporária do Zé Piedade da banda Speed Metal Hell, durante uns dois meses. O Goro retornou e gravamos o último álbum, mas ele logo saiu novamente. Na verdade, quando iniciamos a gravação já sabíamos que isso iria acontecer. Gostaria de deixar bem claro que somos todos amigos ainda, a separação é algo que acontece normalmente nas bandas, não foi nada pessoal, não tivemos nenhuma briga ou algo do tipo. Quando o Goro saiu ficamos um tempo sem baterista, e acabou dando certo do David, que ajudou na gravação e mixagem do álbum, entrar no grupo. Ele sugeriu meio timidamente, em tom de brincadeira, quando ainda gravávamos, mas já sabíamos que o Goro iria sair. Não levamos a sério no começo a ideia de ele assumir o posto, mas depois de um insight demos a oportunidade a ele que nunca havia integrado uma banda própria. Ele já conhecia bem as músicas da época da gravação e acabou dando tudo certo. Hoje a banda tem, além do David e eu, o Eric que entrou no lugar do Thunder, que saiu por razões pessoais e tem atualmente outro projeto solo. O Eric é guitarrista da banda Galaxy e nunca havia tocado baixo antes. A ideia foi dele também após um encontro que tivemos em que ele sugeriu assumir o posto de baixista. No princípio não acreditei muito, mas fui convencido pelo entusiasmo dele que me mandou no dia seguinte uma foto do baixo que iria usar, um Condor madeirado. Agora estamos nós três juntos bem entrosados para gravar e tocar ao vivo, correndo atrás do que a gente gosta.

A recente mudança de integrantes modificará o som da banda, ou se manterão fieis ao tipo de som que até o momento produziram? Vocês vão se manter fieis à proposta original do Father Karras?

Nossa proposta original continua, mas com a troca de integrantes alguma mudança é quase inevitável, pois cada músico tem um estilo e uma pegada diferentes. O Eric, por exemplo, é originalmente guitarrista, então isso se reflete no jeito de ele tocar baixo, ele toca com as linhas de guitarra na cabeça, com o mesmo tipo de palhetada de guitarrista. Então, ele está se adaptando para fazer no baixo aquilo que a guitarra não é capaz de fazer. Acredito que o som vai ficar bem legal, com apenas uma guitarra e um baixista que pensa como um guitarrista, o que vai ajudar bastante na hora das bases para o solo, pois agora vou ter que lidar com a dificuldade de tocar e cantar ao mesmo tempo, o que vai mudar um pouco a maneira como eu toco. Continuamos sendo heavy metal, mas evoluímos, vamos fazer algumas palhetadas mais agressivas, sem soar thrash metal, e um som com um pouco mais de variação.

Como está o processo de preparação do novo álbum? Já possuem todas as músicas prontas? Quando começam a gravar?

Começamos a tratar disso no ensaio passado. Já tínhamos avançado quando o Thunder ainda estava na banda. Temos seis letras de músicas prontas, temos também o encarte pronto, embora tenhamos que fazer as alterações para incluir o Eric. Pensamos em incluir, porém, mais duas músicas que tragam a cara da nova formação da banda. O projeto para a gravação no estúdio já foi feito, e vamos partir para a gravação da guia. Esta nós já havíamos começado a gravar com o Thunder, mas paramos. Percebemos que teríamos que refazer algumas coisas, mas naquele momento não conseguimos desenvolver. Ficamos um tempo sem ensaiar, mas agora retomamos em ritmo frenético, ensaiando toda semana. Vamos tentar começar a gravar já no mês que vem, no máximo, e, se Deus quiser, ainda neste ano o CD deve sair.

O novo álbum já tem um nome?

Já tínhamos um nome desde a origem da ideia do novo CD. Como a pegada das bases e das palhetadas vai ser diferente das do EP e do primeiro disco, mas mantendo a característica original da banda, numa espécie de evolução do nosso som para algo heavy-thrash, o CD vai se chamar “Evolution”. Nós vamos fazer mais duas músicas junto com o Eric para que todo mundo participe, pois pensamos que na banda não deve haver a distinção entre “eu que fiz esta música”, ou “eu fiz esta outra”. Pensando que é tudo nosso, a gente fica mais à vontade e tudo flui mais, fica mais produtivo.

Quando pretendem lançá-lo?

Eu sou ansioso… Digo para os caras da banda que por mim já estaria fazendo. Mas dependemos do estúdio, dependemos também de conciliar com o trabalho de todos. Data não temos, mas queremos fazer ainda neste ano. Só falta gravar o que já temos e finalizar as duas músicas que vamos incluir.

Para o primeiro full-lenght vocês fizeram um lyric-video da música “Those Who Disagree”. Recorrerão novamente a este tipo de recurso de divulgação de seu trabalho? Consideram fazer um videoclip para alguma música do novo álbum?

Pensamos em fazer um videoclip, mas não há nada certo. Se houver possibilidade faremos. Falamos de filmar em lugares diferentes, na natureza, quem sabe, mas não há nada concreto ainda.

O último CD foi lançado de modo independente. Continuarão com esta estratégia no novo lançamento? Quais são as vantagens e desvantagens da produção e dos lançamentos independentes de selos e gravadoras?

Nós não tivemos mesmo nenhuma experiência com gravadora ou selo. Mas gostaríamos, pois seria bem legal ter um apoio deste tipo e que, com certeza, agregaria valor. Era complicado até o momento nós corrermos atrás disso sozinhos, pela falta de experiência, inclusive. Mas não vamos ficar esperando, a gente gosta de fazer e então vamos fazer nós mesmos. Se aparecer, porém, estamos dispostos. A vantagem é fazermos do nosso jeito. Com a experiência dos dois primeiros lançamentos já estamos mais confiantes, já sabemos como funciona, vamos sem a mesma ansiedade de antes e com mais planejamento. A desvantagem maior é a divulgação, com certeza. Quem sabe no próximo a gente não consegue um apoio deste tipo? O fato da gente já ter aparecido aí para o mundo pode fazer surgir uma oportunidade.

O nome da banda e as letras de diversas canções como, por exemplo, “T.C.M.” e “Sadako”, do álbum “Prisoners of the Flesh”, fazem referências explícitas a filmes de terror – a primeira ao clássico “Massacre da Serra Elétrica” e a segunda ao filme “O Chamado”. Algum membro da banda é fã de filmes do gênero? Esta temática continuará sendo abordada pela banda no próximo álbum?

Olha, a gente é fã do gênero, temos muitas ideias sobre isso. Mas temos que inovar. O próximo disco tem algumas letras relacionadas ao terror, como a música “Cenobites” sobre o filme “Hellraiser”. No entanto, não temos um compromisso estético com isso, e queremos mais variação no próximo álbum. Tudo começou mais como uma exploração inicial de ideias que vinham de nossas conversas sobre o assunto e íamos colocando nas letras porque achávamos legal. Temos ideias novas, porém, para colocar no próximo disco e trazer maior variação às letras.

Muitas bandas testam a receptividade de músicas novas ao vivo. Vocês estão fazendo isso ou tudo o que ouviremos no novo disco será absolutamente inédito?

Esse disco novo vai ser bem diferente… No último show tocamos, porém, “Cenobites”, e isso já gerou comentários de pessoas que conhecem a banda e disseram que é algo bem legal e diferente. Já nos disseram algo marcante uma vez, que a banda Father Karras parece um livro, em uma página temos algo, viramos a página e temos uma coisa nova; então, vamos aproveitar que o som vai se modificar um pouco e mudar o resto também, é uma nova página, mas agora de um novo livro… Mudou o instrumental, então vamos mudar também na letra. Mas não vamos perder aquilo que é próprio e original da banda.

Até que ponto você acredita que uma banda de heavy metal deve se preocupar em agradar seu público?

Pelo que eu escuto as outras pessoas dizerem, quem é fã de heavy metal é fã do metal tradicional, com todos os elementos que o compõem como as palhetadas características, os riffs cavalgados, aquele andamento bem marcado das músicas, aquela pegada perfeita para balançar a cabeça, tal como fazem bandas como o Accept, por exemplo. Acho legal termos isso em nosso som, mas não apenas isso, para não ficar repetitivo, não ficar aquele som muito reto. Inclusive, alguns já fizeram este tipo de crítica construtiva ao nosso som, e que discutimos em ensaios para tentar assimilar. Este tipo de variação é o que tentamos fazer na música “Joana D’Arc”: alternar a afinação, usando uma para a base com os vocais, e outra para a hora do solo, como se começássemos outra música. Fizemos isto apenas nessa música, mas consideramos fazer novamente em outras futuras composições.

Falando a partir da experiência de quase dez anos de atividade da banda, quais são as maiores dificuldades de se manter na cena underground? 

São muitas dificuldades e que são superadas quando você gosta do que faz. A gente toca porque gosta muito de tocar e pelo sentimento que cultiva com o público nos shows, ver a galera curtir é uma grande motivação. A principal dificuldade é a falta de compreensão de algumas pessoas que a atividade do músico tem um custo, independente de ele ser profissional ou não, como, por exemplo, na hora de pagar o cachê. Ou seja, a dificuldade enfrentada no underground é a valorização do trabalho do músico, o seu reconhecimento. Assim, na cena underground quem faz música, faz porque gosta mesmo. A gente passou bastante tempo pensando em não tocar nos lugares, tocando muito pouco, na verdade, mas o pensamento hoje é outro, é de se entregar, de apresentar o trabalho para as pessoas, colocar em evidência o que a gente faz. Temos muitas ideias como produção de marketing, fazer brindes, camiseta, bonés.

Vocês têm, então, um projeto de crescimento, a banda não existe mais apenas como um hobby, como pura diversão?

Acho que todo mundo que toca tem um pouco de esperança de que a banda dê certo, de tocar fora do país… Mas a banda tem que fazer acontecer, tem que plantar para colher. Como raramente temos um cachê legal, a saída vai ser com estes exemplos que eu dei da camiseta, do boné, de chaveiro, de caneca, além do CD e do EP. A ideia é ganhar algum dinheiro com isso que será revertido para a própria banda. Isso abre várias possibilidades, gera mais publicações no Facebook, gera publicidade; queremos fazer também um site da banda. E, de fato, há uma parte do público do underground que compra para ajudar o músico, mesmo quando não o conhece pessoalmente. Eu mesmo compro os produtos das outras bandas, é uma forma de respeito, inclusive. Embora seja a minoria ainda que pensa desta maneira, que pensa em valorizar o músico, que tem esta atitude consciente, é um caminho para agregarmos valor à banda.

Pensando um pouco neste último aspecto que você abordou, a gente sabe que muitos músicos e produtores reclamam de uma boa parcela do público do metal que gasta com ingressos caros para shows internacionais, com CDs importados, mas não valoriza sua cena local, não comparecendo aos shows em suas próprias cidades, não comprando os CDs das bandas de sua própria cena underground. Com o fim das grandes bandas que já estão se aposentando, você acredita que a cena underground vai se fortalecer ou a permanência e a evidência dos grandes nomes são uma referência indispensável ao estilo?

Acho que a cena underground já está se fortalecendo. Mesmo em nossa região nós já temos muitas bandas boas surgindo, não precisa pensar nem na capital. Eu mesmo procuro muito as bandas diferentes, as bandas que ainda estão para acontecer. Mas há o pessimismo das pessoas de dizer que ninguém mais vai permanecer tocando trinta anos ou mais por aí, como o Judas Priest e outras grandes bandas, o pessimismo de dizer que não haverá mais um Lemmy ou um Dio, por exemplo. Mas a gente tem que levar estes casos como exemplos. No entanto, falta ainda no underground um pouco de união, mas faltam também aquelas pessoas que trabalham por trás da cena para fortalecê-la, como as casas de show, ou alguém que filme, faça fotos, entrevistas, como você está fazendo. Mas sou otimista quanto a isso, com a facilidade do acesso à internet hoje é, na verdade, muito fácil descobrir as novas bandas brasileiras; é só as pessoas pesquisarem. São bandas que não deixam nada a dever à muitas grandes bandas, embora, é claro, isso seja muito subjetivo. Acho que a cena underground não vai acabar, mas vai ser diferente.

Deixe uma mensagem aos leitores da Fanzine Mosh.

Gostaria de agradecer a oportunidade de conceder a entrevista, algo que eu reconheço como importante para a banda. E desejar que aconteça o melhor para todos nós, desejo o melhor para o futuro da revista, dos seus projetos, do trabalho de vocês. O mundo dá espaço para quem fala, então a gente tem que falar e fazer a diferença.

Interview · News

Postado em julho 16th, 2018 @ 19:36 | 323 views
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