6 Dec 2019, 11:00 pm

Hard Rock E Romantismo Em São Paulo Com O Nazareth


Texto: Henrique de Paula

Fotos: Renato Jacob

A banda passou pelo Brasil em tour comemorativa ao seu quinquagésimo aniversário

O lendário baixista e fundador da banda Nazareth Pete Agnew.

A lendária banda escocesa Nazareth passou recentemente pelo Brasil em sua turnê de quinquagésimo aniversário, apresentando um show recheado de clássicos do passado e algumas canções do último trabalho de estúdio “Tatooed On My Brain”, lançado em outubro de 2018. A turnê passou pelas cidades de Curitiba (31/10), São Paulo (01/11), Brasília (02/11) e Belo Horizonte (03/11).

Fundado na cidade de Dunfermline em 1968 na Escócia, o grupo acumulou muitos hits ao longo de suas cinco décadas de existência, tornando-se um verdadeiro especialista em baladas como a clássica “Love Hurts”, as belíssimas “Star” e “Sunshine”, além da canção “Love Leads To Madness” que foi tema da novela brasileira “Sol de Verão” em 1982. Com uma discografia invejável de vinte e quatro álbuns de estúdio, os escoceses primam também no hard rock, e ao vivo sempre soam muito mais pesados do que em estúdio. A formação atual da banda conta com um único membro original e fundador do grupo, o baixista Pete Agnew, que hoje comanda a banda no palco como um verdadeiro maestro. Seu filho, Lee Agnew segura as baquetas desde 1999, ano da morte do baterista original Darrell Sweet. Desde 1994 em seu posto, Jim Murrison é o guitarrista que mais anos tocou na banda. Já Carl Sentance substitui Dan McCafferty desde 2015 (após um curto período em que Linton Osborne assumiu o microfone principal depois da saída do vocalista original por problemas de saúde). Esta é a segunda vez que a banda vem ao país com esta formação.

Pete Agnew durante atuação brilhante no show do Nazareth em São Paulo.

O Nazareth fez seu primeiro show no Brasil em 1990 na cidade de São Paulo e depois de uma nova vinda ao Brasil ao lado do Uriah Heep em 1995, demorou quase dez anos para retornar ao país. No entanto, após a virada do novo século os escoceses têm excursionado regularmente por nossas terras, tocando, inclusive, em cidades pequenas do interior dos estados que quase nunca recebem bandas estrangeiras, principalmente na região sul, onde está seu principal contingente de fãs brasileiros. Em Curitiba, no ano de 2007, a banda gravou seu DVD “Live in Brazil”, onde podemos testemunhar esta relação especial do Nazareth com seus admiradores brasileiros.

O show realizado na sexta-feira, primeiro dia de novembro, na cidade de São Paulo na casa Tom Brasil, promoveu uma boa mistura de gerações, com casais que devem ter dançado suas primeiras músicas ao som romântico do grupo décadas atrás, pais acompanhados de seus filhos, a quem devem ter transmitido seu bom gosto musical, e parte da nova geração de roqueiros paulistanos que ama o classic rock. E se o evento não contou com casa cheia, é inegável que a maior parte que lá estava era composta de verdadeiros fãs do grupo que sabiam de cor e cantavam as letras das músicas, vibrando após o anúncio de cada canção, inclusive das novas.

Nazareth em São Paulo. No detalhe, o vocalista Carl Sentance e o baterista Lee Agnew, filho do baixista e fundador Pete Agnew.

A abertura ficou a cargo da novata Emerson Suicide, banda paulistana de hard rock que possui nítidas influências dos grandes medalhões do gênero dos anos 70 e 80. Subindo ao palco às 20h55, executaram um set de oito músicas, incluindo “Back Off”, que abriu a noite para um público ainda bastante pequeno, a balada “Falling Down”, que conta com um clipe que pode ser conferido no YouTube, e a saideira Old Times. A banda, que lançou o álbum “From the Streets” em 2016, é composta por jovens músicos que não se intimidaram diante da tarefa de abrir um show tão importante e tocaram com garra e muita personalidade, movimentando-se bastante no palco. Destaque para a dupla de guitarristas e o cuidado da banda com o figurino de seus integrantes, elemento que sempre agrega a uma banda de rock’n’roll, estilo musical reputadamente visual. A banda tocou por pouco mais do que trinta minutos e foi bastante aplaudida pelos presentes.

Emerson Suicide durante o show de abertura para o Nazareth em São Paulo.
Emerson Suicide durante o show de abertura para o Nazareth em São Paulo.

O relógio marca 22h10 quando uma música tradicional escocesa começa a soar nos autofalantes, as luzes diminuem e um belíssimo backdrop da banda Nazareth se estende no fundo do palco, para delírio dos fãs que aguardavam ansiosamente o grupo. O primeiro a entrar é o guitarrista Jim Murrison, bastante aplaudido pela plateia, logo seguido pelos demais integrantes igualmente saudados pelo público. A chuva de clássicos que constituiu o show dos escoceses começou com “Turn On Your Receiver” do álbum “Loud’n’Proud” de 1973, aqui no Brasil chamado de “disco do pavão”, por conta da imagem do animal presente na capa.  O público canta e vibra bastante, e o som da casa é alto e cristalino. A “cozinha” da banda formada pela família Agnew é, certamente, o destaque: o pai Pete, de presença e carisma marcantes, toca seu baixo com muita precisão, e o filho Lee é muito seguro e firme atrás de seu kit. Carl Sentance anuncia a nova canção “Never Dance With The Devil” do último disco e se surpreende com a recepção bastante positiva das pessoas na pista. Ao final da canção de riff marcante e pesado, Sentance comenta a ausência do grupo em nosso país nos último três anos e celebra o esperado retorno.

O clássico dos clássicos do Nazareth, “Razamanaz”, do álbum homônimo de 1973, não deixa ninguém parado, nem mesmo as senhoras que acompanhavam seus esposos na mágica noite paulistana. É digno de nota o fato de que Carl Sentance assumiu com muita propriedade a árdua tarefa de ocupar o posto original de um vocalista “insubstituível” como Dan McCafferty. O vocalista inglês, que tocou em diversos grupos em sua longa carreira iniciada no final dos anos setenta com o grupo inglês de heavy metal Persian Risk, dominou o palco em toda a apresentação interpretando as canções do Nazareth com muita autenticidade, mas sem descaracterizá-las. Quem ignorasse o passado da banda escocesa poderia muito bem acreditar que ele sempre fora membro do grupo. “This Flight Tonight”, cover de Joni Mitchell, que também figura em “Loud’n’Proud”, dá sequência à festa acompanhada por palmas do público que seguem a cadência da belíssima canção.

Carl Sentance: competência e carisma a frente do Nazareth.

“Fuck it, São Paulo! I loved it! What a place”, vibra Sentance antes de anunciar “Dream On”, clássica balada do disco “2XS” de 1982, uma das músicas mais conhecidas do Nazareth no Brasil, cujo refrão é cantado em uníssono pelo público. Balada que só não é mais popular aqui do que “Love Leads To Madness” do mesmo disco, executada na sequência para comoção geral. Neste momento, até mesmo alguns seguranças da casa viraram em direção ao palco para assistir, em um dos pontos mais altos da apresentação. Sentance dá novo show de interpretação! Antes da canção, o vocalista havia brincado a respeito da cerveja oferecida a ele pela produção do evento, que provavelmente não é sua marca predileta: “Ao menos é de graça!”. O fato não o impediu de brindar com o público ao som de fundo das risadas de quem entendeu seu comentário. A psicodélica “My White Bicycle”, outra canção “emprestada” que o Nazareth tornou sua, e que foi originalmente gravada pela obscura banda inglesa Tomorrow em 1967, dá continuidade aos trabalhos. Lançada como single pelo Nazareth em 1975, trata-se de mais um clássico marcante da banda.

“Change” do último disco é cantada por alguns da plateia, o que surpreende Sentance e deixa a banda nitidamente feliz, como se vê pelo belo sorriso de Pete Agnew que, aliás, ficou estampado em seu rosto durante a maior parte do show. “Heart’s Grown Cold” do álbum “Malice In Wonderland” de 1979 é uma das mais belas baladas do grupo e foi recebida com muito calor pelos fãs, em mais uma interpretação comovente do novo vocalista, que nesta canção também tocou violão e brigou um pouco com uma incômoda microfonia, empecilho que ele enfrentou com muito bom humor. O show continua com uma trinca de canções do álbum “Hair Of The Dog” de 1975. Antes de “Beggar’s Day”, Sentance brinca com a plateia, apontando a um lado da pista dizendo “if this is heaven!” e ao outro bradando “this is hell!”, em referência às palavras iniciais da letra da pesada canção. O simpático Sentance toma o celular de um fã da plateia para se filmar e devolve ao felizardo que guardará para sempre esta inusitada recordação. Não há dúvidas de que o novo vocalista já conquistou os fãs brasileiros da banda escocesa! “Changin’ Times” põe o público para pular, e Sentance dá novo presente para a plateia ao jogar-lhe uma camiseta da banda. Murrison e Pete fazem dancinha sincronizada no meio do palco e o público acompanha os músicos solfejando o riff da canção. O clima esquenta ainda mais em “Hair Of The Dog”, canção que foi regravada pelo Guns’n’Roses no álbum “The Spaghetti Incident?” de 1993. Para quem não sabe, Dan McCafferty é uma das maiores influências de Axl Rose. É justamente na execução deste grande clássico que os fãs mais sentem falta do vocalista original do Nazareth, já que nesta canção Dan tocava no palco uma gaita de fole, fato que Sentance sabiamente não ousa imitar. 

Jim Murrison: guitarrista presente do Nazareth desde 1994.
Jim Murrison e Pete Agnew em momento eletrizante do show do Nazareth na capital paulista.

“Tatooed On My Brain”, música do álbum homônimo, o último da discografia dos escoceses, é a nova cara do Nazareth com Sentance e é apreciada por muitos, principalmente pelo fã que levou o disco para ser autografado e o teve exibido ao público pelo vocalista que o segurou em suas mãos. “Estou sentindo o amor no ar hoje à noite”, diz o músico inglês, antes da imortal “Love Hurts” cantada em uníssono por todos os presentes. Sentance novamente pede para o público acompanhá-lo com palmas, prontamente atendido nesta indefectível versão do Nazareth para a canção originalmente gravada pelo The Everly Brothers em 1960. Na sequência, vem mais uma versão imortalizada pelo Nazareth: “Morning Dew”. A canção é da cantora canadense Bonnie Dobson que a gravou em 1962 e conta com inúmeras outras regravações de pesos pesados como Grateful Dead e Jeff Beck. Os escoceses a registraram em seu álbum de estreia homônimo de 1971. O final da canção é apoteótico, muito pesado, com Sentance pulando no palco, em uma grande performance do guitarrista Jim Murrison. É a última antes do bis!

O frontman do Nazareth Carl Sentance durante a execução da música Heart’s Grown Cold.
Jim Murrison realizou ótima apresentação durante o show do Nazareth em São Paulo.

Após a banda deixar o palco, três bandeiras são estendidas sob os amplificadores que ficavam atrás dos músicos: a primeira é a bandeira da Escócia, a segunda é o estandarte real escocês, e a terceira é a bandeira brasileira. O público aplaude bastante e grita pelo retorno do Nazareth, que volta triunfante com uma de suas músicas mais pesadas: “Miss Misery”, também de “Hair of the Dog”. Punhos ao ar acompanham o riff desta canção que poderia facilmente figurar em um álbum do Black Sabbath… “Where Are You Now” do disco “Sound Elixir” de 1983, outra balada radiofônica do Nazareth em que o público tem bastante participação, é a penúltima da noite. O grand finale é uma grata surpresa aos fãs: “Go Down Fighting”, do álbum “Loud’n’Proud”. Improvável que alguém imaginasse que ouviria esta música na noite, ainda mais fechando o show…

O relógio marca 23h40 quando os músicos se curvam diante do público em agradecimento. A passagem da banda em São Paulo em 2019 é realizada em grande estilo e marca a consolidação de Sentance no Nazareth, eliminando, igualmente, qualquer dúvida sobre a posição de Pete Agnew como novo chefe da banda. Que venha agora o prometido próximo álbum em 2021!

OBS: Dan MaCafferty não se apresenta mais ao vivo devido a sua condição de saúde delicada, mas lançou recentemente o álbum “Last Testament”. Se você é fã do “Naza”, é obrigatório conferir!

Lee Agnew, filho do baixista Pete Agnew, segurando as baquetas do Nazareth desde 1999.
O Nazareth encantou os fãs que foram ao Grupo Tom Brasil para prestigiar a banda.

Somos imensamente gratos à querida Miriam Martinez, assessora de imprensa do Grupo Tom Brasil, e aos colegas da Top Link Music pela confiança em nosso trabalho e pelos credenciamentos gentilmente concedidos.

Mais imagens inéditas dos shows estão disponíveis no Facebook oficial da revista:
https://www.facebook.com/Fanzine.Mosh/

SETLIST EMERSON SUICIDE

1-Back Off

2-My Wild Life

3-Around At Night

4-You Could Be Right

5-Falling Down

6-Dark Streets

7-Nothing Was In Vain

8-Old Times

SETLIST NAZARETH

1-Turn On Your Receiver

2-Never Dance With The Devil

3-Razamanaz

4-This Flight Tonight

5-Dream On

6-Love Leads To Madness

7-My White Bycicle

8-Change

9-Heart’s Grown Cold

10-Beggar’s Day

11-Changin’ Times

12-Hair Of The Dog

13-Tatooed On My Brain

14-Love Hurts

15-Morning Dew

16-Miss Misery

17-Where Are You Now

18-Go Down Fighting

Mosh Live · News

Postado em novembro 20th, 2019 @ 10:22 | 157 views
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