15 Aug 2018, 5:24 am

Menos Carnaval, Mais Rage Em São Paulo!


Banda se apresentou no Vic Club, em São Paulo

por Henrique G. de Paula
fotos Renato Jacob

Fantasias, trios elétricos e multidões de foliões: este era o cenário das redondezas do Vic Club (antigo Gillan’s Inn), na República, na noite de domingo do quarto dia de fevereiro de 2018. Dentro do clube, os headbangers que ousaram sair de casa em pleno “pré-carnaval” paulistano (como se o próprio carnaval já não fosse suficiente…) aguardavam ansiosamente a apresentação de uma das mais importantes bandas alemãs do gênero heavy/power metal surgida na década de 80. Da formação original, apenas o fundador Peter “Peavy” Wagner restou, comandando o grupo que conserva um alto ritmo de produção de discos. Sem viver do passado, o Rage mantém-se como uma banda bastante relevante na cena metálica mundial, embora não esteja entre as mais famosas, principalmente em nosso país. Este fato, aliado à impossibilidade ou, ao menos, à grande dificuldade de se sair de casa naquela noite, talvez justifique o público modesto que compareceu ao show dos europeus. Modesto, porém, muito fiel, já que praticamente todos os presentes cantaram as letras e vibraram em todas as músicas tocadas.

Antes do Rage, porém, a banda chilena Delta, formada em 2003, recebeu a atenção dos bangers que foram bem-sucedidos em driblar os congestionamentos e evitar as ruas fechadas para a folia paulistana antecipada e chegar cedo ao local. Problemas técnicos diminuíram a apresentação de sete para apenas quatro músicas, executadas, contudo, com muito empenho e garra pelos sul-americanos. “Crashbreaker”, que abre o álbum homônimo de 2008, deu início a uma apresentação que, se não fez o público agitar, ao menos ganhou sua atenção e seu respeito. O estilo neoclássico/progressivo do som dos chilenos é executado por um guitarrista de extremo talento, e este só não chama mais atenção do público do que a simpática e competente vocalista Simone Weber. A banda, que tocou o tempo todo com o backdrop do Rage exibindo a mascote esquelética metálica chamada “The Soundchaser”, conseguiu arrancar aplausos dos presentes ao fim de cada música executada. “Desire Within”, do disco “Deny Humanity” (2010), com seu ritmo inicial dançante, mantém a pegada forte da banda, ainda que atrapalhada no meio de sua execução por um terrível barulho produzido por algum equipamento mal regulado ou pelo erro de algum responsável pelo som, assustando o baixista Marcos Sánchez, o músico que mais agitava no palco. Na sequência, a balada “Alone”, a música mais recente da banda a ser tocada no show, lançada em 2017 em formato single e com clipe circulando na internet, revela a habilidade do tecladista Nicolás Quinteros. Os solos do guitarrista Benjamín Lechuga, que usa uma guitarra fanned fret de sete cordas, são o ápice de cada canção tocada, mas especialmente da derradeira, “Who I Am” também do álbum “Crashbreaker”. Pouco menos de meia hora de uma apresentação que deve ter deixado em muitos o desejo de conhecer melhor a banda chilena.

Aproximadamente às 20h00 o baterista grego/alemão Vassilious “Lucky” Maniatopoulos é o primeiro da banda Rage a entrar no palco. E ele o faz em grande estilo, se aproximando do público e imitando o gesto típico de lutadores quando flexionam os braços ao alto exibindo os músculos. Não demora quase nada para ele ser seguido pelo guitarrista venezuelano Marcos Rodríguez e pelo grande e imponente “chefe” do grupo, aclamado pelo público que grita seu nome: “Peavy! Peavy! Peavy!”. Era só o início de um show de participação que os próprios fãs dariam à banda para o orgulho e a satisfação de seus integrantes. Marcos e “Lucky” acompanham “Peavy” desde 2015 apenas, mas o público demonstra grande carinho também pelos novatos do grupo e com perfeita razão, já que parecem ter trazido energia e técnica extras ao Rage, constituindo o que alguns ali diziam ser uma das melhores formações da história da banda. E tudo isto fica muito claro já na excelente “Justify” do último álbum “Seasons Of The Black” de 2017, que já pode ser considerada o novo clássico do Rage, escolha perfeita para a abertura do show. A voz marcante de “Peavy” continua intacta, assim como sua presença de palco e carisma. A galera não resiste a cantar o refrão da nova canção e a novamente entoar em coro o nome do vocalista no final de sua performance. O riff inicial de “Sent By The Devil”, que vem na sequência, também é cantado pelos fãs, assim como toda a letra desta excelente música do mais festejado disco do Rage da década de 90, “Black In Mind”. O público acompanha a música com palmas em sua parte mais cadenciada, e para apenas quando Marcos sola com esmero. No final, o primeiro “horn sign” de “Peavy” ao alto para o público. A interação de banda e público com os riffs tocados por Marcos no palco e cantados pelos fãs na pista permanece em “From The Cradle To The Grave” do disco “XIII” de 1998. O vocalista sorri feliz em retribuição à participação de seus fãs e puxa as palmas que acompanham o final da execução de uma das músicas mais aplaudidas naquela noite. E enquanto este ensaia um “Olê, olê, Rage!” a nova “Seasons Of The Black”, do álbum homônimo, engole os gritos da plateia, em mais uma performance marcante do guitarrista Marcos Rodríguez que coloca a mão no ouvido esquerdo provocando a galera a gritar ainda mais. Marcos toca tão bem quanto energicamente agita em cima do palco, muito à vontade ao lado do maestro alemão que, talvez com um pouco de ciúmes, exige agora que os fãs tornem a exclamar seu nome! Ao final da nova canção, “Peavy” pela primeira vez conversa com o púbico, agradecendo a presença de todos: “It’s good to see you. It’s good to be back!”

Anuncia, então, “Nevermore” que emociona os fãs mais antigos transportando-os novamente para o início dos anos 90, quando a banda lançou seu álbum “The Missing Link”. O riff e o ritmo da música são contagiantes e este é um dos momentos mais marcantes da apresentação do trio. “Deep In The Blackest Hole”, do não menos querido “End Of All Days” de 1996, faz alguns pularem na pista e “Peavy” lembrar de sua primeira passagem pelo Brasil em 1997, durante a turnê do álbum. E eis que a própria música título do álbum é executada na sequência para delírio de todos. Transparece neste momento a experiência de “Peavy” como frontman, experiência estampada em sua barba branca e conquistada com muito trabalho e suor em mais de três décadas dedicadas ao Heavy Metal. A banda se regozija novamente com o reconhecimento do público que incansavelmente grita seu nome antes da execução de “The Price Of War”, anunciada por “Peavy” perguntando se alguém ali era fã do álbum “Black In Mind”. Os antigos fãs agradecem novamente e no final da canção o líder da banda não esconde o cansaço da turnê, enxugando o suor do rosto e reclamando do calor. Sob o comando do alemão, todos são convidados a cantar “Blackened Karma” do último álbum e ninguém ousa decepcionar “Peavy”. O frontman novamente divide a atenção da plateia com o guitarrista Marcos Rodríguez que vem ao centro do palco para solar, com profusão de aplausos.  “Don’t Fear The Winter”, do disco “Perfect Man” de 1988, é anunciada como oriunda da “idade das pedras do Heavy Metal” e novamente os fãs fazem sua parte ao entoar em uníssono o refrão. “Peavy” deixa o palco após a canção, acompanhado de seus companheiros de banda, depois de um seco “obrigado” que não engana ninguém: a banda não irá embora sem tocar seu grande hino “Higher Than The Sky” de “End of All Days” (1996).

Mal dá tempo de o público clamar pelo “bis” e a banda retorna repetindo o ritual do início do show, com “Lucky” chegando primeiro, agora acolhido por um fã que lhe entrega uma bandeira da Grécia por ele estendida diante do público. Quando “Peavy” retorna e formula a previsível pergunta, sempre boa de se ouvir, “Do you want some more?”, é novamente em uníssono que o público responde: “Sim!”. Como se realmente fosse necessário, “Peavy” ensaia o refrão da música com o público antes de executá-la e quando finalmente a inicia é perfeita a comunhão de banda e fãs no Vic Club. Entre o início da canção e seu fim os músicos intercalam uma belíssima homenagem a Ronnie James Dio, com o guitarrista Marco Rodríguez demonstrando seus dotes vocais. Para quem não sabe, Marcos, além de guitarrista, é também vocalista da banda Soundchaser e de uma banda tributo ao Dio chamada Diolegacy. Seu timbre é muito próximo ao do saudoso vocalista, falecido em 2010, e sua interpretação de “Heaven And Hell” e “Holy Diver”, tocadas ali pela banda, é emocionante. “Peavy” joga beijos ao público, a banda tira uma foto com a galera, “Lucky” distribui as baquetas, e um fã presenteia Marcos com um CD. Pouco menos de uma hora que valeram por muitas, pois ninguém ali reclamou do curto, mas avassalador, setlist. Fim de show, e missão cumprida tanto pela banda, que já nos deixa imaginando quando poderá ocorrer seu retorno, quanto pelos fãs, que corajosamente saíram de casa com o risco de enfrentar um metrô superlotado em pleno domingo ou de não chegar a seu destino encalhados no trânsito. No próximo ano, por favor: menos carnaval, mais Rage!

SETLIST

DELTA
1-Crashbreaker
2-Desire Within
3-Alone
4-Who I Am

RAGE
1-Justify
2-Sent By The Devil
3-From The Cradle To The Grave
4-Seasons Of The Black
5-Nevermore
6-Deep In The Blackest Hole
7-End Of All Days
8-The Price of War
9-Blackened Karma
10-Don’t Fear The Winter
11-Higher Than The Sky / Heaven And Hell / Holy Diver / Higher Than The Sky

 

Mosh Live · News

Postado em fevereiro 16th, 2018 @ 13:28 | 393 views
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