23 Sep 2018, 11:40 pm

Mosh 30 Anos: Entrevista com Moonspell


Entrevista com a banda Moonspell para o Fanzine Mosh


por Henrique G. de Paula
fotos Andre Smirnoff

Chegando muito em breve ao Brasil (com datas no Rio de Janeiro, São Paulo, Recife e Belo Horizonte), a grande banda portuguesa de gothic metal Moonspell conversou com Fanzine Mosh sobre o novo disco “1775”, trabalho conceitual sobre o catastrófico terremoto de Lisboa. Quem nos falou sobre o conceito, a composição e a recepção do novo álbum, apontado pelos críticos como o melhor da carreira da banda, foi o vocalista Fernando Ribeiro. Confira abaixo.

O novo álbum do Moonspell trata do grande terremoto de 1775, um dos mais catastróficos desastres naturais ocorridos na Europa, ao menos a partir da Idade Moderna, justamente em Lisboa, Portugal, sua terra natal. É, sem dúvida, um ótimo tema para um disco conceitual de metal, já que traz à mente imagens de sangue, destruição e morte. De fato, o acontecimento repercutiu fortemente na visão de mundo da época. O evento, contudo, permanece com vigor ainda no pensamento, na memória e no imaginário da cultura portuguesa? O que motivou pessoalmente a banda a escolhe-lo como tema de um disco conceitual?

O português, como não é otimista por natureza, tende a esconder as desgraças por trás do silêncio e do desinteresse. Em todo o caso, o desastre de 1755 nunca saiu da memória coletiva, nem dos manuais de História de Portugal, nas escolas e foi esse o nosso contato. Concordo quando diz que é um tema que pode ser típico a um disco de Metal, mas da parte do Moonspell houve um esforço para o público perceber a nuance de um fenômeno dessa escala física e social, contando também os episódios de esperança e de reconstrução de uma cidade e de um país absolutamente devastados também na moral. Como português e músico achei o tema perfeito, na verdade.

 

O conceito do álbum é particularmente pertinente à nação portuguesa, como é evidente, e, neste sentido, não me parece que uma banda de qualquer outro país poderia captar e transmitir de forma tão perfeita todos os sentimentos ligados ao evento da tragédia do terremoto, como vocês o fizeram no disco. Considerando isto, de que modo a visão estrangeira do produtor Tue Madsen acrescentou algo ao álbum?

Nos recrutámos o Tue porque queríamos soar pesados, com um som devastador e impactante que sabíamos que ele iria trazer ao disco. Ele se envolveu muito no som, mas também quis saber da parte lírica e estética, e que eu tinha todo o gosto em explicar. Tal como o músico, o produtor espera novas experiências, e isso adicionou ao seu input no som; ser dinamarquês ou doutra nacionalidade, não foi impeditivo de ele se envolver muito no conceito que adorou. Visitou muito Lisboa também, e adora Portugal!

A característica central de “1775”, a meu ver, está na densidade dos sentimentos que envolvem as composições. Isto é garantido instrumentalmente pelo uso muito adequado das orquestrações, mas igualmente pela dramaticidade das letras. A decisão de escrever e cantar as letras em português foi, neste sentido, fundamental. Quando a tomaram, porém, não ficaram inseguros quanto a possibilidade de que os fãs não falantes da língua portuguesa perdessem o essencial do álbum? Como tem sido a recepção do álbum fora dos países lusófonos?

Para ser sincero nem pesamos os dois lados da balança. Para Moonspell sempre foi óbvio que a decisão será sempre “artística” e só decidindo assim conseguimos dormir de noite 😉 Na verdade, isso pode ser verificado pelas grandes mudanças em diversos discos nossos. O importante era honrar o conceito, musical e liricamente e o “1755” não era exceção. Assim sendo, o uso do português mais que opção foi consideração única. Também desenhamos o disco para ser como uma experiência, densa em emoção, mas também inquietude, conforme se terá vivido naquele tempo e dia. A língua, neste caso, em vez de afastar, adicionou à história e foi uma surpresa muito boa ver as críticas, reações ao disco e ao vivo. Em Alemanha, Holanda, Rússia, França, Escandinávia, o disco foi extremamente bem recebido e louvado.

De fato, a banda já havia composto e gravado algumas músicas em português em outros discos. Como foi, porém, compor o álbum inteiro em português? Foi desafiador, de algum modo singular, ou foi, talvez, mais natural do que o trabalho dos álbuns anteriores compostos em inglês?

Me desculpe a franqueza, mas posso dizer que foi do caralho fazer esse disco! Podia inventar desafios, estórias, episódios, mas o que aconteceu foi que nos entusiasmou muito a ideia, e o trabalho foi prazenteiro e fluído, ainda mais que nos outros discos. Os músicos pintam um cenário negro de inspiração, mas nós temos sorte e procuramos muito as histórias “certas”, quer em inglês, quer em português. De fato, estivemos sempre entusiasmados, criei as letras bem rápido e como vocalista penso ter atingido um tom diferente, mais expressivo e natural em português.

O filósofo iluminista francês, Voltaire, é um dos primeiros pensadores a referir-se ao terremoto de Lisboa como uma evidência da ausência de Deus ou de uma Providência Divina no mundo. Esta relação entre a catástrofe e a fé está fortemente presente no álbum. A qual literatura sobre o acontecimento recorreram para buscar inspiração para as letras do disco?

O Poema sobre o Desastre de Lisboa do próprio Voltaire, na tradução portuguesa de Vasco Graça Moura, foi a peça central de literatura que usei neste disco. Fiz outras leituras, há vária literatura sobre o tema e pesquisei em muito sítio, desde registos paroquiais a relatos de padres à Santa Sé. Mas o poema de Voltaire contém toda a mensagem e o desafio aos Deuses, lançado pelo Iluminismo que só surge em Portugal pós-terramoto quando a Igreja perde força. A teodiceia, a figura de Deus como providência, o tudo está bem, tudo isso é desafiado por Voltaire de uma forma notável e contribui, e de que forma, para o início do Ateísmo na Europa, mas também para uma viragem Cristã para algo menos medieval, como se passava em Portugal com a existência ainda da Inquisição e a perseguição a judeus, protestantes, inocentes. Bem sei que não foi Deus que mandou a tragédia, mas o fato é que muitas das decisões da Coroa que mantinha o povo na miséria tinham o patrocínio da Igreja, quase policial de Portugal. Tudo isso baseado na premissa de que Deus “dará um jeito”. Nesse dia não deu e a História mudou.

A versão para “Lanterna dos Afogados” da banda Paralamas do Sucesso é, certamente, especial aos fãs brasileiros. É surpreendente como descobriram uma nova e inusitada dimensão interpretativa da música. O que motivou a escolha desta canção? Como conseguiram transformar uma balada radiofônica em algo tão soturno?

(Risos) Nem sei. Bem, vamos pôr de parte o que chega a Portugal através das novelas. São coisas ruins, mas também muita coisa boa que preencheu o imaginário de um Portugal mais cinzento e mais conservador que o país irmão do Brasil. Você não tem ideia de quanto o Brasil contribuiu para liberar Portugal e destruir algum do nosso conservadorismo. Quanto aos Paralamas, apesar da Rainha da Sucata ;), sempre notei a letra triste e o tom melancólico, de quem espera, desespera, nessa canção. Foi das primeiras coisas que me lembrei para este disco e levei até ao fim. Pedi à banda algo muito doom, opressivo, hipnótico, mas belo também, tal como a história da letra. Acho que eles fizeram um grande trabalho e acho que não podia ter melhor final este disco, se é inesperado, para nós isso é bom.

Quais músicas tocarão ou estão tocando do novo álbum na turnê? Concordam que é um bom álbum para ser executado na íntegra nos shows?

Pode ser, pode não ser. Moonspell é um todo e o show se compõe de energia e é nisso que nos concentramos. Escolhemos as músicas perante um ambiente que queremos dar, mas achamos também que há uma preocupação desmedida do fã em assegurar esta ou aquela música no set. É um pouco egoísta e pode até estragar o ambiente do show para aquele fã. O que posso dizer é que vamos dar um grande show, um show que é único para nós, teatral, denso, que transmite grande força ao público. Não somos de jogar fácil, nem o nosso fã verdadeiro gosta disso.

Muitos têm apontado o novo disco como o melhor trabalho realizado pela banda. Ele é, sem dúvida, ousado instrumentalmente, e revela grande maturidade musical alcançada pelo grupo. Olhando retrospectivamente para a história do Moonspell, acreditam que os diversos experimentalismos dos álbuns anteriores serviram como a preparação fundamental para o alcance do nível presente e, talvez, ápice da carreira da banda?

Nada se perde, nada se ganha, tudo se transforma. É um pouco assim com a música de Moonspell, por isso sim considero que tudo o que gravamos até agora, e foi muito, como importante no nosso percurso. Sou honesto quando me digo que me revejo mais numas coisas que em outras, mas entendo o porquê desta ou daquela decisão, coisa bem ou mal feita. Mas fazer música adulta, com conceito de qualidade bem representado musicalmente é algo que pensamos estar a fazer melhor desde “Night Eternal”. O “Extinct” é para nós um trabalho que nos deixou muito orgulhosos no songwriting da banda e o “1755” beneficiou disso, claro.

O Moonspell é, certamente, a banda portuguesa de metal mais bem-sucedida mundialmente. Acumula vinte e seis anos de história e acaba de lançar um dos seus melhores e mais importantes discos. Vocês já refletem sobre o legado que deixam à história da música pesada? Falta ainda alguma conquista para que vocês se sintam plenamente realizados?

Essa “evidência” ainda dá muita discussão e provoca muita celeuma em Portugal 😉 Nós no ativo, não estamos em condições de fazer esse juízo sobre o legado, ainda é cedo. Mas, felizmente, as coisas vão crescendo à nossa volta e formamos uma editora que brevemente editará para todo o mundo “novos” talentos do Metal nacional. Deixando ou não legado, queremos sim é aproveitar a nossa rede de contatos e experiência para ajudar a abrir a cena Lusa um pouco mais lá fora. É algo que tenho desenvolvido e que a médio prazo está a ser posto em prática. Considero isso bem mais importante que o respeito que nos é devido, bem sei, mas fomos apenas uma banda que pensou e trabalhou diferente em Portugal, e que entre sorte e dedicação e foco em música original, conseguiu viajar pelo mundo. Ainda existem uns territórios a explorar, aliás considero o Brasil, outras cidades, um desses sítios e trabalharemos para voltar já no ano que vem. Antes vem EUA, Ásia, Austrália, penso eu. Mas para ser honesto já fiz mais com a banda do que alguma vez sonhei. Agora quero fazer música e letras cada vez melhores, esse é o meu objetivo.

O que esperam dos shows que realizarão no Brasil agora em abril? O que gostariam de dizer aos fãs do Moonspell leitores da Fanzine Mosh?

Um grande abraço a todos os leitores under the spell!!! Estamos quase a chegar ao Brasil, com o “1755” e todos os nossos truques de magia lunar na bagagem e cheios de “amor” para dar. Do Brasil esperamos o que os fãs nos quiserem dar nessas noites com a garantia de que não eivaremos pedra sobre pedra.

Interview · News

Postado em abril 24th, 2018 @ 11:31 | 307 views
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