11 Dec 2017, 9:33 am

Entrevista com a banda ROT


Entrevista com a banda ROT

rotPor  Fellipe CDC

Em quase 3 décadas de amizade, perdi as contas de quantas vezes entrevistei o guitarrista Clodoaldo Gradice (vulgo Mendigo) ou resenhei sobre as suas bandas (Rigidity Cadaveric e ROT) para os fanzines que eu editava ou era apenas um feliz colunista. Passado alguns anos, eis que eu e o meu grande amigo e irmão estamos novamente frente a frente para outro bate papo, só que agora, pela primeira vez, pelo FANZINE MOSH.

 

 01) Apesar de ser em outra plataforma (digital), ainda estamos dentro do universo zineiro e falando sobre o mesmo assunto: barulho! Quando será que vamos tomar jeito?

MENDIGO: Acredito que nunca!!! Quem gosta, gosta! O importante é não perder o feeling e não se frustrar.

 

02) Por que a ROT ficou parada por tanto tempo? Quando e por quais razões decidiram voltar à ativa?

MENDIGO: Em 2008, a banda estava em um processo criativo muito intenso, mas ao mesmo tempo, todos na banda estavam muito distantes, com outros projetos e ambições, tanto que acabou naturalmente, sem rupturas graves, brigas, egos e afins. Decidimos voltar porque achávamos que era o momento, que tínhamos tempo, maturidade… e foi tudo ao contrário ( risos ). Observamos como estamos velhos, cansados, com mais coisas para serem feitas, um processo natural, eu acho, não vamos ficar tocando grindcore até os 60 anos, ou vamos? Temos muito que oferecer ainda, é o que eu penso, tenho facilidade de compor e muitas ideias ainda.12122434_718553948276722_7083117285857887226_n

 

03) Nesse período de inatividade da ROT, o Marcelo, que é, ao seu lado um dos fundadores da banda, trabalhou com muito afinco com a Absurd Records e na loja Extreme Noise, enquanto o Alex Bucho seguia com várias bandas e com diversos projetos de cunho underground. Já você focou todo o seu tempo entre estudo, trabalho e família. Como foi voltar à rotina de compor, ensaiar, tocar e gravar?

MENDIGO: Foi difícil, pelo menos pra mim. Minha guitarra estava encostada há cinco anos, tocava periodicamente meu violão e não compunha nada, somente algumas canções instrumentais que usei para alguns documentários que ajudei a produzir. Quando sentei com o Rafael para tocar e compor, me sentia o cara mais tosco do mundo, tinha umas dificuldades de transpor as notas muito grande. Somente após eu me dedicar a construir e reconstruir meus riffs que voltei a tocar bem(????). Apareceram aqueles problemas de sempre: se agendar pra ensaiar, procurar ser flexível com o pensamento de cinco pessoas diferentes, etc. Rotina de uma banda comum.

 

04) A volta ao front, trouxe um segundo vocalista, o Marcolino, o qual, além de grande fã da ROT, também já tinha sido da Desecration. Como ele ajudou no processo de composição das novas músicas e como se adaptou à banda?

MENDIGO: Um segundo vocalista já existia antes da banda acabar, o Jeferson ( atualmente no Unit Scum e Helvetin Viemärit ) fazia este papel, ele não quis voltar conosco nesta nova fase. O Marcola surge como uma opção quase que imediata, conversava com ele periodicamente durante algum tempo pelo Facebook e pensávamos em fazer algo juntos em se tratando de uma banda, aproveitei o ensejo e o convidei a fazer um teste na banda, com o aval dos outros membros. Ele se adaptou à banda sofrendo bullyngs constantes (risos), foi de extrema importância sua presença na banda, ele trouxe consigo a experiência anarquista não só a teórica, mas a prática também, Ele compôs e arranjou metade das letras do EP Nowhere, um valioso amigo de longa data, foi adorável trabalhar com o Marcolino.

 

05)  Como se deu o repatriamento do baterista Rafael?

MENDIGO: Como assim repatriado? Ele estava na formação antiga da banda, foi nosso último batera, seria natural chama-lo para tocar novamente, tanto que quem começou a ideia de reformular a banda foi dele e minha. (Nota do entrevistador: o baixista da época, 2008, não voltou!)

 

06) Aliás, a ROT sofreu muito com troca de integrantes. Uns, como o Alex Bucho e já citado Rafael, já haviam passado pela banda em algum momento da história e acabaram regressando ao time. Como vocês lidam com essa movimentação de pessoas? Quais os aspectos negativos e positivos dessas mudanças?

MENDIGO: Bom, você sabe como isso é desgastante, Quem tem banda sabe. O negativo é começar praticamente do zero ao três, uma banda precisa de muito ensaio para estar entrosada e ter uma química e somente após isso, os sons saem naturalmente. Os positivos são como eu respondi na questão anterior, gente nova, traz coisas novas, é sempre bom agregar novas ideias a uma banda, ainda mais quando se tem décadas nas costas, o novo sempre é bem vindo para trazer o equilíbrio.

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07) Fale um pouco sobre o conceito artístico por trás da arte do novo trabalho (Nowhere)?

MENDIGO: A arte gráfica sempre esteve associada a banda, nos preocupamos muito com isso. Geralmente, quando estamos na metade das composições musicais, começamos a discutir como será inserido a arte dentro do contexto musical e lírico, as pesquisas são feitas, convidamos alguns amigos para ilustrar e fazer esquetes, até chegarmos a um acordo, democrático na medida do possível.

 

08) Ainda sobre “Nowhere”, como foi o processo de composição das 12 faixas, já que o quinteto mora em lugares geograficamente distantes.

MENDIGO: Muito difícil. Veja, em dois anos e meio da volta da banda, conseguimos compor apenas 12 canções, antes, se a banda tivesse o mesmo ritmo alucinado de um ensaio por semana e uma nova música pronta, acho que teríamos cerca de 80 músicas e até mais (?) compor a parte musical nunca foi um desafio para a banda, modestamente falando, sempre foi fácil, o que começou a ficar difícil foi escrever letras sobre temas que nunca tínhamos abordado antes ou tentar escrever sobre o mesmo tema mas de outra forma. Por um lado, isso foi bom, porque você tem escolhas pra fazer, opções com um monte de músicas prontas e qual delas escolher pra encaixar uma letra, voz, etc.

 

09) E sobre os temas abordados, como chegam a um acordo sobre o que deveria entrar ou sair da parte lírica?

MENDIGO: Geralmente, quem cuidava disso eram os vocalistas. A medida que iam chegando com as letras e ideias de vocais, os riffs iam se moldando ou a voz sofria adaptação. Isso aconteceu em praticamente 80% das canções, as músicas foram se adaptando, se recreando conforme a necessidade. Acredito que este EP e o anterior com o LIAL sofreram o mesmo processo, as musicas tiveram que se adaptar ao estilo vocal, não sei explicar isso com palavras, me desculpem.

 

10) “Nowhere” foi lançado em 3 tipos de suporte (CD, 7 EP e cassete) e por três selos de locais distintos (Absurd, no Brasil; Selfmadegod, na Polônia e via MCR Company no Japão; Give praise Records – USA ( ambas via Karasukiller ) Isso prova a força, vitalidade e importância da banda ROT, certo? Como chegaram aos selos estrangeiros?

MENDIGO: Selos, Zines, amizades no exterior sempre vieram muito antes do Rot se materializar em banda. Começa no final dos anos 80 com o Marcelo trocando correspondências com diversas pessoas ainda quando publicava o United Forces Zine. O mesmo vale para o Alex e o para o Marcolino. O fato de você manter contatos com outras fontes de cultura underground, seja ela literária ou fonográfica, ajuda muito na hora de se procurar um selo ou pessoas interessadas em divulgar sua banda. Com tudo isso, não é tão simples ou “fácil” como era em outro contexto. As coisas mudaram muito, importar ou exportar música ficou relativamente caro, mesmo sendo o Rot uma banda bem conhecida lá fora, poucas pessoas se arriscam a lançar material em quantidades razoáveis de qualquer banda, podemos dizer que tivemos sorte, até,  mesmo mantendo um contato a longo prazo com o exterior.

 

 

11) Para a concepção “rotiniana”, o pessimismo é uma maneira otimista de ser encarar um mundo cada vez mais decadente e doentio?

MENDIGO: Uma coisa é certa: coisas ruins acontecem com todo mundo. Não importa se você é otimista ou pessimista, tragédia, morte na família, desemprego, violência não escolhe quem vai acometer.

 

12) Após o retorno, vocês fizeram alguns shows. Quais você destacaria?

MENDIGO: Acho isso bastante individual, pois a mesma gig que achei excelente, ciclano ou beltrano vai dizer que foi um lixo. Fizemos bons Shows, cada um uma história. O que marcou a volta pra mim foi com o Agathocles no Clash Club em SP, acho que por ter encontrado amigos do passado, muitos que eu não via a muito tempo, mais do quê nossa apresentação (risos).

 

13) Você tem ideia, em números, de quantas músicas a ROT já compôs? E, sendo muito sacana, qual dessas tantas melhor define a banda?

MENDIGO: Antes da banda acabar (2008) eu tinha um disquete com todos os títulos, infelizmente este disquete se perdeu, tinha em torno de 150 a 170 músicas. Cada disco pra mim define o que era a banda naquele momento, uma vez mais punk, outra mais crust, outra mais experimental, mais cru em outro momento. Depende muito de quem está tocando na banda. Veja, acho o “A long Cold Stare” o disco mais influenciado pelo Metal do que os outros discos, porque tive que adaptar os riffs para a bateria do Ricardo que não ouvia HC/Punk, da mesma forma que acho o “Your lies is gone…” grindpunk pra caralho, por causa do Mané na batera que ouvia pouco metal (risos), da mesma forma que o EP “Nowhere” é cru pra cacete, porque não tínhamos tempo de se reinventar, isso porque também nem era a intenção da banda, era fazer o que sabíamos fazer, sem firulas.

 

14) Já existem novas composições para um futuro trabalho? Quais os próximos passos?

MENDIGO: Próximos passos é refazer a banda, no sentido de estruturar novas pessoas que desejam levar a banda pra frente. Posso até a arriscar em dizer que músicas eu tenho bastante, mas uma coisa de cada vez.

 

15) Bom, meu amigo, é isso. Obrigado mais uma vez pelo seu tempo. Abraços ao povo feio da ROT e beijos para as suas mulheres (esposa e filhas). Dê o seu recado aos leitores do FANZINE MOSH!

MENDIGO: Obrigado pelo espaço cedido para gente aqui, fico feliz pelos fanzines no geral terem se adaptado a este formato digital, é de suma importância que os fanzines sobrevivam para que as bandas possam também sobreviver, Longa vida aos fanzines!!!

Continuem e apoiarem as bandas e os zineiros que as divulgam.

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Postado em agosto 22nd, 2016 @ 21:21 | 606 views
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