11 Dec 2017, 3:09 pm

Entrevista: Warrel Dane e banda


Warrel Dane, a voz do Nevermore e do Sanctuary, estreita relações com o Brasil

Warrel Dane 2016

Entrevista por Clovis Roman e Kenia Cordeiro
Tradução por Arianne Cordeiro
Fotos por Clovis Roman (ao vivo) e Renan Facciolo (promocionais)

Na história do Metal diversos cantores com vozes peculiares gravaram seus nomes no estilo. Um desses que mostra identidade com um timbre diferenciado e cheio de feeling é Warrel Dane, a voz aguda a lá King Diamond da época do Sanctuary que entrou nos anos 90 chutando o pau da barraca no espetacular Nevermore. A banda de Seattle lançou sete discos de estúdio em pouco menos de duas décadas de estrada – além de um ao vivo – e forjou seu nome nos anais da música pesada. O destino tratou de separá-los, e então Dane começou a fazer shows solo. Após apresentações no Brasil em 2014, o cara resolveu contratar os músicos locais que o acompanharam como sua banda oficial. Sim, a banda de Dane é 80% brasileira, a saber: o baterista Marcus Dotta (ex-Thram e Skin Culture, atualmente no incrível Soulhost), o baixista Fábio Carito (ex-Shadowside e também no Soulhost) e a dupla de guitarristas Johnny Moraes (do Hevilan) e Thiago Oliveira (do Seventh Seal). Além da banda brasileira, Daner está morando no país atualmente. Em 2016, ele já fez algumas apresentações, em cidades com Florianópolis e São Paulo. No dia 19 de junho, ele se apresenta em Curitiba, no Blood Rock Bar.

A BANDA
Marcus Dotta é um baterista que não tem preguiça de tocar. Já vi e ouvi o cara em diversas bandas, e pude acompanhar o começo de sua carreira. Nos idos de 2005, fiz a cobertura de um show de sua banda na época, o Thram, ao lado dos meus amigos de Child o’Flames na cidade de Ponta Grossa/PR. Um ano depois, o reencontrei em cima do palco, fazendo a abertura para um show do Nevermore. Uma década adiante, ele está tocando com Warrel Dane. Além disso tudo, Dotta está atualmente tocando na espetacular banda Soulhost. O exímio guitarrista Johnny Moraes se tornou conhecido por seu trabalho com o Hevilan, uma banda de Metal que deve ser ouvida ao menos uma vez na vida. O único full-length deles até agora, The End of Time, é uma obra de bom gosto raramente visto por aí.

Fanzine Mosh: Vocês foram contratados para ser a banda de apoio do Warrel Dane na turnê dele pelo Brasil em 2014. Nos shows de 2015, a parceria se repetiu. Tempos depois, vocês foram chamados para fazer uma turnê pela Europa, como banda oficial do cantor. Como ele chegou até vocês e como foi receber essa “convocação” para a tour pela Europa?
Dotta: Nos reunimos através do produtor Tiago Claro. No final de 2013 ele teve a ideia de trazer o Warrel para uma tour solo no Brasil tocando o melhor de toda sua carreira com músicos locais. Ele entrou em contato com o Warrel, e o mesmo topou na hora. Em seguida o Tiago já começou a buscar os músicos. Eu fui o último a entrar na banda através de uma indicação no Fábio Carito. Até os primeiros ensaios do instrumental, nunca tínhamos tocado juntos e nem nos conhecíamos direito. Felizmente a química deu muito certo e estamos até agora trabalhando da mesma forma!
Sobre nossa primeira tour na Europa com o Warrel, foi tudo também muito rápido. Quem produziu a tour foi o produtor grego Elias Aravidis e ele já estava em contato com o Warrel há algum tempo. Como o Warrel gostou muito do nosso trabalho, ele exigiu que fossemos para a Europa.
Johnny: Receber essa “convocação”  para a tour europeia foi uma honra, porque representou, por parte do Warrel, o reconhecimento por um trabalho bem feito que fizemos nos shows aqui do Brasil, em 2014 e 2015. A banda toda foi selecionada pelo Tiago Claro, da TC7 Produções, e pelo Thiago Oliveira, e posteriormente, pelo próprio Warrel, que assistiu a vídeos de todos nós tocando músicas do Nevermore, no You Tube.

Mosh: Quais músicas do repertório do Dane que você mais gosta de tocar ao vivo? Há alguma que você gostaria de incluir um dia?
Dotta: Gosto muito da “The River Dragon Has Come” e a “This Godless Endeavor”. A primeira pois foi uma das primeiras músicas que ouvi do Nevermore e já viciei de cara. A segunda pois ela é muito desafiadora de executar ao vivo. A música que eu gostaria de incluir é a “The Death of Passion” e creio que meu desejo será realizado em breve [de fato, a música entrou no repertório da banda].
Johnny: Uma das que eu mais gosto de tocar é a “The River Dragon Has Come”. Ela tem um trabalho bem interessante de guitarra base e solo, com riffs marcantes, harmônicos, duetos de guitarra e um solo curto, mas bem legal. Eu gostaria muito mesmo de tocar a “The Final Product”, do álbum “This Godless Endeavour”, porém o Warrel não gosta muito desta música.

Mosh: Quais motivos o levaram a deixar o Skin Culture?
Dotta: Eu acabei saindo da banda por discordar do direcionamento profissional que estavam tomando. O underground é muito complicado e se as coisas não forem muito bem planejadas, é difícil sustentar uma banda por muito tempo. Mas tive momentos muito legais com eles como tocar junto do Hatebreed em Curitiba, banda da qual sou muito fã, e o último show que fiz com eles no estádio municipal de Ribeirão Preto/SP, esse último com a estrutura que toda banda merece!

Mosh: Eu te conheci na estrada quando você ainda tocava no Thram, que, curiosamente, abriu para o Nevermore em Curitiba em 2006. Como foram aqueles tempos e como surgiu a oportunidade de abrir para o Nevermore?
Dotta: Foi onde comecei a levar música a sério. Tínhamos acabado de gravar um disco muito legal com o saudoso produtor Ricardo Nagata (RIP) e pouco depois o Nevermore veio para o festival Live n Louder [que aconteceu em São Paulo, dia 14 de outubro de 2006]. Vimos que eles fariam uma data em Curitiba no dia seguinte, descobrimos o produtor, mandamos material e lá estávamos nós. Foi demais pois naquela época eu já era muito fã da banda, deu para conhecer e conversar com todos eles. E pensar que 10 anos depois eu estou tocando com o próprio Warrel Dane é demais!

Warrel Dane 2016

Mosh: Perguntinha clichê, mas que não poderia faltar: Como é dividir o palco com um grande nome como Dane, e alguns anos depois, ser o integrante da banda dele?
Dotta: Como falei acima, é muito louco pensar como a vida da voltas. Em 2006 eu abria o show da banda dele como fã. Hoje eu sou da banda solo dele e amigo. Poder tocar todas aquelas músicas que eu ouvia há muitos anos atrás com ele é uma grande realização!

Mosh: O Warrel Dane participou do show comemorativo do Hevilan, e vocês regravaram com ele a canção “Shades of War” (além do clipe). A banda está pensando no próximo trabalho de estúdio?
Johnny: Sim, já estamos inclusive, iniciando agora nesse começo de 2016, os trabalho na pré-produção do segunda álbum da Hevilan. Queremos nesse novo trabalho apresentar canções ainda mais trabalhadas e lapidadas que no primeiro disco, numa proposta que mantenha a identidade da banda, mas que traga novos elementos, para enriquecer ainda mais nossas músicas . Para isso, estamos estudando a ideia de chamar outros cantores e/ou instrumentistas, para fazer participação especial, em nosso segundo disco. Por isso, provavelmente não iremos ter a participação do Warrel nesse novo trabalho.

Mosh: Quais, além do Warrel Dane, são as bandas que você está tocando no momento? E como estão os planos com esses grupos?
Dotta: Eu toco na banda Hatematter, estamos fazendo shows divulgando o novo disco da banda chamado Foundation, que é todo inspirado na obra do mestre da ficção científica Isaac Asimov. Também toco na banda O.S.P que tem um disco novo pronto e acabamos de gravar um clipe com uma grande produção. Muito ansioso pra lançar esse material. E também toco com a banda Soulhost, um som mais experimental, mas que é uma das produções das quais eu tenho mais orgulho de estar envolvido. As músicas estão prontas, já gravamos alguns vídeos também.
Johnny: Este ano estou cheio de trabalhos. Estou quase confirmado como convidado no novo disco solo do Mario Pastore, o que vai ser uma honra para mim também, pelo nome e histórico dele na cena metal do Brasil.

 

Warrel Dane em Curitiba, 2015

WARREL DANE
Mosh: Você e sua banda solo, brasileira, estão trabalhando em um novo álbum? Se sim, como estão as composições?
Warrel Dane: Bem, no momento estamos trabalhando em covers. Nosso plano é começar a trabalhar as músicas originais para posteriormente lançarmos um EP ou um álbum completo de covers. As músicas foram escolhidas por mim, são minhas favoritas, e esse trabalho se chamará “Shadow Work”. Depois disso, trabalharemos com músicas próprias. Na verdade, já começamos a trabalhar em cima do material original, então é por aí que vamos caminhar por enquanto.

Mosh: Ao fazer o setlist, como as músicas a serem tocadas são escolhidas? Você considera o que as pessoas querem ouvir ou elas são escolhidas por sua própria preferência? Existe alguma particularmente difícil de cantar, seja pela letra ou pela técnica exigida?
Warrel Dane: Bem, as músicas mais antigas do Sanctuary, obviamente. Eu não estou mais no meio dos meus vinte anos, então algumas destas eu simplesmente não quero mais cantar, porque eu não quero parecer um idiota… Eu foco nas minhas partes fortes, as músicas em que eu consigo fazer uma boa performance, e eu acho que isso é tudo que você pode fazer, sabe,  quando você vai ficando velho – odeio dizer isso. Odeio dizer que estou ficando velho! Mas, é claro, todo mundo fica velho. Eu apenas foco nas minhas partes fortes agora e não necessariamente naquilo que eu fazia quando era adolescente (risos).


Warrel Dane e banda em ação na Grécia.

Mosh: Seus shows solo têm apenas algumas músicas do Sanctuary, e somente as antigas. Por que não temos nenhuma música de “The Year The Sun Died” no setlist?
Warrel Dane: Hmm, pode ser que haja uma surpresa no show de São Paulo, pode ser que haja uma música nova… ou duas… ou três… ou quatro… ou cinco… ou seis [o referido show de São Paulo rolou dia 30/01, e não houve músicas novas, tampouco do álbum supracitado]. Não sei. Vamos ver. Sabe, eu posso tocar qualquer coisa que eu queira nos meus shows solo porque são todas músicas que eu fiz durante minha carreira, então não importa se alguém em alguma banda fica chateado que eu as toque  – bem, que se dane isso, eu não ligo… [Warrel faz uma pausa] Na verdade, eu ligo sim. Porque eu não quero chatear as pessoas. Se elas querem ouvir essas músicas então tudo bem, mas o Sanctuary virá ao Brasil em algum momento e isso é algo em que tenho pensado bastante e não acho que seja difícil de fazer, de trazer a banda para tocar aqui.

Mosh: Falando sobre você, o assunto Nevermore é inevitável, mas sejamos breves sobre isso. O último álbum gravado por vocês, The Obsidian Conspiracy, é um trabalho maravilhoso – mesmo a faixa bônus, “The Purist Drug” é absurdamente boa. Nós sabemos que o Jeff Loomis está no Arch Enemy agora, então você acha que seria realmente possível que no futuro nós pudéssemos ouvir um novo trabalho com o nome do Nevermore?
Warrel Dane: Bem, por que não você não conversa com o Jeff sobre isso? Eu já tentei. Eu acho que teremos um novo álbum do Nevermore, mas quem irá tocar nele, bem, isso é outra história. Houveram muitos guitarristas na história do Nevermore que eram mais do que capazes de segurar o nome, então se o Jeff não quiser gravá-lo, bem, bom para ele. Ele obviamente está fazendo mais dinheiro agora com o Arch Enemy do que conseguia com o Nevermore. Eu adoraria que fosse o Jeff, mas eu mal falo com o cara agora, e eu o conheço desde que ele tinha dezenove anos… Então, esse assunto é um pouco “azedo” para mim.

Mosh: Jim Sheppard está sempre com você, então, num “retorno” do Nevermore, ele provavelmente estaria lá. E o Van Williams? Seria possível ter um álbum do Nevermore sem ele?
Warrel Dane: Eu acho que seria possível ter um álbum do Nevermore sem o Jim e sem o Van. Eu preferiria que os dois estivessem lá, mas eu penso que certamente se fosse só o Jeff e eu as pessoas não ligariam para quem mais estivesse tocando. Nós somos o foco e fazemos tudo juntos. Então, eu acho que realmente não importaria se tivéssemos músicos diferentes. Mas vamos ver o que vai acontecer, essa não é minha prioridade agora.

Mosh: O álbum “The Year The Died Sun” demorou um pouco para ser lançado após ter sido anunciado. A espera valeu a pena porque o álbum é muito pesado e contém ótimas partes melancólicas – Exitium (Anthem of the Living) é um ótimo exemplo. A turnê terminou ou teremos novas datas? Como foi a turnê com o Overkill e o Symphony X?
Warrel Dane: Nós tocamos na Europa com o Overkill e fizemos um show na Europa com o Symphony X no mesmo lugar. Foi bom rever velhos amigos, eu adoro todos os caras do Symphony X e do Overkill, as pessoas nos trataram tão bem e nos conhecemos há muitos anos, então foi uma experiência maravilhosa.

ao vivo em 2015

Mosh: Algumas pessoas dizem que há similaridades musicais entre o Sanctuary e o Nevermore [Dane interrompe a pergunta]…
Warrel Dane: Não tem nenhuma, exceto pela minha voz. Vamos deixar isso claro agora. A música não soa nada parecida. Nevermore soa como Nevermore, Sanctuary soa como Sanctuary. O Sanctuary não está usando guitarra de sete cordas. A única razão pela qual as pessoas dizem que o Sanctuary soa como o Nevermore é por causa da minha voz. Eu sei disso, aceito  e estou bem com a situação. As pessoas precisam aceitar o fato de que as duas bandas são meio que entrelaçadas, porque o Jeff Loomis tocou no Sanctuary e… Sabe, sei lá. Mas musicalmente não acho que soam similares ou nada do gênero. Quer dizer, pelo vocal sim. Musicalmente? Não.

Mosh: Como fã, eu adoraria que houvesse mais um álbum ao vivo do Warrel Dane, solo ou do Sanctuary. Você já considerou essa possibilidade ultimamente ou está fora de questão?
Warrel Dane: Oh, não. Só mais um álbum solo, talvez dois, veremos. Tudo que eu sei é que soará diferente do que “Praises To The War Machine”, porque eu não quero me repetir, eu quero que seja mais pesado e mais brutal.

Mosh: Thiago (Oliveira Duarte, guitarrista da banda solo de Dane) disse em uma entrevista recente, antes da turnê solo “Dead Heart in a Dead World”, você pensou em convidar o Loomis para tocar – mas, ao invés disso, você começou a ensaiar com os brasileiros e decidiu fazer a turnê com eles. Você já considerou, de fato, a possibilidade de chamar o Jeff para tocar com a sua banda?
Warrel Dane: É claro que eu considerei isso. Se ele quer fazer ou não, isso é outra história. Eu não acho que ele tenha interesse nisso, mas nunca se sabe. Como o Tom Petty disse uma vez, “The future is wide open” (O futuro é incerto), vamos ver o que acontecerá.

Mosh: O que o público faz durante os shows que realmente te irrita muito?
Warrel Dane: O que realmente me irrita é quando as pessoas ficam na primeira fileira com a porra dos celulares e apontam eles para a sua cara durante a porra do show inteiro. É isso que realmente me irrita. Entendo porque Geoff [Tate, ex-vocalista do Queensrÿche] tira o celular da mão das pessoas de cima do palco. Eu nunca faria isso, é muito rude e desrespeitoso, mas eu entendo o motivo. É muito invasivo, parece que você não está mais no seu show, é como se… eu não sei como descrever, mas eu odeio, especialmente quando estão na primeira fila. E eles ficam só segurando e apontando pra cima, a porra do tempo inteiro, a porra do show inteiro, quer dizer, não parece mais um show de rock… É uma experiência diferente quando as pessoas estão fazendo esse tipo de merda. Elas sentem como se pagar por um ingresso fizesse você ter direito a gravar o show inteiro, mas… Sei lá. Então, lembre-se disso da próxima vez que você vier para a porra de um show.

Mosh: Você cantou algumas músicas de outros artistas na sua carreira. Qual artista você gostaria que fizesse um cover de uma de suas músicas?
Warrel Dane: Eu gostaria que o Green Carnation fizesse um cover de uma das minhas músicas solo. Eu sei que é meio aleatório, mas adoro muito essa banda (risos).

Interview · News

Postado em Maio 22nd, 2016 @ 10:06 | 1.369 views
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