13 Dec 2017, 6:39 pm

Obituary Faz Show Memorável No Fabrique Club


Obituary @Fabrique Club, São Paulo – 18.11.2017

Texto: Henrique de Paula
Fotos gentilmente cedidas: Daniel Ferreira Rocha

No dia 18 de novembro de 2017, o Fabrique Club, casa de shows que herdou do Clash Club a posição de sede de shows de metal do bairro Barra Funda-SP, recebeu a banda americana de Death Metal, Obituary. Em turnê de divulgação de seu último álbum, lançado neste ano, e que leva o nome da banda como título, os americanos provaram mais uma vez por que merecem o título de lendas de seu estilo musical. Em um fim de semana que ofereceu diversas opções aos bangers paulistanos, com Zakk Wylde, tocando ao mesmo tempo em outra casa, e um festival de Folk Metal agendado para o domingo, os fãs dos americanos fizeram sua parte, marcando presença em uma noite histórica, pois se eu disser que o Obituary deu uma aula de Death Metal não terei pecado apenas pelo clichê, como terei sido ainda injusto com a banda, já que o que ela fez desta vez em nossa metrópole metálica foi algo quase indescritível. Quase… pois vou tentar.

Os americanos da Flórida, em atividade desde 1988, e em sua sétima passagem pelo Brasil, mostraram desde o início do show que tinham o mesmo objetivo dos fãs paulistanos: a mais pura diversão! Simpáticos, descontraídos, bem-humorados e em constante comunicação com o público, entregaram um massacre sonoro que nem os fãs mais otimistas da banda antecipavam. A noite foi, sem sombra de dúvidas, uma festa para público e banda que, além dos irmãos Tardy (John no vocal e Donald na bateria), conta com Trevor Peres na guitarra base, Kenny Andrews na guitarra solo, e Terry Butler no baixo. A casa (que, diga-se de passagem, foi uma belíssima escolha da TC7, produtora do show, que aliás foi impecável em todos os aspectos possíveis em termos de organização deste evento), encheu apenas lentamente, enquanto uma singela homenagem para o falecido Malcolm Young era prestada, com músicas do AC/DC rolando para esquentar a galera. A ausência de uma banda de abertura, porém, acumulou tamanha ansiedade no público, que este não pode mais conter sua energia quando os americanos subiram ao palco, fazendo-me testemunhar um fato inédito em meus quase vinte anos de presença em shows de música pesada: a roda de mosh começou antes que a banda tocasse os acordes iniciais da primeira música! Sim, em uma bizarra inversão, “Redneck Stomp”, do álbum Frozen In Time (2005), foi executada pelo Obituary para acompanhar a plateia brutal que transformou a pista em um liquidificador humano. A canção instrumental que tem realizado a abertura dos shows da banda já há algum tempo, possui riffs e andamento que lembram bastante as músicas do antigo álbum The End Complete (1992) que, infelizmente, não teve nenhuma faixa incluída no setlist. Na sequência, o que todos sabiam, mas gostariam de comprovar mais uma vez, John Tardy continua urrando como sempre! “Sentence Day”, uma das mais rápidas do novo álbum, fez a galera arder em chamas, corroborando o que já havíamos ouvido de quem presenciou o show do Satyricon, uma semana antes no mesmo local: o som do Fabrique Club é perfeito – durante toda a apresentação escutamos uma sonoridade cristalina e sem embolação. Antes de “Visions In My Head”, do disco Inked in Blood (2014), John saúda o público pela primeira vez na noite, e a música que já pode ser considerada um clássico do Obituary, apesar de muito recente, acelera ainda mais a roda de mosh. Aliás, esta permaneceria infernal até o final do show, com quase nenhuma pausa para descanso. Mais lenta do que em sua versão original no disco Cause of Death (1990), a introdução de “Chopped In Half” convoca todos os que ainda não haviam começado a agitar, e neste momento a roda de mosh alcança quase todo o espaço da casa. Noto, então, o que para mim era a segunda curiosidade e fato inédito da noite: os americanos haviam trazido ao palco um cooler lotado de cervejas que passavam agora a distribuir a si mesmos ao longo da apresentação! “Turned Inside Out”, do mesmo álbum, é mais cadenciada e acalma um pouco a galera (pois era preciso…), revelando a estratégia da banda na noite: um repertório quase igualmente dividido, uma parte dedicada às canções mais novas, a outra dedicada aos antigos clássicos. Trevor Peres gira o dedo no ar, anunciando o que estava prestes a acontecer na pista ao som de “Find The Arise”, outro clássico incontestável presente em Cause of Death. A partir deste ponto do show, o palco não seria mais ocupado apenas pelos membros da banda, pois os mais corajosos do público começam a praticar o infame esporte de shows de rock conhecido como stage diving. A banda retorna, na sequência, para as músicas do novo álbum, e “A Lesson In Vengeance”, com seu ritmo peculiar e pegada cavalgada, se prova uma das favoritas do último lançamento.  A cadência da música é acompanhada pela galera aos gritos e Terry Butler revela que a apresentação naquela noite era dedicada ao querido guitarrista base do AC/DC, falecido pela manhã. “Brave”, também do último álbum, é muito rápida, e o público responde ao grito do baterista Donald Tardy, que lá do fundo do palco pela primeira vez fala com os fãs. Música curta e certeira, adornada no show por mais stage divings… “Straight To Hell” continua apresentando o mais recente disco ao público paulistano que parece não cansar na pista, encantando os membros do Obituary: Trevor e John não param de sorrir com o que está acontecendo. O vocalista, então, aproveita a longa introdução instrumental de “Dying” para descansar, em nova incursão ao glorioso passado da banda do início dos anos 90. A música “No”, lançada apenas como bônus da edição digital do último álbum, é executada e muitos escutam pela primeira vez um dos riffs mais insanos já compostos pelos americanos; uma música de andamento vertiginoso que pode ser conferida em vídeos promocionais no Youtube, onde o destaque é a pegada veloz e precisa do baterista Donald Tardy. Trevor Peres, então, levanta seu copo de caipirinha para saudar o público, antes que “’Till Death”, do primeiro álbum da banda, e sua sucessão de belíssimos urros de John Tardy, preencham as caixas de som do Fabrique Club. O fim da canção é perfeito com a primeira garota a subir ao palco e voltar à plateia pelo ar, mostrando que o amor ao Death Metal não encontra barreiras entre os gêneros. Os ânimos esquentam demais na roda com o frenesi causado por “Don’t Care” do álbum World Demise (1994), e um princípio de confusão é logo dissipado – ora, ninguém ousaria manchar a memória daquela noite perfeita que o Obituary proporcionava aos presentes. Até John Tardy está extasiado e abrindo os braços para a plateia, visivelmente emocionado, sem querer, acerta o rosto de Trevor Peres.

O guitarrista encara com muito humor a primeira cena cômica da noite e os dois devem estar rindo até agora do ocorrido… A banda deixa o palco, que tem suas luzes apagadas, e ficamos apenas com um som distorcido de guitarra, anunciando o que todos sabem ser apenas uma falsa despedida. Depois da galera insuflar os pulmões com o nome da banda, os americanos retornam para o desfecho. Donald Tardy é o primeiro a voltar e vem à frente do palco agradecer ao público pela noite inesquecível; sem ter muito o que dizer, o baterista perpetra o segundo momento cômico da noite, gritando no microfone a primeira palavra que lhe vem à mente: felizmente a única que qualquer fã ali compreenderia – um desajeitado, mas muito sincero “Yes!”. Retorna ao seu posto, sem esquecer de pegar antes mais uma cerveja do cooler, ovacionado pelos fãs, para a última tocada do novo álbum: “Turned To Stone”. O próprio John Tardy puxa o grito de bis, para a execução de “Slowly We Rot”, que ninguém duvida ser, infelizmente, a última da noite, e quando pista e roda de mosh finalmente são uma única e mesma coisa, o mais lindo stage diving da noite é realizado…Não que devamos encorajar a prática desta perigosa atividade, mas foi sim um lindo salto livre de braços estendidos, daqueles de filmar, tirar fotos e aplaudir. Última curiosidade da noite: após o show presenciei alguns dos “esportistas” do mosh e do stage diving fazendo alongamento no fundo da casa.

Com o fim da apresentação, que durou pouco mais de uma hora, mas pareceu apenas dez minutos aos presentes, Donald fica de pé no banco da batera, joga beijos ao público, enquanto Trevor Peres ri à toa, fazendo barulho com sua guitarra, John e Terry contemplam a casa exaustos, e Kenny Andrews tira uma foto para guardar um registro de um dos melhores shows do ano de 2017 na terra da garoa. Visivelmente, a banda não quer sair do palco, mas finalmente o faz, e do mesmo jeito que entrou: sem nenhuma firula, sem fumacinha expelida no ar, sem musiquinha gravada de fundo: humildade e honestidade autênticas! Donald Tardy volta ainda outra vez para agradecer, e no som da casa ouvimos agora mais AC/DC. O sentimento é forte aos fãs que tem de voltar para casa debaixo de forte chuva, mas com dois ecos dentro da mente: Obituary rules! Malcolm Young lives!

SETLIST

1-Redneck Stomp
2-Sentence Day
3-Visions In My Head
4-Chopped In Half
5-Turned Inside Out
6-Find The Arise
7-A Lesson In Vengeance
8-Brave
9-Straight To Hell
10-Dying
11-No
12-‘Till Death
13-Don’t Care
14-Turned To Stone
15-Slowly We Rot

Mosh Live · News

Postado em novembro 28th, 2017 @ 13:23 | 129 views
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