18 Oct 2017, 9:47 pm

Overload Music Fest 2017: Tudo Sobre O Festival


Overload Music Fest 2017 @ Carioca Club, São Paulo – 16.09.2017

 

Texto: Henrique G. de Paula
Fotos: Renato Jacob

Sobre o festival e a casa

Neste último sábado, dia 16/09, o Carioca Club, no bairro Pinheiros, em São Paulo, abrigou fãs de diferentes estilos no Overload Music Fest, festival que vem construindo sua tradição desde a primeira edição de 2014, e que já trouxe grandes nomes como Alcest e God Is An Astronaut (2014), Anathema e Paradise Lost (2015), e Katatonia (2016), em edições anteriores. Desta vez, o cast, que só trazia bandas inéditas aos brasileiros, era composto do americano John Haughm, da banda francesa Les Discrets, dos islandeses do Sólstafir, e da lenda norueguesa Enslaved. Para quem não conhece a casa de shows, originalmente construída para eventos de samba e pagode, e que se tornou nos últimos anos ponto de encontro de bangers e roqueiros, o Carioca Club dispõe de uma divisão natural de ambientes que a tornou uma perfeita escolha para a edição de 2017, repetindo o feito da edição anterior. Na parte interna da casa, o público teve espaço suficiente para circular livremente durante os shows, sem pegar filas para comprar bebidas ou usar os banheiros, e pode até se sentar em cadeiras e mesas que se postavam no fundo da pista; no segundo ambiente interno, material das bandas e do festival, como camisetas e CDs, eram vendidos em pequenos stands, e uma pequena exposição de pôsteres com gravuras do artista Fursy Teyssier, líder do Les Discrets, era realizada. Pôsteres assinados por Fursy podiam ser comprados, assim como belos cartazes das edições anteriores do festival.  Na parte externa, um barbecue americano era realizado, com lanches “gourmet” vendidos, e os artistas se revezavam ao longo da noite em um gratuito Meet & Greet.

 

John Haughm

Próximo das 17h40, com um texto do premiado escritor americano Cormac McCarthy figurando no telão, e um som gravado que acompanharia, de fundo, toda sua apresentação, a soturna figura de John Haughm subia ao palco. Com seu habitual traje completamente preto, chapéu, botas, sobretudo, e óculos escuros, o americano fez uma curta apresentação, em um palco quase sem iluminação, deste modo planejado para provocar o efeito tétrico que o músico desejava. Haughm, que hoje se apresenta como um “one-man-band”, atraiu ao festival fãs de sua antiga banda americana de Black Metal, Agalloch, para uma apresentação sem nenhuma comunicação ou interação com o público. Imagens em preto e branco de paisagens áridas e de lápides passavam no telão durante a execução de seu som ambiente, puramente instrumental, marcado por uma guitarra suja, pesada e distorcida. No início do show, ruídos de vento construíam um clima místico para quem conseguia se envolver em sua viagem pessoal pois a performance de Haughm parece tentar levá-lo para outra dimensão. Haughm é um músico que precisa ser compreendido no contexto de sua proposta artística, pois do contrário o som que tira de sua guitarra pode parecer pura autoindulgência; uma observação atenta, porém, é capaz de perceber o quanto cada detalhe é sutilmente arquitetado para proporcionar ao público uma experiência diferente do que estamos acostumados em um show de metal.

A atenção ao seu lúgubre silêncio e aos gestos quase ritualísticos de suas mãos só era quebrada quando o artista se abaixava para regular a distorção de sua guitarra nos aparelhos. Em certo momento, já próximo do final da apresentação, Haughm tocou de costas para a plateia, deixando o palco às 18h10, do mesmo jeito que entrou: absolutamente calado e indiferente ao público, como se estivesse sozinho no clube. Sem o anúncio dos nomes das músicas durante a apresentação e sem o setlist que não foi divulgado pelo artista, é muito provável que somente os fãs mais ardorosos saibam quais músicas o artista entregou em seu show. Recebeu aplausos de todos aqueles que compreenderam que o aparente desdém de sua performance era teatralização calculada, o que ficou provado quando no Meet & Greet atendeu muito simpático e solícito aos seus fãs.

 

Les Discrets

Entrando às 18h25 no palco, a banda Les Discrets, que veio como um quarteto, sem sua tecladista de shows, quebrou a monotonia da primeira performance, mostrando-se, logo no início da apresentação, como a grata surpresa do festival. Já neste momento, pudemos constatar a grande quantidade de fãs que lá estavam pela densa e atmosférica sonoridade post-metal/shoegaze, com pitadas de indie, dos franceses. Fursy Teyssier, artista plástico, multi-instrumentista, e líder da banda, aparece por último no palco, sendo recebido com muito carinho pelos fãs, sentimento que ele fez questão de retribuir ao longo de todo o show. Aliás, o Meet & Greet dos franceses foi o mais disputado do festival, rivalizando, talvez, apenas com o do Sólstafir. Com o desenho macabro que serve de imagem ao cartaz de divulgação de sua turnê no telão, após breve introdução, os franceses iniciavam com a música “L’Échappée” do primeiro álbum “Septembre Et Ses Dernières Pensées”, de 2010. O palco agora era melhor iluminado e interessante jogo de luzes acompanhava o clima das canções, cantadas todas em francês.

A banda seguiu com “Les Feuilles De L’Olivier”, do mesmo álbum, com problemas técnicos na guitarra e na bateria corrigidos rapidamente, e “Le Reproche”, do último álbum lançado neste ano, “Prédateurs”. À esta altura, era inegável que a banda tinha o público em suas mãos. Podia-se ver até mesmo “black metallers”, fãs do Enslaved, curtindo o show e elogiando o grupo. Ao contrário de Haughm, Fursy, muito simpático, falava entre as músicas, agradecendo a presença dos fãs e revelando a emoção de estar no Brasil pela primeira vez. O setlist prosseguiu com a nova “Virée Nocturne” e “Le Mouvement Perpétuel”, do segundo álbum “Ariettes Oubliées”, mostrando as interessantes melodias vocais produzidas por Fursy e o segundo guitarrista, que em um dos momentos mais emocionantes da noite não se conteve e gritou em delicioso francês: “Brésil!”. O público do Carioca, que agora já era bem maior do que na primeira apresentação, enchia a pista, mas não lotava a casa. “Chanson D’Automne”, do debut, e “Après L’Ombre” do segundo álbum, são executadas, enquanto o Sólstafir já atende seus fãs lá fora no Meet & Greet.  “La Nuit Muette”, que começa com uma guitarra mais rápida, sem as tradicionais introduções quase minimalistas típicas da banda, é seguida quase sem pausa pela longa “La Traversée”, ambas do segundo álbum. Após esta canção, Fursy revela que é a realização de um grande sonho estar no Brasil, e é saudado pelos fãs que em vários momentos do show gritaram seu nome. A clássica “Song For Mountains” é a última de um show carregado de sentimentos; em sua execução, acompanhada por palmas da plateia, a canção fechava uma apresentação de que os fãs certamente jamais esquecerão. Ao final da apresentação o nome da banda é gritado quase em uníssono.

 

Sólstafir

A banda que mais agitou em cima do palco, com constantes movimentações dos músicos, que trocavam de lado para chamar a atenção dos presentes de cada parte da pista, foi o Sólstafir, que iniciou o show às 20h20, após o intervalo mais longo da noite entre as bandas. Os islandeses foram ovacionados durante todo o show, e numa apresentação muito calorosa – em claro contraste com sua gélida origem – transmitiram muita energia em cima do palco. O vocalista “Addi” Tryggvason, gesticulava bastante ao cantar, interpretando as canções e, extremamente comunicativo, esbanjou carisma diante do público. Em determinado momento do show, emprestava os celulares dos fãs e filmava a plateia e a si mesmo como em uma “selfie”. Desde o lento início de “Silfur-Refur”, do mais recente álbum “Berdreyminn”, deste ano, a banda é acompanhada pelos fãs, que em nenhum momento do show se intimidou com a língua materna do grupo e cantou todas as músicas. Apenas o logotipo da banda aparecia no telão, pois os vikings das terras geladas não precisam de nenhum enfeite no palco que eles dominam com perfeição. O vocal único de “Addi” e o apelo atmosférico das canções são as principais características da música do Sólstafir, ao lado do peso extremo das guitarras intercalado com passagens lentas dedilhadas ou com notas longas isoladas. “Ótta”, do álbum homônimo de 2014, é bastante celebrada com seu início hipnótico, e no meio de sua execução Addi vem à frente pedindo para a galera gritar. A longa “Náttmál”, do mesmo disco, que começa lenta e com um bonito efeito de guitarra, é sublimemente vocalizada, seguida de “Ísafold”, do último trabalho, com Addi levantando a guitarra para o alto, saudado pelo público.

Ao final da canção o vocalista anuncia que faria naquele momento algo que sempre sonhara em sua carreira, soltando um “Hello, São Paulo!”, com os fãs aclamando a banda. “Djáknin”, de “Svartir Sandar” de 2011, com seu início tétrico, é acompanhada de palmas do público em sua execução e, na sequência, o grande hit da banda, deste mesmo álbum, “Fjara” arrepia a todos em seus primeiros acordes; em sua parte mais rápida o público agita e pula, e pela primeira vez na noite parecemos estar em um típico show de heavy metal, com punhos atingindo o ar e Addi tocando sua Flying V na vertical, bastante aplaudido. Antes da música “Svartir Sandar”, Addi pede que alguém traduza para o português o nome da música (areia negra) que é recebida com entusiasmo pelos fãs. A canção mais pesada tocada pela banda na noite termina com Addi lembrando o gesto imortalizado pelo saudoso Lemmy Kilmister, apontando sua guitarra à plateia como se fosse uma metralhadora. O público grita o nome da banda, antes de Addi avisar que não teremos um “encore” porque estamos em um festival. Antes de executar a longa “Goddess Of The Ages”, do álbum Köld, de 2009, o vocalista brinca novamente pedindo que todos finjam estar em um show do Iron Maiden e que gritem após a contagem 1, 2, 3, 4! Observa que o grito feminino superou o dos homens, acrescentando que as mulheres sempre ganham, de qualquer jeito… O show se encerra às 21h28, deixando o sentimento de que passou muito rápido e poderia ter durado mais.

 

Enslaved

Demorou muito, mas aconteceu: a lenda norueguesa do Black e Viking Metal aportou no Brasil! Fez o show mais longo do festival, com muita interação com o público, agradecendo por estar no país pela primeira vez. Em contraste com a atitude da maioria das bandas do estilo “maldito”, os membros do Enslaved foram pura simpatia e distribuíram sorrisos, iniciando a apresentação às 22h10 com “Ruun” do álbum homônimo, de 2006, e “Death In The Eyes Of Dawn” de “Riitiir”, de 2012. As músicas, em que se intercalam os vocais rasgados de Kjellson e os vocais limpos do tecladista Vinje, dominavam os fãs, responsáveis no festival pelos únicos “horn signs” em profusão. “Ground” de “Vertebrae” (2008) deu continuidade ao show, com Kjellson lembrando que todas as músicas tocadas naquela noite seriam as primeiras da banda tocadas no Brasil. Seu andamento lento foi perfeito para a galera acompanhar com gritos de “Hey! Hey! Hey! Hey!”. A canção “Ethica Odini”, de 2010, era dedicada aos irmãos vikings do Sólstafir, cujos membros circulavam na plateia conversando e tirando fotos com os fãs. Muito aplaudidos, os membros do Enslaved retribuíam expressando alegria em seus rostos. Brindando com o público brasileiro, que ficou confuso ao ouvir o vocalista gritar “Skol!” (“saúde” na língua escandinava), Kjellson anunciava cada música por seu nome, logo antecipando que todos ali estavam esperando pela agressiva “One Thousand Years Of Rain”, do último álbum.

Depois da apresentação de todos os membros da banda, começaria a parte “old school” do set. “Heimdallr” e “Vetrarnótt”, do início dos anos 90, deixaram as auras das pessoas sujas e carregadas, como deve ser em um show de Black Metal. Da mesma época, “Allfodr Odinn” é dedicada aos deuses nórdicos e a pancadaria sonora inspira a primeira grande roda da noite que não mais desapareceria até o final do show. Kjellson ensina o sinal com as mãos característico do próximo petardo do homônimo álbum de 2004, “Isa”, cujo refrão congela a alma, propiciando um clima que faz todo mundo pensar estar em um ritual pagão. Na sequência, um falso final, com a banda deixando o palco, apenas para que o público peça o bis e cante o seu nome, com direito a “olê! olê! olê!”, acompanhado pelo baterista em seu kit, que acaba fazendo um breve solo. Os músicos do Enslaved retornam, enfim, triunfantes para “Slaget I Skogen Bortenfor”, última viagem pelo tempo aos primórdios da banda, e que encerra o show mais pesado e agressivo do festival, talvez inclusive de todas as suas edições.

 

SETLISTS

John Haughm (não divulgado)

Les Discrets
1-L’Échappée
2-Les Feuilles De L’Olivier
3-Le Reproche
4-Virée Nocturne
5-Le Mouvement Perpétuel
6-Chanson D’Automne
7-Après L’Ombre
8-La Nuit Muette
9-La Traversée
10-Song For Mountains

Sólstafir
1-Silfur-Refur
2-Ótta
3-Náttmal
4-Ísafold
5-Djákninn
6-Fjara
7-Svartir Sandar
8-Goddess Of The Ages

Enslaved
1-Ruun
2-Death In The Eyes Of Dawn
3-Ground
4-Ethica Odini
5-One Thousand Years Of Rain
6-Heimdallr
7-Vetrarnótt
8-Allfodr Odinn
9-Isa
10-Slaget I Skogen Bortenfor

 

Mosh Live · News

Postado em setembro 24th, 2017 @ 09:26 | 196 views
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