29 Jul 2017, 9:44 am

Epic Metal Fest: Ecletismo e produção de alto nível


Epic Metal Fest @ Audio, São Paulo – 15.10.2016

07-epica

Texto por Kenia Cordeiro e Clovis Roman
Fotos por Clovis Roman

O Epica é uma das bandas mais importantes do atual cenário do Metal em todo o mundo. Assim como  o Sabaton, o grupo tem seu próprio festival (e não me espanto se anunciarem um “Epic Cruise Fest” um dia desses), que teve edições com um cast de responsa na Europa. A banda, tendo ciência de sua forte base de fãs pra esses lados, trouxe seu festival para o Brasil, com a produção da Overload Productions, empresa mais que respeitada no ramo de shows. O ambiente escolhido foi o Audio, uma casa grande que comportou dois palcos e mostrou ter uma estrutura e espaço bacanas. Sobre a casa, o único ponto fraco foi o preço da cerveja, exorbitante – 15 reais numa lata de 350ml é caro, não?

Xandria

Xandria

XANDRIA
O show da banda de metal sinfônico, com um ímpeto adolescente tocante, começou de maneira pontual. Um pouco de lentidão no caótico trânsito paulistano nos fez chegar 10 minutos após o horário previsto, 14h30. O Xandria já estava em sua 3ª música. A “nova” vocalista (entrou em 2013) Dianne van Giersbergen não fez feio ao vivo: a moça não desafina nunca, se mantendo bem até mesmo nas passagens mais agudas, mais altas.  Sua voz tem um timbre um tanto quanto infantil às vezes; na platéia, alguém comentou que era um “Xou da Xuxa” com guitarras. Apesar do desdém (e o show foi muito legal), a brincadeira tem sua lógica.

Quanto presença de palco, Dianne não demonstra um completo domínio em sua movimentação frente à plateia, marcada por gestos repetitivos; as mesmas “dancinhas” sempre. Em alguns momentos sentimos falta de um “feeling metal” – essa coisa do diva-charmosa às vezes é cansativo, mas funciona. No geral, a apresentação agradou os presentes, os alemães – e a holandesa – se apresentaram para uma casa cheia, considerando o horário. O set list conteve músicas do seu recente trabalho Sacrificium (2014) mas também clássicos como “Ravenheart”, de 2004.

Project 46

PROJECT46
O primeiro show do palco 2 foi do Project46, que atraiu curiosos que haviam acabado de sair do Xandria. Havia também fãs da banda, claro. O vocalista Caio diversas vezes agradeceu o público pela presença, enfatizando os que vieram de longe para vê-los. Havia pessoas do Rio de Janeiro, Fortaleza e claro, nós de Curitiba. Por fim, todos puderam ver uma apresentação enérgica do quinteto, apesar de estar um tanto deslocado no lineup. O bloco de concreto sonoro dos caras atingiu a todos de maneira bastante efetiva. Sons como “Erro+55” e “Foda-se” deram seu recado contundente. O repertório foi curto, apenas 7 músicas. Um verdadeiro rolo compressor.

Finntroll

Finntroll

FINNTROLL
Os finlandeses do Finntroll foram os primeiros a atrasar a apresentação, devido a alguns problemas com microfones e teclados (afinal, dava para ouvir os técnicos de som conversando). Mas a demora foi de apenas 10 minutos, um período que não causa maiores transtornos. Com tudo resolvido, o grupo finlandês subiu ao palco cheio de energia, trazendo suas pinturas características e orelhas de seres mitológicos. Algumas pessoas na plateia estavam usando as mesmas pinturas faciais da banda. O show foi animado, conduzido pela presença transtornada de Vreth (o vocalista, cujo nome verdadeiro é Mathias Lillmåns). O repertório foi bem montado, mas claro, teve maior ênfase no álbum Blodsvept, o mais recente dos caras, lançado em 2014.

The Ocean

The Ocean

THE OCEAN
A maioria absoluta do grande público do evento desconhecia totalmente o The Ocean. Mas a presença dos alemães foi o toque especial ao cast, pois seu show foi um massacre de peso, e ao mesmo tempo repleto de melodias formidáveis. Dá para chamá-los de uma banda progressiva, mas o rótulo não descreve fielmente o poder do som da banda. Seguindo a introdução “Epipelagic”, “Mesopelagic: Into the Uncanny”  abriu o repertório. Na segunda música, “Bathyalpelagic I: Impasses”,  o insano vocalista Loïc Rossetti já tinha dado uns dois ou três stage-divings na galera (sem aviso prévio). Durante o set, o cara ainda “teve a moral” de enfiar o microfone na cara da galera na grade, dar mais uns “moshes” e se jogar de cima das caixas de som laterais (cuja altura é de quase 3 metros). Não houve pano de fundo, tampouco os efeitos visuais que eles usam lá na Europa, mas nem fez falta. Sua música inebriante foi mais que suficiente.

O seu repertório durou exatamente uma hora, sendo 52 minutos de música em si, e os restante 8 minutos com os intervalos e conversas com a platéia. Público que no começo estava presente em pouca quantidade, mas que foi aumentando gradativamente, principalmente após o fim do show do Finntroll no palco principal. O setlist foi composto de dez músicas (mais a intro), sendo todas elas vindas do último disco deles, Pelagial, de 2013. O show acabou de maneira apoteótica, com o Robin Staps fazendo uma barulheira com ecos e microfonias enquanto arrebentava as cordas de sua guitarra. Eles ofereceram um Meet & Greet gratuito, e foram ultra simpáticos com todos, de verdade. Não era apenas questão de sorrir pra foto e “thank you”. Eles foram realmente receptivos com a galera, humildade total. O querido baterista Paul Seidel nos contou que o vôo para o Brasil foi bastante cansativo, mas que valeu a pena pelo show, que eles gostaram bastante. Sobre a cerveja brasileira, ele foi bem sincero: “Tenho que prestar mais atenção nas cervejas. Mas esta aqui é boa até”, disse, ao se referir a Brahma.

Paradise Lost

Paradise Lost

PARADISE LOST
O Paradise Lost foi a banda mais experiente do festival. Fundada no final dos anos 80, lançou seu álbum de estréia em 1990, o bruto Lost Paradise. O som, outrora calcado no Death Metal, foi adquirindo contornos mais góticos, como sugere o disco do segundo álbum: Gothic. Vinte e cinco anos mais tarde, outros 12 trabalhos foram lançados, alguns deles contestados, mas nenhum deles de baixa qualidade. Com repertório curto, a banda mesclou algumas canções clássicas, dos anos 90, com três de seu disco mais novo, o espetacular The Plague Within. A abertura com a sorumbática No Hope in Sight trouxe uma forte carga emocional, desabilitando temporariamente os sentidos. O público, bastante heterogêneo, foi afetado de maneiras variadas. Os que ansiavam por vê-los se entregaram de braços e coração abertos. Os curiosos ou desavisados assistiram com uma certa impassibilidade, mas com profundo respeito. As seguintes, “Pity the Sadness” e “One Second” vieram para satisfazer os fãs antigos, enquanto que “Erased” contemplou os que preferem os materiais do atual milênio (claro que há convergência entre esses dois perfis). Para o encerramento, após a ótima “Beneath Broken Earth”, veio o maior sucesso comercial dos caras “Say Just Words”, onde Nick Holmes interagiu com o público, que respondeu a altura. Um show cheio de sentimento e amargura, que ao lado do The Ocean foi o melhor do evento. Mas preciso falar que poderia muito bem ter rolado “An Eternity of Lies” – comentário meramente figurativo, admito.

Tuatha de Danann

Tuatha de Danann

TUATHA DE DANANN
Uma resenha de show é baseada nas opiniões do seu escritor. A idéia é fundamentar os argumentos deste com seu conhecimento prévio, tentando ao máximo ser imparcial. Em sua totalidade, o “imparcial” é impossível, mas tentamos sempre chegar o mais próximo dele. Enfim, tudo isto para que eu comece a falar do Tuatha de Danann com uma afirmação contundente: Esta é, certamente, uma das cinco melhores bandas já surgidas no Brasil em todos os tempos. Os caras, que começaram nos anos 90, ainda um tanto impregnados com o peso do Metal, desenvolveram rapidamente sua sonoridade para algo único, marcante e brilhante. O grupo havia encerrado suas atividades, apenas fazendo alguns shows esporádicos, mas agora, como preconiza uma das músicas de seu último álbum – “We’re Back” – eles estão de volta com tudo!

Os shows anteriores no segundo palco tiveram públicos tímidos, mas na hora do Tuatha a coisa estava simplesmente lotada! Não por menos. Seu som, que é muito mais folk que propriamente Metal, é uma delícia, convidativo a danças e bebedeiras. A formação básica é a mesma desde quase sempre, ou seja: Bruno Maia (guitarrista, vocalista e responsável por mais uns 10 instrumentos como flautas e bandolim), Rodrigo Berne (guitarra e vocais do mal), Giovani Gomes (baixo e vozes) e o baterista Rodrigo Abreu. Completam o time atualmente o tecladista Edgard Britto, que está na trupe desde 2003, e Alex Navar, incorporado a formação em 2014, e responsável pela gaita de fole. Destacar uma ou outra canção é difícil, mas o crescendo moderado da sublime “The Last Words”, a bonitinha “Land of Youth” e a derradeira, “Finganforn”, merecem menção. Um arregaço celta; fenomenal!

EPICA
Os donos da festa subiram ao palco com o jogo ganho. Afinal, era o festival deles, portanto, era o show que causou mais frisson  na galera. A casa cheia, com mais de duas mil pessoas, viu o grupo abrir seu repertório com faixas novas como “Edge of the Blade” e “A Phantasmic Parade”, que se saíram muito bem ao vivo. O mais recente álbum dos holandeses, The Holographic Principle, acabou de sair e já é candidato a clássico em sua discografia. O trabalho é pomposo, pesado e melodioso na medida certa, e tem canções que parecem terem sido feitas para serem tocadas ao vivo. Um bom exemplo é “Universal Death Squad”, além das já citadas – e também incluo “Tear Down Your Walls” e “Once upon a Nightmare”, nunca antes tocadas ao vivo. Na verdade, do recém lançado disco apenas a colossal “The Holographic Principle – A Profound Understanding of Reality” e “ The Cosmic Algorithm” não foram tocadas.

Mark Jansen, do Epica

Mark Jansen, do Epica

Além da overdose de canções novas, tivemos uma boa surpresa para os fãs: “Mother of Light”, que há cinco anos não aparecia no repertório. Esta foi a deixa para a banda encerrar sua apresentação com o hit “Consign to Oblivion”. No meio disso tudo, algumas canções acabaram soando um tanto deslocadas, mas no geral o show foi bem bacana. De ponto negativo mesmo foi o fato da voz de Simone Simons soar um tanto estridente em diversos momentos, chegando até a incomodar. Mas nada que desmoralize ou diminua a importância da banda e de seu espetáculo ao vivo. Uma das características marcantes que pudemos notar durante a apresentação, é a movimentação dos integrantes no palco durante as músicas. Talvez essa seja uma forma de não concentrar a atenção apenas na vocalista ou no líder da banda, Mark Jansen, fazendo com que os outros integrantes fiquem no centro do palco e tenham a merecida visibilidade, menos o baterista, por motivos óbvios.

O Epica tem crescido cada vez mais, no nosso país e em diversos outros. E puderam comprovar que não são uma banda de um hit só, tanto que a música que até alguns anos atrás era sua mais conhecida, “Cry for the Moon”,  sequer foi tocada. E nem fez tanta falta; o público queria mesmo era poder apreciar as canções novas ao vivo.

O saldo final do evento foi bastante positivo. Havia opções de lanches, alguns do cardápio da casa e outros de food-trucks localizados na parte externa, os horários foram cumpridos, com atrasos mínimos em algumas apresentações. Um modelo comum lá fora que começa a ser usado aqui no Brasil. Tem tudo pra dar certo.

Mosh Live · News

Postado em outubro 24th, 2016 @ 14:35 | 1.009 views
–> –>


Notícias mais lidas
«
»